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O Fascínio da Violência

Artigo de Domingo - 4 de Junho de 2017 03/06/2017 às 00:00 - Atualizado em 03/06/2017 às 20:22
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Mateus Ferreira da Silva foi aquele estudante de Goiânia, golpeado por um policial, com um cassetete, durante uma manifestação contra as reformas trabalhista e previdenciária. Mateus não havia feito nada de errado. Sofreu traumatismo cranioencefálico, ficou 12 dias na UTI, outros dois na enfermaria e teve alta com uma marca na testa que transfigura seu rosto. Nas redes sociais, um desses grupos repletos de si mesmo, em suas convicções, colocou a foto do rapaz, com o enunciado: “Um PM tatuou um mapa do Brasil na minha testa para eu saber que aqui não é a Venezuela”. Meu amigo Claudio Jobim reproduziu o post e disse: “O Brasil está doente”!

Quando um cidadão comum é ferido apenas por expressar sua opinião, por um PM, um servidor público, que tem por responsabilidade profissional proteger aquele cidadão, e o gesto é aplaudido publicamente, não resta dúvida que estamos doentes. Doentes de uma violência inexplicável, abrindo mãos de princípios básicos da Democracia e da Cidadania, pondo em risco o Estado de Direito e as garantias constitucionais. E a violência parece ser a tônica das relações sociais. Ela está presente nas coisas mais simples, das escolas às esferas de poder.

Dados divulgados durante a semana pelo Mapa da Violência no Brasil dão conta que as mortes violentas em Manaus cresceram, de 2000 a 2015, de 456 para 1 mil 132, um incremento de 248%. Na vizinha Belém o número de mortes violentas em 2015 foi de 880. Na capital amazonense, a taxa de mortes violentas por 100 mil habitantes passou, em 15 anos, de 32 para 55. Nas maiores cidades brasileiras, São Paulo e Rio de Janeiro, a taxa por 100 mil habitantes caiu de 59 para 14 e de 52 para 22, no mesmo período. Manaus, pelas estatísticas, é uma das cidades mais violentas do País.

É certo que o processo de agravamento da violência em Manaus não é uma construção recente. Nem exclusivamente dependente das ações de segurança pública. A maior cidade da Região Norte do País, em termos populacionais e econômicos, é também um forte pólo de concentração de desigualdades, onde 80% de toda riqueza é produzida por apenas 20% da população. E registra atualmente um dos maiores índices de desemprego no País. O modelo econômico baseado na indústria de incentivos fiscais privilegia o faturamento, mas não a geração de trabalho e renda. Há uma riqueza contraditória que faz muitos pobres.

Seguimos assim, mas há quem insista em dizer que “bandido bom é bandido morto”. E quem reaja ao contraditório com a frase “ta achando ruim, leva pra casa”. Fico me perguntando qual o conceito de bandido dessas pessoas. Quem assalta nas paradas de ônibus? Quem rouba dinheiro público? Quem favorece a corrupção? E me parece que esse é um conceito seletivo, aplicável apenas aos delitos cometidos pelos bandidos pobres.

Um dos fatos da semana foi a morte de um policial, seqüestrado, torturado e assassinado pelo tráfico. O corpo da vítima foi descoberto numa invasão, que sofreu, coincidentemente e concomitantemente, um incêndio que deixou cerca de 30 famílias desabrigadas. Notícias dão conta que a área invadida é liderada por um dos cabeças do tráfico na Região. Autoridades falam em curto-circuito, em incêndio provocado por traficantes. Há quem poste nas redes sociais que o incêndio foi “apenas” uma ação de combate ao tráfico. Quando abrimos mão de apurar os crimes e aplaudimos “justiça” feita com as próprias mãos, colocamos em risco a Democracia e a Cidadania. A violência é viral e não duvide que ela põe em risco a todos, inclusive àqueles que a aplaudem! #Pensa