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Manaus, capital do grafite na Amazônia?

O grafite se encontrou com a cultura amazônico-planetária e ampliou as possibilidades de uma arte popular-contemporânea 09/09/2017 às 23:57 - Atualizado em 09/09/2017 às 23:59
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Um dos murais do viaduto entre a Constantino Nery e Álvaro Maia (Antonio Lima)

Rosiel Mendonça
rosiel@acritica.com

Passando por avenidas como Djalma Batista, Cosme Ferreira e Senador Álvaro Maia (sem falar nos parques e outros logradouros), a impressão que fica é que Manaus tem potencial para se converter, logo mais, na capital do grafite na região Norte. Por que não?

A exemplo de São Paulo e Buenos Aires, cidades que hoje são polos da arte de rua na América Latina, atraindo atenções para suas “galerias” a céu aberto, a capital amazonense tem recebido uma série de intervenções com spray em espaços de grandes dimensões e intenso fluxo de pessoas. Resultado de trabalhos coletivos que varam a madrugada, esses murais são de uma expressividade única, e se inserem numa tendência mundial que tem no brasileiro Eduardo Kobra e na dupla OsGemeos alguns dos seus expoentes.

Encabeçados por uma turma de artistas veteranos, os recentes mutirões criativos trouxeram vida aos paredões de importantes viadutos e passagens de nível de Manaus. Normalmente, esses “não-lugares” não favorecem em nada uma conexão afetiva com quem passa de carro, ônibus ou a pé. Mas, quando ocupados pelas intervenções artísticas, o efeito é outro: a cidade e o nosso olhar ganham pontos de respiro e contemplação, uma experiência estética num horizonte de caos.

O melhor de tudo é que o amazonense consegue se enxergar nessas obras, porque elas não camuflam a herança humana e natural da cidade. É como se esses murais abrissem portas e janelas para as muitas dimensões do nosso imaginário, refletindo de volta cenas e rostos familiares. Aqui, o grafite se encontrou com a cultura amazônico-planetária e ampliou as possibilidades de uma arte popular-contemporânea de primeira grandeza.

Por isso é que essas intervenções não devem ser reduzidas a simples ações de “embelezamento” ou “ornamentação” da cidade, como a propaganda oficial às vezes alardeia. Os murais que vimos surgir nos últimos meses são maduros trabalhos de criação, frutos de técnica e sensibilidade, e devem ser valorizados por esses atributos.

Ideias não faltam para transformar Manaus em referência no segmento da arte de rua. Já se comenta, por exemplo, sobre a proposta de liberar algum desses viadutos aos domingos para eventos de curta duração ou para que a população simplesmente possa ver as obras mais de perto.

Da parte do poder público – e isso parece bem mais simples – também valeria apostar no mapeamento dos murais existentes na cidade, o que seria útil até na criação de roteiros alternativos para o turista ligado em experiências mais urbanas. Um exemplo disso é o Museu Aberto de Arte Urbana (MAAU), criado em São Paulo. Lá, 33 pilastras do metrô que se eleva ao longo da avenida Cruzeiro do Sul, na Zona Norte, viraram uma exposição permanente para os artistas da cena paulistana.

Outra estratégia passa pelo fomento público ou privado a iniciativas como o Festival Amazônia Walls, que acabou de acontecer no viaduto da avenida Álvaro Maia. O evento pode se tornar o espaço ideal para a troca de experiências entre os artistas daqui e de fora, além de ser um estímulo aos talentos ainda adormecidos.

Ações como essa merecem entrar de vez na agenda cultural, chegando a outras zonas da cidade, democratizando o acesso aos muros, fachadas de prédios, e abrindo mais espaço às mulheres grafiteiras de Manaus. Quanto mais diversidade melhor!