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Autora dos poemas da obra 'Tropicália', de Hélio Oiticica, lança livro em Manaus

24/11/2017 às 15:50 - Atualizado em 24/11/2017 às 16:07
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Instalação "Tropicália" (1967) é composta pelos penetráveis “PN 2 - A pureza é um mito” e “PN 3 - Imagético”

Rosiel Mendonça
rosiel@acritica.com

Em abril de 1967, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro era ocupado pela exposição “Nova Objetividade Brasileira”, com trabalhos de expoentes da vanguarda artística nacional, como Lygia Clark, Ferreira Gullar e Hélio Oiticica. Este último, em especial, acabou sendo o responsável pela obra mais emblemática daquela mostra: a instalação “Tropicália”, que pouco depois batizaria o movimento cultural encabeçado por Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Em meio às plantas nativas que faziam parte da ambientação de “Tropicália” repousavam alguns poemas curtos, escritos à mão em suportes como madeira, cerâmica, tijolos e telhas. Quem visse aquilo poderia até supor que eles também eram criação de Hélio, mas por trás da autoria dos “poemobjetos” estava a paraense Roberta Camila Salgado, cunhada do artista. Agora, 50 anos depois, a escritora lança em Manaus um livro com a reunião desses e de outros poemas produzidos entre 1965 e 2015. A sessão de autógrafos acontece neste sábado (25), no Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (rua Frei José dos Inocentes, 132, Centro), a partir das 10h.

A publicação é dividida em duas partes: uma é dedicada aos nove poemas de “Tropicália” e suas respectivas traduções para o inglês; a outra se chama “Verdes correntes” e é uma coletânea de poemas que refletem a vivência amazônica da autora, que nasceu em Belém e morou em Manaus. “Eu me criei no meio da natureza. Meu avô era médico e o hobby dele era plantar. Tínhamos um sítio à beira do rio Guamá, onde eu aprendi a nadar. Então toda essa influência da Amazônia aparece na minha poesia”, conta Roberta.

Sobre a participação em “Tropicália”, a escritora diz que Hélio Oiticica sempre admirou a forma que ela escolheu para mostrar seus poemas. “Poemobjeto nada mais é que o poema em cima do objeto, que pode ser qualquer coisa. Era um projeto que eu pretendia desenvolver nas paradas de ônibus, restaurantes, aeroportos, mas que acabou não dando certo. O Hélio viu aquilo e disse que fazia questão de ter meus poemas numa obra que ele estava desenvolvendo”.

Ambiente sensorial

O próprio Oiticica se encarregou de selecionar quais poemobjetos iria usar no futuro trabalho. Alguns versam sobre a natureza e outros sobre a situação do Brasil pós-golpe, com referências cifradas ao verde-oliva e ao preto do uniforme dos militares. De certa maneira, a ideia de escrever poesia em suportes encontrados no dia a dia dialogava com a proposta de “instalação ambiental” de Hélio, que naquele momento se interessava pelas experiências artísticas sensoriais.

“Desde o início sabíamos que ‘Tropicália’ seria importante, e ela acabou se tornando mesmo um marco da brasilidade. A obra tem plantas, aves, cheiro de patichouli, priprioca, chitão... O colorido da ‘Tropicália’ é puro Brasil. Era o que a gente tinha que fazer, porque estávamos sendo invadidos pelos EUA culturalmente e politicamente, como viemos a descobrir depois”, afirma Roberta, que tem outros poemas dessa época ainda inéditos.

“Tenho poemobjetos para o Che Guevara, Marighella, Zuzu Angel e o filho Stuart. Esses eu nunca publiquei nem lancei, porque sabia que se fizesse isso naquela época a guerra comigo ia aumentar. Mas pretendo lançá-los no Rio de Janeiro no ano que vem. Agora não sei como vai ser a reação, mas vou tentar”.

Roberta Camila sobre os poemobjetos

"O poemobjeto, que é diferente do poema-objeto neoconcretista, é a tentativa de uma poesia sintética, que chegue ao âmago da ideia sem ser supérfluo. Chamo de ‘haicais caboclos’. O que sugiro é que a poesia se faça presente no dia a dia das pessoas, das cidades, em qualquer lugar dentro ou fora de casa, como acontece quando é musicada".

Hélio Oiticica sobre "Tropicália"

“O ambiente criado era obviamente tropical, como num fundo de chácara e, o mais importante, havia a sensação de que se estaria de novo pisando na terra. Esta sensação sentira eu anteriormente ao caminhar pelos morros, pela favela, e mesmo o percurso de entrar, sair, dobrar pelas 'quebradas' de tropicália, lembra muito as caminhadas pelo morro”.

Confira abaixo uma imersão na "Tropicália" montada na mostra retrospectiva de Hélio Oiticica no Whitney Museum of American Art, em Nova York: