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Os órfãos do PM Sérgio Portilho

Por André Alves - Editor-Executivo do Jornal A Crítica 02/06/2017 às 09:01 - Atualizado em 02/06/2017 às 09:11
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Morto e enterrado em uma área invadida do bairro Nova Cidade, na Zona Norte de Manaus, o policial militar Paulo Sérgio Portilho, 34, deixou dois filhos, um de seis, outro de 10, além da esposa. As investigações apontam que o PM foi morto porque era PM. Segundo a apuração, a ordem para matá-lo partiu de traficantes.

Conforme o relato de familiares, Portilho visitou a ocupação na sexta-feira (26). Saiu de casa dizendo que pensava em investir na compra de um terreno. Nunca mais voltou. De acordo com os investigadores, ao ser reconhecido como policial por traficantes, ele foi cruelmente executado. Não é de hoje, infelizmente, que o tráfico de drogas decreta mortes na periferia de Manaus.

Saber agora que duas crianças vão crescer conscientes de que a violência lhes arrancou o pai, de maneira tão cruel, é insuportável. A dor da esposa, dos pais, dos irmãos. A dor de quem ama... Pior que imaginar essa dor é saber que outras famílias vão voltar a chorar porque, especialmente naquela região, o poder público só chega com o crachá do IML.

A área em que o policial foi encontrado morto foi invadida há nove meses. À época, conforme o jornal A CRÍTICA publicou, tanto os órgãos de Segurança quanto a Prefeitura de Manaus já sabiam que a organização dos barracos, em boa parte, era feita pelo tráfico. Houve uma tentativa de retirar os invasores. Eles voltaram. Era época de eleição. Eles ficaram. Nunca mais saíram. A maioria das casas já era de alvenaria. Tudo pegou fogo na tarde de terça-feira (30). Tragédia em cima de tragédia.

Não são apenas duas crianças que estão órfãs do pai, infelizmente. A violência neste caso só reforça que toda a periferia está órfã do poder público. Toda semana dezenas de jovens são executados nas Zonas Norte e Leste de Manaus (e as fotos ‘divertidamente’ compartilhadas por WhatsApp). Todo dia é dia de luto na periferia, área que, ironicamente, é sempre escolhida para que políticos vomitem mentiras em comícios eleitorais (você já viu algum comício na Ponta Negra?).

Há uma clara diferença de tratamento (de gasto, atenção e investimento) entre as zonas da cidade. Os mais carentes seguem mais carentes (iluminação pública e quadras de esporte é luxo nas Zonas Norte e Leste). Para quem não conhece essa realidade, POR FAVOR, faça esse exercício uma vez na vida: circule durante à noite nos bairros Santa Etelvina, Monte das Oliveiras, Cidade de Deus, Tancredo Neves, Val Paraíso, apenas para ficar em alguns exemplo. É de dar dó ver tanta gente em paradas de ônibus escuras, rodeadas pelo mato, pondo a vida em risco, porque precisa trabalhar, estudar, quem sabe passear.

Nas margens do Igarapé do Passarinho (o ex-presidente Lula já até fez um discurso de campanha lá, em 2014), por falta de opção, os moradores fazem “cooper” na escuridão, em calçadas arrebentadas, tomados por um cheiro maldito, pisando no esgoto que escorre  pela sarjeta. Na Zona Centro-Sul, moradores de condomínios de luxo têm o “direito” de caminhar num certo “Passeio do Mindu” (bem tratado, bem iluminado, e é bom que seja). Não sobra dinheiro para fazer algo do tipo no “Igarapé do Passarinho”?

A conseqüência do desprezo da administração pública à periferia de Manaus está todo dia nas páginas dos jornais. A morte cruel do policial militar Paulo Sérgio Portilho não tem como causa apenas a “crueldade” de um grupo de vagabundos. É o reflexo mais latente, nos últimos dias, de uma ausência absolutamente consciente do poder público. (Só lembrando: a invasão estava instalada há nove meses).

Enquanto o prefeito, o governador, os deputados e os vereadores assistem a tudo isso (e seguem visitando a periferia com o único objetivo de postar fotos nas redes sociais), “os maus ficam e os bons vão embora”, como disse Paulo César Portilho, pai do PM morto. Os bandidos festejam a ausência do poder público todo dia. Duas crianças estão órfãs.