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‘A liberdade religiosa é fundamental’, diz o novo arcebispo D. Sérgio Castriani

Substituto de Dom Luiz na Arquidiocese de Manaus avalia a pluralidade de religiões no mundo como positiva, mas diz que é preciso deixar claro que há diferenças entre todas elas 22/12/2012 às 17:00
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Dom Sérgio Eduardo Castriani, novo arcebispo de Manaus (AM)
Antônio Paulo Brasília

Toma posse no dia 23 de fevereiro de 2013, na Catedral, o novo arcebispo da Arquidiocese de Manaus, dom Sérgio Castriani. Nomeado pelo papa Bento XVI, no dia 12 de dezembro deste ano, ele ocupará a cadeira episcopal de dom Luiz Soares Vieira, que pediu renúncia do cargo por motivo de idade.

Paulista de Regente Feijó, dom Sérgio é missionário na Amazônia há 34 anos. Um ano depois de ordenado padre, em 9 de dezembro de 1978, foi trabalhar no Acre, onde passou cinco anos. Depois, trabalhou em São Paulo até ser transferido para o Conselho Geral da Congregação do Espírito Santo, em Roma, no início da década de 90. Em 1998, foi nomeado bispo de Tefé, cidade em que viveu nos últimos 14 anos.

Nessa entrevista para A CRÍTÍCA, concedida na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Sérgio fala do trabalho na Amazônia, prega o diálogo entre as religiões e com o poder público. O mais novo morador do município de Manaus também diz o que espera do futuro prefeito Artur Virgílio Neto.

Vivenciando há 14 anos uma das regiões mais pobres do Estado, acompanhando de perto essa realidade, o senhor acha que houve melhorias na vida da população?

Fazendo uma análise objetiva, melhorou sim. Hoje as pessoas têm acesso ao ensino universitário. Todos os municípios da Prelazia de Tefé têm cursos da UEA. Então, só isso já tem um significado muito grande na qualidade de vida das pessoas, que passa pela educação. No ensino médio, temos os pontos tecnológicos de segundo grau espalhados por toda aquela área. Meninos e meninas fazendo o ensino médio lá meio da reserva extrativista, morando a 24 horas da cidade de Carauari.

Na saúde também houve avanços?

A saúde é um paradoxo. Você tem no interior situações do século passado: em algumas regiões a malária volta com força; a hanseníase, doenças que pareciam ter sumido reaparecem. Mas, ao mesmo tempo, tem o serviço do SUS (Sistema Único de Saúde) que às vezes surpreende na qualidade, na universalidade, naquilo que se propõe. A presença de médicos e dentistas nos hospitais melhorou. Também a qualidade de vida no sentido da higiene, saúde, vacinas. Há um progresso, mas ainda não é aquilo que a gente sonha.

A questão ambiental também é uma preocupação da Igreja?

Hoje você tem áreas de preservação que funcionam. Você não vê mais a invasão dos peixeiros (armadores) de Manaus no Juruá, como existia há 14 anos, por exemplo. A gente sonha com uma Amazônia mais preservada racionalmente; uma preservação que leve em conta o homem. Quem vive lá sabe que não dá para ser xiita, que é preciso considerar a população ribeirinha, indígena. Em Tefé, temos a grande experiência do Mamirauá. O doutor Márcio Aires, fundador e idealizador dessa reserva, muito ligado à organização das nossas comunidades, tinha dois princípios: a população tem que perceber que preservar é bom; e é preciso aliar o conhecimento científico ao conhecimento popular.

E quais os principais problemas que o senhor viu e presenciou nesses 14 anos?

Temos problemas muito sérios no que se refere à administração pública. Às vezes é corrupção, mas muitas vezes é falha de gestão mesmo. Porque não é fácil administrar no Amazonas. Até órgãos como o Ibama e Incra fecharam suas portas em vários municípios. O poder Judiciário ainda é muito distante; faltam bons juízes, promotores, advogados. A defensoria pública não está instalada em nenhum dos municípios. Há um vazio institucional. Tem também a questão dos aeroportos. Hoje apenas os aeroportos de Tefé e Tabatinga funcionam regularmente. Os portos que foram prometidos, agora que chegaram alguns, mas a maioria ficou sem terminar. E as cidades amazônicas precisam de porto e aeroporto.

Como a Igreja contribuiu para esses avanços e o enfrentamento desses problemas na Amazônia?

Primeiramente, a Igreja contribuiu muito nas áreas da educação e da saúde, com escolas e hospitais. Foi um trabalho heróico. A partir dos anos de 1970, creio que a maior contribuição que a Igreja deu à Amazônia foi o trabalho de organização das comunidades, dando cidadania às pessoas. O Movimento de Educação de Base criou lideranças e abriu caminho para um novo tipo de relação com o meio ambiente. Cheguei a visitar reservas onde as lideranças eram ameaçadas de morte. A Igreja, formando lideranças e comunidades, preparou o caminho para que o movimento extrativista, de desenvolvimento sustentável, acontecesse em Tefé, Coari, Parintins, Manaus e toda região.

O movimento indígena na Amazônia também é fruto dessa contribuição?

Na decisão que a Igreja da Amazônia tomou em 1972, numa reunião em Santarém, os bispos resolveram priorizar a formação comunidades, de leigos e a atenção aos povos indígenas. Hoje esse movimento é organizado, batalhador, vai atrás dos seus direitos enfrentando preconceito e muitas barreiras; há muitas comunidades assumindo sua identidade indígena, isso se deve em grande parte ao trabalho da Igreja Católica.

À frente Arquidiocese de Manaus, o senhor pretende continuar esse trabalho de base realizado em Tefé?

A Arquidiocese de Manaus é de uma complexidade desafiadora. Ela tem a cidade de Manaus, o centro, os bairros antigos e novos, as invasões. E mais sete municípios: Rio Preto da Eva, Presidente Figueiredo, Careiro da Várzea, Careiro Castanho, Manaquiri, Iranduba e Novo Airão. Temos aí realidades com a nova ponte, Distrito Industrial e a migração de um grande número de pessoas do interior e de outros Estados. A Igreja de Manaus sempre seguiu a linha da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Os bispos, o clero, os religiosos de Manaus sempre assumiram as prioridades e a linha da Igreja do Brasil. Também sempre foi afinada com a Igreja da Amazônia. Então, nesse sentido, haverá continuidade do trabalho de dom Luiz.

E quais são hoje as prioridades, as urgências da Igreja Católica da Amazônia e do Brasil?

A primeira urgência são as comunidades, que é o tema da Assembleia Geral da CNBB de 2013. Quando se fala hoje em comunidade está se falando de comunidades virtuais, afetivas, territoriais, étnicas; das cidades invisíveis que existem dentro das grandes cidades. O desafio é que a Igreja propicie aos fiéis esse espaço de compromisso e vivência conjunta. Hoje as pessoas têm necessidade de um cuidado e atendimento pessoal. E a Igreja não tem conseguido acompanhar essas demandas, daí as pessoas têm ido procurar isso em outros lugares. A segunda urgência é a formação, o conhecimento maior da palavra de Deus. Uma outra prioridade da CNBB é o serviço à vida, que hoje é banalizada. A missão é urgente porque há muita gente fora das igrejas que precisa ouvir a boa nova do Evangelho.

Nos últimos anos, a Igreja Católica tem perdido fiéis para outras religiões, principalmente as evangélicas. Essas prioridades e a missão têm a ver com resgate de antigos e novos católicos?

O fenômeno de trânsito religioso é muito complexo. Há vários modelos de cristianismo. O pentecostalismo, que existe dentro e fora da Igreja Católica, é uma forma de viver o Evangelho mais imediata, mais emotiva e subjetiva. Há outro tipo de igreja que responde mais às necessidades imediatas das pessoas, que é o neopentecostalismo. Nas igrejas neopentecostais, a pessoa vai em busca de cura, de melhora de vida, em busca de melhoria de sua situação econômica. E são todas aspirações legítimas. Não é porque não vou que direi ser ilegítimo ou imoral. A religião hoje tem dois aspectos: a fragmentação e o pluralismo. Mas, há diferenças entre as igrejas. A proposta católica é outra, muito definida. Não estamos dizendo, portanto, que tudo é a mesma coisa ou tanto faz uma como a outra.

A Igreja Católica, então, aprendeu definitivamente a conviver com as demais religiões?

É preciso respeito mútuo, que seja respeitada a opção religiosa do outro. A liberdade religiosa é a convicção de que o outro tem direito de pensar diferente. Isso é fundamental. Quando uma religião não reconhece na outra o direito de pensar diferente, aí estamos no fundamentalismo religioso, no perigo da violência religiosa que temos assistido em várias partes do mundo. E a gente não deve pensar que a Síria, Afeganistão são mais atrasados que nós. Nós podemos cair em um processo desse também. É muito importante que a sociedade brasileira reconheça a liberdade religiosa e que cada um reconheça o direito que o outro tem de pensar diferente. Esse respeito é defendido pelo Papa Bento XVI. Nós temos que estar unidos naquilo que nos une: primeiramente, todos acreditamos em Deus ou mesmo aqueles que não creem em Deus, acreditam na dignidade humana, no sentido da vida, na liberdade, na honestidade, na verdade e na Justiça. Depois vem a colaboração e o diálogo entre essas religiões. E a partir daí o ecumenismo mesmo.

Esse diálogo que o senhor defende entre as religiões, as igrejas também devem ter com o poder público?

Esse ecumenismo, as boas relações também devem ocorrer com as autoridades. A autoridade civil foi eleita. O processo democrático é muito claro no Brasil, apesar de precisar de ajustes e aperfeiçoamento. A democracia tem que ser preservada, os mecanismos democráticos tem que ser respeitados mesmo que eu não me agrade de quem ganhou a eleição. Daí a colaboração com Judiciário e o Legislativo, mas sempre preservando e respeitando a autonomia das instituições.

A Arquidiocese de Manaus é uma das referências nesse diálogo (crítico) permanente com as instituições e poderes públicos do Estado. Com o novo prefeito Artur Neto, o senhor pretende participar desse processo?

Estou disposto a colaborar primeiramente como cidadão que vai morar em Manaus. Em segundo lugar, como representante de uma instituição. O arcebispo também fala em nome de uma grande população. Dentro do respeito, do diálogo e da colaboração, farei tudo o que for possível e necessário para o bem não só de Manaus, mas dos sete municípios da arquidiocese. A igreja tem uma história, estrutura, tem uma tradição e ela pode oferecer muito em termos de reflexão, mas também de trabalho voluntário para ajudar a cidade.

O que o senhor espera da futura administração municipal?

Espero de um prefeito, não somente do Artur, mas de todos os prefeitos do Amazonas, especialmente dos sete municípios que compõem a Arquidiocese de Manaus, que administrem para os cidadãos: ruas limpas, transporte digno, saúde, que as escolas funcionem, que os funcionários sejam bem pagos e em dia. O Artur Neto foi deputado federal, senador, ele tem uma visão de estadista. Espero que ele também se preocupe com as grandes questões da Manaus metrópole, da Zona Franca, da moradia digna, administrar com lisura os recursos públicos e fundamentalmente que ouça a população. Que não administre a cidade somente a partir dos grupos políticos, mas que seja organizada ouvindo todos os níveis ouvindo a população.