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Manaus Inteligente

Crônicas de Domingo - 3 de Dezembro de 2017 03/12/2017 às 00:00 - Atualizado em 03/12/2017 às 07:36
Show a esfinge da selva

A semana passou e fiquei com a chuva de quinta-feira na cabeça. Pouco menos de uma hora de um temporal amazônico foi suficiente para deixar a cidade um verdadeiro caos: diversos pontos de alagamento, queda de árvores e interrupção no fornecimento de energia elétrica. Até aí, deve parecer que nada houve de excepcional – afinal toda chuva é assim. Entretanto, as consequências daquele toró merecem sim uma atenção mais detida de nossa parte.

Há um tempo atrás, diríamos que uma chuva daquelas inundaria rapidamente São Paulo e Rio de Janeiro – orgulhosos de que aqui os danos eram sempre menores. Mas o tempo passou e já não sei dizer se esses danos são tão menores que aqueles que seriam provocados nas capitais do Sudeste. A única diferença é que lá chuvas torrenciais são raras, são exceções, enquanto aqui elas são parte da paisagem do inverno amazonense – temos que estar preparados para elas.

Há décadas, principalmente a partir do surgimento da Zona Franca de Manaus e do consequente crescimento desordenado da cidade, temos subestimado os danos ao meio ambiente natural, aterrando e assoreando igarapés, ignorando a necessidade da ampliação das redes de esgoto e de águas pluviais, tudo em favor de uma Manaus mais moderna. Mas um dia a conta desse destempero chega – e tenho quase certeza que já chegou, e não foi ontem. Basta ver os prejuízos acumulados após uma chuva que não deve ser vista como anormal para quem mora na Amazônia.

Maceió, Darcy Vargas, Avenida Brasil, Sete de Setembro intransitáveis, com o nível da água muito acima do esperado. Se falamos de áreas nobres, o que dizer daquelas que são periféricas? O fato é que a situação só tem piorado, consequência de nosso comportamento enquanto construtores de uma cidade contemporânea, que almeja ser metrópole da Amazônia. E as chuvas estão aí, não vão esperar encontrarmos uma solução aos danos que provocamos. Aliás, por sinal, não vejo ninguém falar sobre “soluções”.

Os grandes condomínios continuam jogando seus dejetos nos cursos d’água, poluindo e assoreando ainda mais seus leitos, e novos empreendimentos são licenciados para construção, sem qualquer novidade. Ninguém fala no aumento da rede de esgoto. Na quinta-feira da chuva vi muita gente postando e comentando nas redes sócias, nas imagens dos desastres provocados, associando o caos à propaganda eleitoral de Manaus como uma possível “cidade inteligente”. Nada mais natural: o povo cobra as promessas dos eleitos.

Cidades inteligentes – sim, o conceito existe em termos de urbanismo – estão relacionadas a “melhores alternativas para evitar o desperdício ou o esforço desnecessário para a execução de atividades rotineiras”. A tecnologia evolui em uma velocidade que excede as expectativas, mas a cidade não a transfere em benefício dos cidadãos. Uma cidade inteligente “representa um ecossistema inovador, caracterizado pelo uso generalizado de tecnologia na gestão de seus recursos e infraestrutura”. Pelo que tenho visto, temos um longo caminho a percorrer, até construirmos uma “Manaus Inteligente”. E é melhor começar logo a construí-la – por que a natureza já envia seus sinais muito claros. Agora, por onde devemos começar? #Pensa