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Esperança incendiada

Por André Alves - Editor-Executivo do Jornal A Crítica 30/05/2017 às 20:38 - Atualizado em 30/05/2017 às 20:41
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O desespero de quem vê o pouco que tinha em chamas (Foto: Jander Robson)

Curioso. O secretário de Segurança Pública, Sérgio Fontes, acaba de dizer que “um atentado contra a vida de um policial fere o estado democrático de direito e não será tolerado”. Enquanto a frase era enviada à imprensa, por meio de nota, uma ocupação inteira, onde o corpo de um PM foi encontrado, era destruída pelo fogo, minutos após a saída do secretário de Segurança do local. 

Até que o corpo do policial militar Paulo Sérgio Portilho, 34, começasse a ser procurado naquela região, nunca antes os moradores do bairro Nova Cidade viram tantas viaturas. De certo modo, a sensação até foi de segurança. Afinal, a marca no bairro é de abandono: a iluminação é precária; crimes de execução são comuns; famílias ainda carregam latas d’água na cabeça; jovens não têm opções de lazer; adolescentes são, diariamente, aliciados pelo tráfico. 

Mas na tarde desta terça-feira (30), finalmente, o Estado se fez presente naquela comunidade. De farda. Até o chefe maior da Segurança Pública estava lá. Por algumas horas, o Nova Cidade ganhou a importância que sempre sonhou ter em duas décadas. Havia gente do poder por lá! Quem sabe os pais ficariam mais tranqüilos com os filhos brincando nas ruas?

A missão do Estado na região era outra, entretanto. O corpo do PM Paulo Sérgio Portilho estava desaparecido desde sexta-feira. Uma força-tarefa foi montada para encontrá-lo e envolveu 50 homens do Canil, a Força Tática, a Rocam, uma Cicom inteira e o setor de Inteligência da Polícia Militar, além da Divisão de Repressão do Crime Organizado e agentes Delegacia Especializada em Homicídios e Seqüestros. 

Vítima exatamente da infeliz violência que assola Manaus, o corpo de Sérgio Portilho foi encontrado enterrado em uma área invadida no bairro Nova Cidade. Meia hora depois, os barracos da ocupação começaram a pegar fogo. Centenas de famílias perderam tudo. O choro não é apenas na família Portilho. Seria bom que não fosse em nenhuma.  

Cumprida a missão na região, o Estado se foi. Uma comunidade ficou em chamas. A esperança de dias melhores foi incendiada no bairro Nova Cidade, que segue sem segurança pública, sem transporte coletivo adequado, sem iluminação pública, sem praças, com ruas esburacadas e com o tráfico de drogas dando as ordens. Quem sabe um dia os representantes do poder público voltem a visitar a região. Espero em Deus que não seja pelo mesmo motivo.