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A Cidade Vazia

Crônicas de Domingo - 06 de Maio de 2018 06/05/2018 às 00:00 - Atualizado em 06/05/2018 às 08:37
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O incêndio seguido de desmoronamento no Largo do Paissandu, no centro da cidade de São Paulo, marcou o início da semana que passou e deixou uma série de reflexões para nós, que estamos a 2.689 km de distância de lá, em linha reta. A capital paulistana tem um enorme inventário de imóveis abandonados e invadidos, com extenso levantamento de dados a respeito. Só para se ter uma ideia, o número de domicílios vagos naquela cidade seria suficiente para atender toda a população que vive hoje em áreas de risco. A informação desperta a atenção de nós cidadãos e chama a que possamos trazê-la à nossa realidade manauara. A quantidade de imóveis abandonados em Manaus é enorme e salta aos olhos. E não é preciso ser perito, nem especialista, para saber dos riscos. Mas se alguém for atrás da informação vai se deparar com um levantamento de 2010, oito anos atrás, que dá conta de 98 imóveis abandonados, restritos ao Centro Histórico.

Manaus não se enxerga e nem se reconhece em informações e ignora dados importantes, mesmo que eles gritem por socorro e atenção. Inúmeras vezes falamos aqui neste espaço dos vazios urbanos, onde a cidade a cidade morre por abandono e abre margem para buracos negros anticidadania e antiqualidade de vida. Para muito além de prédios históricos, como a Santa Casa de Misericórdia, que atestam nossa incapacidade de respostas urbanas, há um sem-número de imóveis, em todas as zonas da cidade, onde famílias vivem em condições sub-humanas. Mas a cidade oficialmente desconhece a situação, não tem dados a respeito, parece não se importar e não trata aquelas pessoas sequer como números, que dirá como cidadãos.

Talvez no Centro seja maior a visibilidade, por conta da beleza, ou da imponência, ou mesmo do estado de decadência de algumas dessas construções, e dos resquícios de calçadas que ainda nos permitem caminhar, coisa que nos bairros muitas vezes não encontramos. Só nos quarteirões margeados pela Ramos Ferreira, Luiz Antony, José Clemente e Joaquim Nabuco dá pra contar, um atrás do outro. No coração do Centro, ao Lado do Teatro Amazonas… Estamos falando de sobrevivência: da sobrevivência de famílias; da sobrevivência da cidade, enquanto tecido urbano; da vitalidade econômica de áreas da cidade; da cidadania e da qualidade de vida. Falamos até de segurança pública, uma vez que casas e prédios abandonados cedem espaço a ocupações marginais de toda espécie, fragilizando o entorno e servindo de abrigo a assaltos, à venda e uso de entorpecentes e a todo tipo de prática danosa.

Mesmo assim, não temos números, nem políticas públicas para tratar o problema. Não há qualquer estímulo à recuperação e ocupação desses imóveis, com moradia ou empreendimentos comerciais; não existe um pacto em favor da cidade e de seus cidadãos. Andamos vazios, vazios de atenção ao que realmente importa! Até a próxima tragédia, quando serão anunciadas todas as providências que já teriam que ter sido tomadas há muito mas que, depois, se tornarão inúteis e servirão apenas para preencher o discurso, ainda mais vazio, das autoridades! #Pensa