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Cotidiano
Comportamento

Antecipar ou não? Os riscos de expor crianças a conteúdos muito complexos na pré-escola

Alguns pais acreditam que tarefas como "pintar e colar" estimulam pouco as crianças; especialistas dizem conteúdos devem ser aplicados sem pular fases 04/12/2017 às 11:43 - Atualizado em 04/12/2017 às 11:54
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A Igapó Escola Livre preza pelo livre brincar e interações sociais dos pequenos alunos com o mundo que os cerca (Foto: Antonio Lima)
Laynna Feitoza Manaus (AM)

Desde os primórdios, as instituições da pré-escola oferecem atividades como pinturas, colagens e brincadeiras diversas. Com a modernidade, cada vez mais cedo crianças pequenas tem sido expostas a conteúdos pedagógicos um pouco mais complexo para a faixa-etária: muitas começam a estudar um segundo idioma aos dois anos, algumas começam a ler e escrever aos três, são matriculadas no Kumon aos quatro, e aos cinco já fazem o que os pais dela, quando tinham sua idade, jamais sonhavam em fazer.

Para a professora e mãe Tatiane Rocha, algumas atividades do gênero dever ser melhor planejadas e questionadas. “Não gosto quando as atividades se estendem demais. Muito tempo só pintando e colando. Fico impaciente. Já pintei e colei muita tarefa de filho. Acredito que até este tipo de tarefa precisa ter um propósito definido. Não vejo. E não vejo comprometimento do rendimento da criança quando esta deixa de fazê-las na proporção que a escola manda”, declara ela.

Para a atriz, pedagoga e mãe Ana Cláudia Motta, cada fase da vida da criança, envolvendo recortar, colar, pintar e montar blocos deve ser respeitada. “O problema é que hoje muitos pais são neuróticos e querem que os filhos sejam super seres humanos com mega poderes desde a pré-escola. Crianças lendo antes do tempo, cheias de atividades para casa, sem tempo de brincar, de ser criança, cheias de aulas e cursos. Pais frustrados não querem o melhor para os seus filhos. Querem aparecer, tornar a criança um troféu, como se fossem meninos prodígio, quando, na verdade, são crianças normais”, enfatiza Motta.

Linguagem

Para a fonoaudióloga Mariana Pedrett, é preciso identificar as capacidades individuais de cada criança. “Existe um pensamento de que quanto mais rápido o filho tiver acesso às informações, mais vai ser bem-sucedido no futuro. É o caso dos pais que querem colocar vários estímulos bem cedo aos filhos, para que os filhos tenham respostas positivas. Mas temos que observar quais são as tendências da criança, o que ela demonstra interesse em fazer. Se a gente verificar, toda organização educacional hoje está voltada para as disputas, como as disputas pela vaga de vestibulares como ENEM e SIS, então o receio desses pais se justifica nesse sentido. Mas temos que observar as respostas que as crianças nos dão”, afirma.

Segundo Mariana, permitir um processo natural de aprendizagem, sem forçar o filho a aprender evita certas dificuldades de aprendizado no futuro. “Deve-se esperar que uma criança, aos dois anos de idade, consiga fazer uso, em geral, de frases com duas ou mais palavras com vocabulário de 30 a 60 palavras em média. Dessa forma, se é detectado que a comunicação está aquém do esperado, percebemos que há um atraso no desenvolvimento da fala em si, que depende, é claro, do processo natural de aprendizagem. E de que forma isso se dá? Com a exposição de estímulos de maneira adequada. Daí a participação da família é fundamental”, coloca ela.

Propósito

De acordo com a psicopedagoga Conceição Lopes, a função da pré-escola é acolher as vivências e o conhecimento construído pela criança no ambiente da família e proporcionar o aprendizado com ludicidade. Ela reconhece a existência de crianças que aprendem naturalmente mais rápido que as demais de sua idade, e essas devem seguir adiante com a aprendizagem, coloca a psicopedagoga. Mas, para aquelas crianças cujo desenvolvimento corresponde à sua faixa etária, é necessário que o conteúdo da escola caminhe no ritmo delas. “Forçar a criança a aprender o que ela não quer ou não consegue pode levá-la a rejeitar aprender coisas novas no futuro”, pontua ela.

Por mais “bobas” que atividades como pintar e colar possam parecer, estas estimulam a coordenação motora fina e a percepção visual dos pequenos, e por isso são necessárias. Um exemplo de atividade considerada desnecessária no pré-maternal é exigir que a criança realize uma atividade que identifique os números de 1a10. “Crianças têm que aprender os números brincando, pulando amarelinha, por exemplo, onde é possível associar cada espaço a um número. Não é colocar num quadro o que é um, dois e três de forma vazia, ou fazê-la aprender a contar de 1 a 50 de uma vez”, ressalta Lopes, lembrando que comparações são perigosas. Acontece muito de pais falarem que algum primo da criança da mesma idade já reconhece as vogais ou fazem junções silábicas. Nisso, eles acabam cobrando da escola. Não podemos exigir que as crianças se desenvolvam igual”, completa.

Novos conceitos educacionais

Proprietária da Igapó Escola Livre, Renata Rivas afirma que somente a partir dos três anos atividades de cunho artístico são realizadas por um tempo determinado no ritmo de cada classe. “A criança é capaz de desenvolver a corporalidade, integração com outras crianças, preparação emocional, e dessa forma se prepara para o processo de aprendizagem que deverá ocorrer no ensino fundamental”, comenta ela. Com proposta humanista e fundamentos construtivistas, Renata afirma que a escola – que recebe crianças a partir de 1 ano e meio a 5 anos e 11 meses - respeita a infância utilizando o brincar livre e a interação como norteadores das práticas pedagógicas.

“Prezamos por uma alimentação saudável, respeito às fases do desenvolvimento infantil, ausência de alfabetização precoce, liberdade de movimentação corporal e exploração do ambiente pela criança. É também uma iniciativa de pais que há três anos tiveram esse desejo de propiciar um ambiente natural e acolhedor para seus filhos, em que o contato com a natureza seja constante”, coloca.