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'Antigamente, a política não tinha tanta corrupção', afirma ex-deputado Arlindo Porto

O jornalista e ex-deputado se diz triste com manifestantes que pedem uma nova  intervenção militar no Brasil. Para eles, os políticos de hoje têm muitas “mordomias” e não se dedicam tanto à sociedade como antes 19/04/2015 às 14:23
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Para o jornalista, os políticos de hoje têm muitas “mordomias” e não se dedicam tanto à sociedade como antes
Natália Caplan Manaus

Advogado, escritor, um dos fundadores do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Amazonas (SJPAM) e, atualmente, presidente da Academia Amazonense de Letras (AAL). Porém, Arlindo Porto também é lembrado como o único deputado estadual cassado no período da ditadura militar e que, até hoje, nunca recebeu explicações sobre a decisão ou porquê de ter passado 128 dias preso em um quartel do Exército.

Ele se formou em Direito, mas nunca advogou. Atuou como revisor, repórter e editor em jornais de Manaus e do Rio de Janeiro; foi conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE-AM) e formou uma família grande — são oito filhos, 14 netos e dois bisnetos. Foi, inclusive, da equipe do A CRÍTICA e grande amigo do jornalista e fundador do grupo, Umberto Calderaro, a quem demonstra grande saudade e carinho.


Arlindo Porto começou a carreira política como suplente de deputado estadual e foi eleito para o cargo, pela primeira vez, em 1952. Presidiu a Assembleia Legislativa do Amazonas (ALE-AM), mas teve o mandato cassado após o golpe militar de 1964 pela própria Casa. Em 2013, recebeu, de maneira simbólica, o mandato de volta. A homenagem foi proposta pelo então deputado estadual Arthur Bisneto (PSDB), atualmente, parlamentar federal.

Hoje, 50 anos depois, o jornalista se diz triste com manifestantes que pedem uma nova intervenção militar no Brasil. Para o imortal, os políticos de hoje têm muitas “mordomias” e não se dedicam tanto à sociedade como antes. Apesar de visivelmente consternado com a crise que atinge o País, se mostra contrário a um impeachment e afirma: o brasileiro precisa estudar, aprender, se conscientizar sobre a importância da política e da democracia.

O senhor teve o mandato de deputado estadual cassado durante a ditadura e ficou preso por quatro meses. O que acha das pessoas que pedem uma nova intervenção militar?

Eu acho isso uma perda de tempo, porque as pessoas que pedem a volta da ditadura não têm noção do que seja um País sem democracia, sem direito de voto, sem direito de o cidadão criticar, discordar daquilo que acha estar errado. Isso não tem em um regime ditatorial, como aconteceu em 1964. Eu vejo com muita tristeza esse ponto de vista.

O que esse fato significou para o senhor? Qual foi, na sua opinião, o motivo da cassação seguida de detenção?

Para mim foi muito doloroso, porque eu fui o único deputado estadual cassado pela própria Assembleia em todo o Brasil. Não houve nenhuma outra cassação. Para mim foi uma coisa muito lastimável. Sofri perseguições que ninguém sofreu aqui, em Manaus. Só posso me lembrar desse tempo com pesar e tristeza. Eu sempre tive uma posição de absoluta liberalidade em termo de encarar o movimento militar. Nunca fiz uma posição irracional ou busquei briga com alguém, sempre mantendo meus pontos de vista, defendendo minhas motivações de natureza nacionalista. Até hoje, admito que a cassação do meu mandato foi uma decorrência do desejo dos mandatários da época de mostrarem serviço à revolução. Hoje, eu tenho o meu mandato devolvido por um projeto do Arthur Virgílio Bisneto, a quem sou muito grato.

Como o brasileiro pode se mobilizar por mudanças no cenário político nacional?

Nós temos que lutar, mas dentro dos padrões democráticos, do voto. Conscientizar as pessoas na hora do voto, votar pelas grandezas do País e do Estado. Está faltando dedicação a estudar, aprender. Recentemente, na eleição presidencial, muita gente vendeu o seu voto. Não dão mais valor àquilo que estão fazendo, escolhendo os mandatários da nação, que vão governar o País. Se não escolher direito, tem que sofrer as consequências, né?

Então, o senhor também discorda dos pedidos de impeachment da presidente Dilma Rousseff?

Acho que o impeachment não levará a nada. De qualquer maneira é uma quebra do processo democrático. O Partido dos Trabalhadores [PT] renegou muito aquilo que ele propunha. Apresentava um programa de ação e, hoje, é profanado por esses atos mostrados diariamente na imprensa, como essa Operação Lava Jato e outras coisas mais, que ainda não se revelaram. Deve ter muita coisa ainda. Antigamente, a política era mais controlada, não tinha tanta corrupção. Os políticos tinham mais dedicação à sociedade. Não havia esses financiamentos de campanha. Eu nunca recebi nada de ninguém nas vezes que me candidatei.

O senhor atuou como deputado estadual de 1952 a 1964. Poderia fazer uma comparação entre a política atual e de como era na sua época?

Na minha época, ser político era muito diferente. A Assembleia [Legislativa do Estado – ALE/AM] era na rua Barroso [Centro], em cima da Biblioteca Municipal. Não tinha um único automóvel. Eu, muitas vezes, fui e voltei no jipe velho do Renato Souza Pinto. Naquele tempo não era fácil ter carro. Não havia mordomias como existe hoje. Os deputados não tinham gabinetes, só quem tinha, um cercadinho no alto da escada, era o presidente. Hoje, têm políticos exageradamente servidos pelo poder público, com favores de natureza material, recursos extras ao pagamento.

E quanto à representatividade parlamentar? Há muitos conflitos de opinião atualmente?

Os partidos dão uma liberdade muito grande aos seus integrantes, porque eles estão em posições que, muitas vezes, contrariam o programa do próprio partido. Naquele tempo, os partidos eram mais disciplinados, tinha uma direção política e se cumpria aquilo. Hoje em dia, falam muito que estão fazendo, mas não fazem nada. Ficam metendo os pés pelas mãos, fazendo o que não devem. Deve-se ter liberdade, sim, mas para um comportamento que sirva aos interesses do povo.

Há uma mobilização pela reforma política no País. Como o senhor vê o futuro da política brasileira?

O sistema político nacional está um tanto quanto embrulhado. Não sei se as pessoas perderam o desejo de salvar o Brasil, pensando apenas em salvar a si próprias. Com muito otimismo, os passos estão sendo dados. Espero, em Deus, que sejam encontrados caminhos que possam levar o País a um estado de satisfação democrática. E que isso traga felicidade para o seu povo.

E a influência do governo na mídia? Podemos dizer que a imprensa brasileira é imparcial?

Não se deve generalizar. Da mesma maneira que existem pessoas que trabalham, dão o suor diário no jornal, querem representar a voz do povo, existem aqueles que têm interesses nebulosos. Têm lucros por meio da generosidade dos governos. Não é um mar azul de rigorosa hombridade e honestidade, tem seu lado negativo. Mas o governo tem feito várias tentativas no sentido de “esganar” a imprensa com uma lei qualquer que a iniba de criticar, denunciar fatos. Na fase ditatorial, já tinha o governo na mão para fazer o que queria, podia prender, ditar o que podia sair ou não. Hoje não tem isso. A imprensa pode se dedicar com muita abertura às críticas construtivas. A prova disso é esse problema de corrupção da Petrobras. O governo quer silenciar a imprensa, mas não encontra condições para isso. A imprensa tem feito um trabalho grande de esclarecimento da sociedade.

Qual é a importância do jornalismo no seu dia a dia e para a sociedade?

Meu dia a dia é feito pela leitura dos jornais, noticiários da televisão; e assino várias revistas nacionais. Eu procuro não ler apenas os jornais de Manaus, com ajuda de amigos, tomo conhecimento do comportamento das linhas de ação dos grandes jornais do Brasil. É algo da maior importância, porque, se não fosse a imprensa com a sua dedicação à verdade dos fatos, como o povo iria ficar sabendo do que está se passando? Por exemplo, essa Operação Lava Jato foi colocada a conhecimento geral pelas revistas, jornais, TVs. É uma situação desesperadamente penosa, o País estagnou, não progride, está devendo e, entretanto, não muda.

Fale um pouco sobre a trajetória do senhor como jornalista.

Atuei no jornalismo de 1952 a 1980. Trabalhei em vários jornais de Manaus. A convite do [Umberto] Calderaro, fui prestar a minha colaboração no jornal A CRÍTICA. Foram dias altamente rendosos para a minha formação profissional e comportamental, não só no jornalismo, mas na política. Ele era um homem honesto, profundamente lutador e aberto à verdade; aprendi as lições mais bonitas que pude receber na minha vida, em termos de jornalismo e amor ao povo. Trabalhei uns oito ou dez anos no jornal.