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Zonas de (des)Conforto

Artigos de Domingo - 24 de Setembro de 2107 24/09/2017 às 00:00 - Atualizado em 24/09/2017 às 10:37
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Observo, surpreso, a presença constante, nas diferentes mídias, do estímulo a sairmos de nossa zona de conforto. Zona de conforto é “uma série de ações, pensamentos e comportamentos que uma pessoa está acostumada a ter e que não a causam nenhum tipo de medo, ansiedade ou risco; é uma região onde nenhum indivíduo se sente ameaçado”. Somos estimulados, diuturnamente, a pensar e agir diferentes do padrão com que estávamos acostumados, a olhar as mesmas velhas questões sob uma nova ótica, a sair da acomodação.

Não tenho dúvida de como e de quanto sair da zona de conforto pode ser favorável à mudança das situações que nos incomodam, à transformação de antigos problemas enfim, ao avanço. A repetição de antigos modelos, que já se mostraram ineficazes, não leva a nada. Mas, infelizmente, por mais que falemos, parece que estamos fadados a cair na armadilha da zona de conforto, senão na nossa, na dos outros, até sem perceber. Esbarramos, de maneira inesperada e imperceptível, com a acomodação dos outros, que influenciam diretamente em nosso dia-a-dia.

Bons exemplos podem ser extraídos nas questões urbanas. O trânsito é um caso clássico. Quantas vezes você já ouviu que o péssimo trânsito de Manaus é culpa da enorme quantidade de carros que diariamente são emplacados? Muito carro pra pouca rua, né?! Repetem tanto isso e no outro extremo não fazem nada. “Ora, não tem solução, não há o que fazer, muitos veículos, cidade cresceu sem planejamento”. É só isso? Um sistema de transporte coletivo eficaz, que atendesse a população de maneira cidadã, não melhoraria o trânsito? Algumas intervenções viárias também não? Mas a zona de conforto deles quer nos fazer crer que não tem jeito – mas tem!

Aliás, o transporte coletivo urbano de Manaus também é da zona de conforto e conveniência de alguns, para a tristeza de quase todos. Já se falou em BRT, em BRF, até em monotrilho (que sejamos livrados disso), falou, falou, blá blá blá. Teve gente dizendo que o sistema não era lucrativo e por isso não se investe mais. E a população continua sem abrigos decentes, esperando mais de 45 minutos para pegar um coletivo lotado, desconfortável. Somos reféns da zona de conforto de quem está ganhando com isso. E ninguém apresenta proposta. Parece não ter jeito.

Mais recentemente até a segurança pública se viu assolada por essa cova raza. Tudo passou a ser culpa do narcotráfico, o grande vilão sem solução, causador do aumento da violência urbana. Entendo que as rebeliões no sistema prisional e outras tantas ações sejam práticas criminosas oriundas do narcotráfico. Mas os assaltos a ônibus, os sequestros relâmpagos, os assaltos a mão armada? Tudo é culpa do tráfico de drogas? Nos tornamos a terra dos cortadores de cabeças e dos esquartejadores somente em razão da máfia das drogas? E não há como combatê-la? Sinceramente, me parece um pouco de desculpa para justificar uma certa acomodação.

Por mais que falemos contra as zonas de conforto, nunca será demais, nem desnecessário. Basta observar a retórica de candidatos a cargos eletivos! Quando eles dizem que vão “combater a corrupção, fazer uma gestão honesta e em favor do povo das famílias”, eles estão falando o que? Estão fazendo propostas efetivas? Ou apenas repetindo um discurso que nos engana há tempos? #Pensa