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Thiago de Mello pede o tombamento de casas projetadas por Lúcio Costa em Barreirinha

Filha do poeta, Isabella Thiago de Mello lidera campanha que pede o aceleramento do processo junto ao Iphan 04/12/2017 às 13:34 - Atualizado em 04/12/2017 às 13:37
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Casa do Andirá é a única que ainda pertence ao poeta e funciona como sede de instituto (Divulgação)

Rosiel Mendonça
rosiel@acritica.com

O interior do Amazonas está a um passo de ter seus primeiros bens materiais reconhecidos como patrimônio histórico nacional. Os bens em questão são cinco edificações construídas pelo poeta Thiago de Mello (91) em Barreirinha, município a 331 quilômetros de Manaus, a partir de projetos assinados pelo arquiteto Lúcio Costa, autor do plano piloto de Brasília. Ameaçado de diferentes formas, esse conjunto arquitetônico é a única obra de Lúcio Costa na Amazônia e é foco de um processo de tombamento em análise no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 2013.

Filha do poeta, a produtora e roteirista Isabella Thiago de Mello agora tenta acelerar o tombamento por meio de uma campanha de sensibilização junto aos membros do Conselho do Iphan, instituição da qual Lúcio Costa foi um dos fundadores, há 80 anos. “Nós aqui no Amazonas não temos nenhuma edificação tombada fora da capital. No interior, temos apenas bens imateriais, que são a Cachoeira do Iauaretê e o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro”, explica Isabella, que está à frente dos projetos especiais do Instituto Thiago de Mello.

“A casas do meu pai marcam o encontro de dois notáveis da cultura brasileira: o arquiteto e o poeta. Nós devemos enaltecer esse patrimônio. Queremos que ele esteja aberto às crianças das escolas de Barreirinha e municípios vizinhos. De alguma maneira, isso vai na nossa autoestima, porque meu pai foi um curumim que nasceu aqui no interior da floresta, estudou em Manaus, se fez jornalista e poeta, rodou o mundo e voltou para cá de tanta saudade. É a oportunidade de qualquer criança do interior se identificar com essa história”.


Casa da Frente do Paraná do Ramos quase foi demolida

Patrimônio ameaçado

Os primeiros projetos de Lúcio Costa para Thiago Mello datam de 1977, quando o autor de “Os Estatutos do Homem” voltou do exílio político. O poeta desejava viver de novo em Barreirinha, sua terra natal, e o arquiteto resolveu presentear o amigo: “A sua casa está pronta, pode vir buscar”, disse Lúcio Costa, ao telefone, depois de desenhar as plantas em quatro folhas de papel ofício.

Com o projeto em mãos, Thiago comprou um terreno de 12 mil metros quadrados na Rua Terra Preta do Castanhal e ergueu uma casa de três andares, um torreão e a Biblioteca Moronguetá. O escritor batizou o lugar de Porantim do Bom Socorro. Thiago viveu e trabalhou durante 15 anos no Porantim, e foi lá que ele escreveu “Amazonas, Pátria da Água”, “Amazônia, a Menina dos Olhos do Mundo” e outros livros.

Na década de 90, o sítio foi vendido para o Estado, que repassou a propriedade à Prefeitura de Barreirinha. Tempos depois, a administração municipal demoliu a biblioteca e interferiu na arquitetura dos outros prédios. Parte do acervo que permanecia lá também sumiu. “A sensação da demolição da biblioteca é como se fosse uma queima de arquivo. Depois que levaram tudo, mais de dois mil livros, o jeito era demolir. O que passa na cabeça de um administrador público para dar uma ordem dessas?”, questiona Isabella Thiago de Mello.


Projetos originais da casa de três andares do Porantim do Bom Socorro

Os outros projetos de Lúcio Costa são a Casa da Frente, no Paraná do Ramos , e a Casa da Ponta da Gaivota, às margens do Rio Andirá. Esta última hoje funciona como sede do Instituto Thiago de Mello e é a única edificação que ainda pertence ao poeta. Em 2005, ele também vendeu a Casa da Frente para o Estado, que a transferiu em regime de comodato para a prefeitura com o compromisso de que o lugar seria transformado em memorial. Em 2013, completamente abandonado, o prédio quase veio abaixo durante as obras de revitalização da orla de Barreirinha, como lembra Isabella.

“Foi o Iphan do Amazonas que salvou a Casa da Frente da demolição, quando a superintendente Sheila Campos embargou a obra exigindo o estudo arqueológico, conforme a lei ambiental, fazendo ressalva para que se preservasse a arquitetura de Lúcio Costa. Essa atitude de proteção imediata só foi possível porque ela leu a denúncia do jornal A Crítica sobre o ‘bota abaixo’ que iria ser realizado na Rua da Frente a partir da casa do poeta. Uma semana depois demos início ao processo de tombamento”.

Futuro

Segundo ela, uma vez tombadas, as casas passarão por obras de restauro, que incluirá a reconstrução da Biblioteca Moronguetá. “O tombamento é só a ponta do iceberg, mas depois disso a prefeitura não vai poder abandonar. Em seguida tem a preservação e manutenção desses espaços. Para a casa do Andirá temos um projeto em separado e esperamos conseguir um mecenato para manter o acervo que está lá. A proposta é que elas sigam o conceito de museu e memorial, como são as casas do Pablo Neruda, Chico Mendes, Santos Dumont e Frida Kahlo”.

Isabella, que já conta com o apoio da Secretaria de Cultura do Amazonas, diz estar confiante na campanha do tombamento junto ao Iphan. “Primeiro, porque o processo já está em Brasília. Segundo, porque o Conselho é constituído de pessoas sérias. Assim que o processo com o dossiê chegar às mãos deles, acredito que eles terão todos os requisitos necessários para o tombamento. Espero que também fiquem sensibilizados com a questão do tempo e da importância de acelerar o processo para que se inicie o restauro com Thiago e Maria Elisa (filha de Lúcio Costa) vivos”.

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Thiago de Mello, sobre a construção do Porantim do Bom Socorro, em Barreirinha

“Faço questão de constar que fui eu próprio o mestre de obras das três construções, eu que antes em minha vida sequer começara a fazer uma casa.Trabalhei lado a lado com admiráveis mestres carpinteiros da floresta, filhos da água e da madeira, com os quais tanto aprendi: fincar os esteios, marcar o lugar exatíssimo dos dentes das vigas, vigiar a perfeita angulação das tacaniças e das mãos francesas, serrar de viez a ponta das pernamancas, e disfarçar a emoção do instante em que o encaixe da cumeeira inaugura o coração da casa”.