Publicidade
Cotidiano
Notícias

Adail Pinheiro divide cela com Raphael Souza no CPE

Prisão especial visa garantir integridade física dos detentos; dessa vez, inspeção do MP não encontrou regalias para o prefeito de Coari 13/02/2014 às 14:22
Show 1
Adail Pinheiro e Raphael Souza dividem cela
Renildo Rodrigues Manaus (AM)

Preso em uma cela do Comando de Policiamento Especializado (CPE) da Polícia Militar, desde que se entregou no último sábado (8), o prefeito de Coari, Adail Pinheiro (PRP), divide uma cela comum com Raphael Souza, filho do falecido deputado Wallace Souza, atualmente cumprindo pena no regime semiaberto. O local é o mesmo em que Adail ficou detido em 2009, após a operação Vorax.

Diferente de 2009, porém, desta vez não há regalias. Foi o que constatou a inspeção realizada por promotores do Ministério Público Estadual (MPE) nesta semana, ao examinar a cela compartilhada pelo prefeito, que cumpre prisão preventiva, e Raphael, condenado por porte ilegal de arma e homicídio, mas beneficiado pela progressão de regime. Ambos estão em prisão diferenciada porque a justiça considerou que um presídio comum oferecia ameaças à segurança dos detentos, cujos casos ganharam repercussão nacional.

“É ruim como qualquer cela. Eles dividem um espaço pequeno, pouco ventilado, com pouca luz. Tinha uma TV, mas ela estava desligada. O Raphael nem estava lá na hora, tinha ido trabalhar (presos do regime semiaberto têm direito a trabalhar normalmente durante o dia). Perto deles fica a outra cela, ocupada por dois PMs condenados por homicídio. Mas o fato é que o MP comprovou que as determinações do TJ (Tribunal de Justiça do Amazonas) para a reclusão estão sendo cumpridas. Eles têm direito a um banho de sol diário e só recebem visitas no fim de semana”. Quem revela é o corregedor-geral do MPE, José Roque Nunes Marques.

“Iguais às de qualquer outro preso”

A situação é bem diferente de 2009, quando Adail, detido no mesmo quartel, dispunha de uma cela com ar-condicionado, frigobar e banheiro privativo, em um caso explícito de favorecimento. “O MP foi se certificar de que as condições da detenção de Adail fossem iguais às qualquer outro preso em situação preventiva”, afirma José Roque. “A prisão dele não atrapalha a rotina do quartel, nem justifica qualquer medida além da já tomada pela Justiça, que garante a sua integridade física”, completa.

Por ser prefeito, mesmo sem ter curso superior, Adail pode solicitar prisão especial e cela individual, segundo o artigo 295 do Código de Processo Penal. A defesa, porém, não entrou com o pedido, solicitando apenas que ele fosse preso em um quartel, e não num presídio, por motivo de segurança.

O comandante do CPE, Fabiano Bó, revelou em entrevista à TV A CRÍTICA que Adail ainda não fez uso do banho de sol diário. Já Raphael tem ido trabalhar normalmente em uma empresa privada, onde conseguiu emprego, e só vai ao local para dormir. “É o direito de qualquer preso em regime semiaberto. Ele tem autorização da Justiça. O importante é que ele cumpra a obrigação de dormir aqui”, afirma. Fabiano também confirmou que Antônio Carlos Branquinho, juiz de Tefé condenado por pedofilia e abuso sexual de menores em 2011, se encontra preso no mesmo quartel.

Defesa analisa provas do MPE

O advogado de Adail, Alberto Simonetti Neto, informou ao Portal A CRÍTICA que somente nesta quarta (12) recebeu as provas do MPE contra o prefeito, e que irá analisá-las cuidadosamente antes de impetrar um pedido de habeas corpus junto ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). “A primeira medida que nós buscávamos, que era garantir a segurança do prefeito, nós já conseguimos. Agora podemos analisar o pedido de prisão preventiva com calma, afirmou.

Entenda o caso

Adail Pinheiro foi preso no sábado, dia 8 de fevereiro, por determinação do Tribunal de Justiça do Amazonas, como medida preventiva após a grande repercussão dos casos de pedofilia envolvendo o prefeito, acusado de chefiar uma rede de exploração de crianças e adolescentes em Coari. Segundo o corregedor José Roque, a prisão preventiva é um recurso da justiça para evitar perturbações na ordem pública e assegurar a instrução criminal.

Adail Pinheiro responde a 70 processos na Justiça, entre denúncias de corrupção, improbidade administrativa e exploração sexual de crianças e adolescentes. Ele está em seu terceiro mandato como prefeito de Coari, município a 363 km de Manaus e considerado o segundo mais rico do estado, por causa da exploração de petróleo e gás natural. Uma reportagem recente de A CRÍTICA apurou que o prefeito administra recursos da ordem de R$ 200 milhões de reais ao ano.

Raphael Souza foi o único condenado pela morte de ‘Caçula’

Em outro caso de grande repercussão nacional, Raphael Souza, o filho mais velho do deputado estadual Wallace Souza, apresentador de um programa policialesco, foi acusado de participar do assassinato do traficante Cleomir Bernardino, o “Caçula”, em 2007. À época, Wallace e Raphael eram suspeitos de chefiar uma organização criminosa que executava assassinos e traficantes.

O processo, conhecido como “caso Wallace”, foi julgado em 2012, com a condenação de Raphael e a absolvição dos outros dois suspeitos, o ex-policial militar Moacir Jorge da Costa, o “Moa”, e o motorista Mário Rubens Nunes da Silva, o “Mário Pequeno”. Em 2009, Raphael já havia sido condenado a outros onze anos por porte ilegal de arma e tráfico de drogas. O bom comportamento, porém, levou a Justiça a autorizar a progressão do regime fechado para o semiaberto. Recentemente, Raphael teve um pedido de autorização para viajar ao Caribe com a mãe concedido, mas desistiu da viagem.