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O Mundo dos Outros

Crônicas de Domingo - 19 de Novembro de 2017 19/11/2017 às 07:00 - Atualizado em 19/11/2017 às 07:34
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Amanhã é Dia da Consciência Negra. E vejo um monte de gente reclamar que temos excesso de feriados no país. Talvez até seja verdade, mas também não tenho dúvida que data comemorativa de amanhã merece da nossa parte uma boa reflexão. Não sei se há muito o que se festejar, mas há muito o que se pensar. Infelizmente, pensar nos direitos das minorias políticas não anda muito na moda. Há muita gente se queixando que “essa história de politicamente correto é frescura, é mimimi”.

Entretanto, há um enorme sentido em se refletir sobre a consciência negra no Brasil. E se você não vê muita razão, transcrevo aqui a informação: “Dos 12,5 milhões de escravos transportados da África para as Américas, 2,5 milhões morreram nas viagens e chegaram ao destino 10 milhões de escravos. Chegaram ao Brasil 5 milhões e 800 mil negros, quase 60% do total. Aos Estados Unidos chegaram 597 mil, um décimo do que veio para o Brasil”. E o dado fica ainda mais expressivo se pensarmos na população indígena existente no país em 1500 – cerca de 4 a 5 milhões.

Não dá pra saber quantos brancos vieram nos primeiros anos de colonização, mas se juntarmos 5,8 milhões de negros com 4 milhões de índios, temos a quase totalidade da população de Portugal hoje, que é de 10,32 milhões de habitantes. Talvez tivéssemos um terço desse coletivo negro e índio em brancos, que comandaram a escravidão e a nação até o final do século XIX. Daí fica bem claro o conceito de minoria política, incapaz de tomar decisões, mesmo sendo maioria numérica.

E essa questão não é incômoda só em terras tupiniquins: na Alemanha nazista da Segunda Guerra, não eram só os judeus que iam aos campos de concentração: os negros também, assim como os homossexuais e os presos políticos. Mas voltando à terrinha, não resta dúvida que o Brasil é um país altamente miscigenado, e muito negro. Doa a quem doer, e dói em muita gente. Somos mestiços, pardos, de pele mais escura, de cabelos revoltos, de feições diferentes ao padrão europeu do século XX.

Entretanto, fomos criados para conceber uma sociedade de pele clara e cabelos lisos, de cultura ocidentalizada. Onde tudo o que foge do padrão é inferior, é marginal, é despropositado. Na aparência, na cultura, na atitude, na religiosidade… Em pleno século XXI, vivemos uma consciência de Brasil-Colônia. Reduzimos tudo a “coisa de preto” e gostamos de comentar, orgulhosos, que fulano é “um preto de alma branca”, com o velho comportamento maniqueísta de que só é bom e do bem aquilo que se assemelha aos padrões que estamos acostumados. O que assim não o é, é do mal, é errado, precisa ser mudado, catequizado e, na impossibilidade, destruído.

Em tempos de uma onda moralista e “embraquecedora”, vejo muita gente se queixando que a reivindicação de um tratamento igualitário e justo às minorias políticas é mimimi. Há até quem reivindique a criação de um “Dia da Consciência Branca”, assim como o “Dia do Orgulho Hétero”. Mas o mundo continua sendo comandado pelos brancos, todo dia é dia de branco. Talvez não seja certo, mas seja compreensível, a liderança dos movimentos políticos das minorias radicalizarem, em busca de visibilidade. O mundo é diverso e precisa ser encarado assim, com respeito e aceitação.

Nesta véspera do Dia da Consciência Negra, ecoa ainda em minha mente o trecho do livro “A Cor Púrpura”, de Alice Walker, dito pela personagem Celie: “Eu posso ser negra, mulher, talvez até feia, mas obrigado Deus, eu estou aqui! Eu estou aqui!”. Que o futuro nos reserve mais dessa consciência orgulhosa! #Pensa