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Argumentos atrasados impedem Manaus de olhar para o futuro

Por Dante Graça - jornalista e editor-executivo do Portal A Crítica 19/04/2017 às 21:49 - Atualizado em 19/04/2017 às 21:57
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A Manaus de hoje é diferente da Manaus que eu via na década de 1980 e 1990, quando costumava passear pelo Centro da cidade com minha vó, ou mesmo sozinho, já adolescente. 

Naquela época, eu andei  de 'Manequinho' e depois comecei a viver as aventuras de trafegar nas linhas 613 e 614, que ligavam Japiim ao Centro.  Era uma época boa, claro. Mas ficou pra trás.  

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia  e Estatística (IBGE) colocam Manaus com uma população estimada em 2 milhões de habitantes. Não dá para dizer que a cidade não é grande e desenvolvida, apesar de  seus - muitos - problemas e deficiências básicas.

Os tempos mudaram. A cidade cresceu bastante, mas ainda temos representantes eleitos pelo voto popular que parecem viver em décadas passadas.

Durante audiência pública realizada hoje na Câmara Municipal de Manaus, para debater a possível regulamentação de plataformas como o Uber na capital amazonense, o vereador Elissandro Amorim Bessa, do PHS, tratou Manaus como uma verdadeira província e mostrou que há parlamentares que discutem situações sem sequer conhecer o básico.

Bessa, que é taxista, conforme seu registro de candidatura das eleições de 2016, questionou se Manaus precisa de um serviço como o Uber.  E afirmou: "Manaus é diferente do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Brasília. Em Brasília desce um voo a cada minuto. Aqui desce um de manhã, um de tarde, e um de noite".

O vereador foi eleito pelo povo de Manaus com 5.167 votos.  Segundo dados da Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero), são, em média, 7 mil passageiros por dia, entre chegadas e partidas, no Aeroporto de Manaus - que certamente não caberiam em um voo de manhã, outro à tarde e outro à noite. São, inclusive, mais passageiros por dia que eleitores de Bessa. E todos merecem uma cidade melhor e com mais opções.    

Não dá para saber se o vereador do PHS está preocupado com o bem-estar da população ou em garantir tarifas abusivas, amparadas por lei municipal,  que chancelam, por exemplo, um valor fixo de R$ 65 de uma corrida da Praça do Dom Pedro, na zona Oeste da cidade, para o Aeroporto Internacional Eduardo Gomes.  A mesma corrida, solicitada via Uber, no início da noite de hoje, sai por R$ 18.

Outra "preocupação" do parlamentar é com o cadastro feito com o cartão de crédito no aplicativo.  Mas hoje, por exemplo, eu não preciso pegar um Manequinho para ir ao Centro comer um kikão na lanchonete que ficava na já extinta Praça São Sebastião - e que era delicioso, por sinal. Hoje, posso cadastrar meus dados em aplicativos como iFood e Abrafood e pedir na minha residência. E nunca vi vereadores preocupados com habilitação dos motoboys que fazem a entrega, ou mesmo com os dados que as pessoas colocam nesses aplicativos.

A relação entre um cliente e uma empresa é de confiança. Tanto que o Uber fez muito mais barulho e teve muito mais adesão - e até oposição -  que seu concorrente recente, o YetGo.

É preciso que parlamentares saiam de seus pedestais e de seus discursos vazios e busquem, de fato, o que é melhor para a população. A regulamentação, óbvio, é necessária. Mas dentro de termos coerentes e que não inviabilizem o serviço. E para isso é preciso de equilíbrio de nossos representantes nas discussões.  E não apenas meros discursos vagos para seus próprios umbigos.