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Incêndio que destruiu barracos é página triste na história de Manaus

Por Luciano Falbo - subeditor do caderno de Cidades do jornal A CRÍTICA 14/07/2017 às 14:05 - Atualizado em 01/08/2017 às 20:50
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O incêndio que destruiu pelo menos oito barracos de madeira na comunidade Meu Bem, Meu Mal, no bairro Compensa 2, Zona Oeste de Manaus, na noite desta quinta-feira (13), é uma página triste ainda não superada da história da capital amazonense, a cidade que anseia ser metrópole mundial.

Essas ocupações precárias nas margens do rio e de igarapés sofrem com os alagamentos e as doenças que eles trazem durante a cheia, e no verão, com o lixo que ficou após a descida das águas. 

O risco de incêndios em locais como esse - onde a maioria das habitações é de madeira, todas muito próximas umas das outras e com ligações de energia improvisadas - é potencializado pelo calor e tempo seco do período. Qualquer pequena fagulha pode se tornar o estopim para uma grande tragédia. Situação que faz com que morar ali, além de todos os riscos sociais possíveis e de saúde óbvios, signifique viver contando com a sorte de que não haja um sinistro e que, havendo, ninguém morra ou saia ferido.

O problema de contar com a sorte em condições assim, quando tudo contribui para que o pior aconteça, é que ela falha com regularidade. 

Com o passar dos anos, como no caso do ciclo das águas, é possível ver um roteiro se repetindo: as famílias desabrigadas vão pleitear ajuda, vão ganhar apoio dos poucos entes dispostos a ajudar, como igrejas e a Defensoria Pública, e terão que se contentar com o pouco que será dado pelo poder público (se é que vão conseguir algo), que sequer deverá compensar a perda total de bens, já escassos. 

Enquanto isso, a cidade padece com um alto déficit habitacional. E as ações do poder público para garantir moradias minimamente decente para a população têm sido insuficientes até para evitar a expansão de ocupações nas poucas áreas verdes que restam da zona urbana, quanto mais para alcançar essa população que já está estabelecida nesses locais há décadas. 

Dessa forma, vai virando corriqueiro de tempos em tempos os jornais terem que noticiar casos de incêndios como esse da comunidade Meu Bem, Meu Mal, ou como o da rua Paulo VI do Petrópolis no ano passado, ou como o do beco Bragança do Presidente Vargas em 2012, ou o da comunidade Artur Bernardes no mesmo ano...

Os agentes públicos e políticos deveriam se mirar no exemplo de solidariedade demonstrado durante o incêndio da última noite na Compensa. Moradores dos arredores, mesmo aqueles com casas melhores e longe do barranco onde ficam as moradias atingidas, estavam unidos empenhados em apagar as chamas muito antes dos bombeiros chegarem, formando uma corrente humana, carregando baldes com água para evitar que o fogo se alastrasse mais ainda e prestando todo o apoio possível aos mais atingidos. 

Permitir que famílias continuem sobrevivendo nessas condições é submeter Manaus a um atraso que já não lhe cabe mais. Para uma cidade que gastou milhões para receber alguns poucos jogos dos dois mais importantes eventos esportivos do mundo recentemente, era de se esperar que problemas fundamentais como esse já tivessem sido superados.

Enquanto questões como essa não tiverem sido resolvidas, podem continuar gastando milhões em publicidade nacional e internacional para promover a cidade, mas, dia sim e dia não, os problemas internos vão denunciar essas páginas tristes, aniquilando qualquer propaganda positiva lá fora, pelo simples fato de que eles existem e não podem sempre ser mascarados. 

 * * *

PS: Ninguém nem parece interessado o suficiente para levar alguns créditos em um capítulo novo da biografia da cidade, o capítulo que dirá que moradias assim são coisas de um passado que não volta mais.