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Passageiro

Crônica de Domingo - 12 de Novembro de 2017 12/11/2017 às 00:00 - Atualizado em 12/11/2017 às 07:40
Show cine avenida   mar o 1973

“Seu” Paulo chegou em Manaus, vindo do Pará, em abril de 1972. Já em maio ele compraria seu fusca, para trabalhar na praça como taxista. Sua carteira no sindicato da categoria foi a de número 58. Hoje, só de taxistas legalizados ele estima que sejam mais de sete mil. Seu Paulo, aparentando seus sessenta e cinco, setenta anos, seu jeito simples e cordial, é um oásis em pessoa, depois de uma manhã de trânsito estressante, em que se leva 45 minutos para percorrer trechos que normalmente se levaria 25.

Descemos a Djalma Batista no sentido centro e ele me narra que quando aqui chegou aquilo ali era uma estrada de barro. Havia um cliente seu que toda sexta ele deixava, no final da tarde, perto do igarapé – aquele que atravessa o Milennium – com tarrafa e espingarda. Como não havia celular, combinavam a corrida de volta para as seis horas da manhã do dia seguinte. E lá estava ele, com peixes e eventualmente uma caça. Pouco mais em cima, no sentido bairro, onde hoje é o Amazonas Shopping, havia “caieiras”, um tipo de forno de barro para se queimar a madeira e transformá-la em carvão – uma carvoaria.

Trafegamos a rua, com um trânsito conturbado, num horário inusitado, e seu Paulo continua a me narrar suas lembranças. Da ponte do São Jorge, onde as pessoas iam pescar, ou do igarapé que passava atrás do Acapulco Clube, onde hoje é o pátio do Detran, na Recife (aquela que virou Mário Ypiranga). Havia tanto peixe que não se podia comer um pedaço de pão ou uma bolacha na beira, por que as migalhas os faziam vir à tona. Naquela época, a cidade terminava na Alvorada, a cidade das palhas. Volto a conversa para a rua em que estamos e pergunto se existiam casas na estrada de barro onde hoje é a Djalma. Ele responde afirmativamente, mas eram casas para se passar o final de semana, espécies de sítios.

Meu narrador chega à modernidade e fala de quando o prefeito Jorge Teixeira, o Teixeirão, decidiu construir naquele lugar uma avenida, que viria a ser batizada de João Alfredo. Ele lembra que à época alguns críticos reclamavam: “Como é que se vai abrir uma via com 44 metros de largura? Um absurdo, um desperdício?”. E “seu” Paulo sorri, lembrando que outro dia leu ou ouviu em algum lugar alguém reclamar que a Djalma Batista era muito estreita, e que mal cabia um canteiro central. Continuamos a viagem com suas lembranças e, à medida que chegamos ao centro, elas se tornam mais urbanas, com direito a menções ao Caldeira, ao Armando, ao Armando Soeiro, em pessoa, ao Jangadeiro e ao Katkero.

Chegamos ao meu destino e confesso que saí do carro sem querer sair. Queria ouvir mais, poder conhecer mais de uma história que desconheço. Ao me despedir e bater a porta do carro, fiquei me questionando. Quarenta e cinco anos para uma cidade talvez seja muito pouco, ou talvez seja demais. Onde foi parar aquela Manaus que não queria ser porto de lenha? Talvez ela fosse bem melhor, em muitos aspectos. Não sei… fiquei repleto de dúvidas! #Pensa