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Olhando ao Redor

Crônicas de Domingo - 05 de Novembro de 2017 05/11/2017 às 00:00 - Atualizado em 05/11/2017 às 07:18
Show castanha para

Comprando castanhas no supermercado, o funcionário responsável pela pesagem e etiquetagem do produto escolhido na área do empório tomou um susto. “- Lá onde eu morava eu trabalhava o dia inteiro pra encher uma lata grande e ganhar isso que o senhor está levando aqui nessas gramas”. Perguntei de onde ele vinha: de São Sebastião do Uatumã. Tive vontade de começar uma conversa, até porque ele era muito jovem, devia ter uns 18, no máximo 19 anos, ou seja, devia trabalhar na colheita de castanha quando ainda era menor de idade. Mas a fila atrás de mim era grande para pesar as mercadorias de outros clientes.

Minha alma curiosa de repórter ficou remoendo aquilo. Fiquei com uma série de perguntas para aquele rapaz e acabei voltando, em outro dia e em outro horário, para fazer umas compras que faltaram e para ver se encontrava o “uatumense”. Mas foi em vão. O empreendimento é grande, funciona de muito cedo até tarde da noite e não dei sorte de encontrá-lo. Mas fiquei reflexivo sobre as condições de vida do nosso povo do interior. A vida em Manaus é tão urbana e ensimesmada, que pouco damos ressonância à realidade interiorana. Agimos como se Manaus fosse uma cidade-estado. Mas várias outras situações, ao longo da semana, me fizeram voltar o pensamento ao interior.

Começando por Humaitá, onde um grupo de garimpeiros se revoltou contra uma operação do Ibama de combate ao garimpo ilegal na Amazônia. Tocaram fogo na sede do órgão e na sede do Instituto Chico Mendes, queimaram carros e um barco das duas instituições. A Polícia Federal mandou contingente ao município, a Marinha enviou reforços. O governo do Estado deslocou dois secretários de estado para mediar a situação. Já em Ipixuna, um incêndio atingiu uma escola e deixou mais 600 crianças sem aula. Uma galão de gasolina de 20 litros foi encontrado no parte de trás do prédio, dando indícios de uma possibilidade de incêndio criminoso.

Fosse um sequestro ou a prisão de um traficante em um dos morros cariocas, corria risco de ser destaque nos noticiários de toda a mídia nacional. Mas foi aqui, no meio da floresta, longe de tudo e passou batido, a não ser pelos esforços de alguns veículos de comunicação para dar visibilidade aos fatos. Engraçado que se houvesse algum estrangeiro envolvido, talvez repercutisse muito mais, a exemplo do ataque de piratas a uma família norte-americana numa das balsas que atravessam os rios, em Breves, no Pará – isso todo mundo deu. Fico pensando se somos cidadãos de segunda classe e merecemos menos atenção que os demais. Será?

A verdade é que vivemos num universo único, a Amazônia, e engolidos pelo “sonho feliz de cidade” que é Manaus, com todas as suas características de uma vida urbana de qualquer outra cidade de médio porte. Acabamos mergulhados em nós mesmos e pouco damos atenção àquilo que talvez realmente fosse importante. Nosso espelho acaba sendo no sudeste brasileiro e não aqui. Está na hora de quebrar esse espelho para passarmos a nos enxergar. Se não o fizermos, quem o fará? #Pensa