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Arlindo Porto fala sobre desafio de assumir a presidência da AAL

Autor de “O Regatão da Saudade”, “Poucas e Boas”, “Bernardo Cabral, um Paladino da Democracia”, entre outras obras, o  jornalista  é o novo presidente da Academia Amazonense de Letras 28/12/2012 às 19:55
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“Na Academia só cabe um pensamento:o bem da cultura” , diz o intelectual
Júlio Pedrosa Manaus

Um homem que viveu o jornalismo em sua essência e hoje, do alto dos seus 82 anos, e com inúmeros escritos, assume o desafio de presidir os rumos da Academia Amazonense de Letras (AAL). Assim, o jornalista, escritor e ex-deputado estadual e federal Arlindo Porto, se autodefine: um homem simples, com uma biografia construída ao longo dos mais de 60 bem vividos anos de profissão, entre as redações dos principais jornais do País e os meandros da política amazonense.

É fundador do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Amazonas e da Associação Brasileira de Jornalistas Escritores de Turismo. Detentor de uma sólida trajetória que o credenciou para estar onde se encontra hoje, Arlindo é também um colecionador de amigos, entre os quais o ex-governador Gilberto Mestrinho, o jornalista Umberto Calderaro Filho, o ex-senador Bernardo Cabral, e o prefeito Amazonino Mendes, com quem esteve preso na ditadura.

Na memória e em seus escritos, guarda passagens marcantes da história, sobre as quais ele fala com eloquência invejável, nesta entrevista concedida em sua residência, na tarde da última quinta-feira. Ansioso pela posse no cargo, ocorrida na manhã deste sábado (14), Arlindo disse que se prepara para lançar mais uma coletânea de artigos (seu sétimo livro) intitulada “No Castelo das Minhas Memórias”; se diz entusiasmado com os projetos que dão continuidade ao trabalho do seu antecessor, o acadêmico José Braga, e define a atitude de lançarem a sua candidatura à presidência da entidade como uma homenagem carinhosa. “Somos uma família”, afirma ele.

Sua vivência no jornalismo se confunde com a sua própria história. Como o jornalismo entrou em sua vida?

Ser jornalista sempre foi uma grande aspiração desde menino. Tinha essa tendência e com a ajuda do meu pai adotivo, que tinha poderes para isso, mais do que meus pais consanguíneos, que eram pessoas pobres, consegui cursar a Faculdade de Direito, depois de cursar o Colégio Estadual, numa turma da qual faziam parte, dentre outros, o Gilberto Mestrinho, Phelipe Daou, Roberto Cohen, Jorge Teixeira, Ramiro Silveira, Raul Mendes, entre outros colegas. Apesar desse enveredar pelo caminho do conhecimento das letras jurídicas, onde graças a Deus eu fui aprovado, numa época em que fui colega do Bernardo Cabral, me tornei advogado porque ingressei na Ordem, mas até hoje não enveredei pela área jurídica, embora continue registrado na Ordem dos Advogados do Brasil. Minha tendência natural, decorrência da minha própria inclinação pessoal, era a de ingressar na imprensa.

Quando foi o primeiro contato com o jornal impresso e as máquinas de impressão?

Um dia fui levado à presença de um grande jornalista amazonense chamado Herculano de Castro e Costa. Após a primeira conversa ele me tomou como auxiliar fazendo com que eu me tornasse revisor do Jornal do Commercio. Nesse posto demorei pouco porque logo me chamaram para o campo da reportagem. Sentiram que minha inclinação era escrever e não ler o que os outros haviam escrito. Fui repórter policial e nessa minha luta profissional participei como repórter principal de casos emblemáticos, a exemplo do Caso Delmo Campelo Pereira. Naquele tempo os maiores jornais de Manaus eram o Jornal do Commercio e O Jornal.  A CRITICA ainda não nascera.

Como se deu a sua ascensão no jornalismo?

Fui evoluindo até me tornar secretário de Redação do Jornal do Commercio, no tempo que era Associado. E numa das suas viagens regulares, que fazia até Manaus, o comandante-chefe dos Diários e Rádios Associados, o jornalista Assis Chateaubriand, me viu trabalhando e perguntou para o Epaminondas Baraúna, que era o diretor local: “Quem é aquele menino?” O Baraúna disse: “É o nosso secretário de redação”, nome que naquela época se dava ao editor geral do jornal, e o Chateaubriand, muito interessado, se dirigiu até a mim e perguntou quem eu era e disse: “Garoto você é o secretário mais jovem que eu tenho no Brasil inteiro”. Isso  me encheu de ânimo, alegria e entusiasmo, ainda mais vindo de Chateaubriand, cujos artigos inflamados enchiam o Brasil de conhecimento. Trabalhei no Diário de Noticias, no jornal A Luta, que era esquerdista. Na faculdade, junto com o Gilberto Mestrinho, elaboramos o jornal O Debate, que se tornou com o tempo um espécie de porta-voz da classe ginasiana, naquela época. Até que veio a despertar A CRÍTICA, que se instalou no térreo do prédio onde funcionava a Foto Alemã, e ali num feito que eu diria heróico do meu grande amigo Umberto Calderaro, começou essa epopeia maravilhosa que o jornal desenvolve até hoje. Foi ali que travei conhecimento com várias pessoas que trabalharam com o Calderaro, uma gama de pessoas que foram dando a A CRITICA essa dimensão extraordinária que ela tem.

A partir daí surgiu o interesse pela política?

Talvez levado por circunstâncias decorrentes do fato de que meu grande amigo Gilberto Mestrinho ingressara na política e se tornara governador do Estado, eu entrei na política um tanto quanto modestamente. Me tornei suplente de deputado estadual, e consegui reunir um somatório de simpatias que depois, já com o advento do Gilberto no Governo, faria de mim um deputado estadual eleito. Nessa condição de deputado estadual eleito, me tornei presidente da Assembleia Legislativa por dois mandatos consecutivos. Naquele tempo,  não havia a figura constitucional do vice-governador e tive a prerrogativa de assumir por várias vezes a chefia do governo, coisa que me deixa recordações extraordinárias devido à simplicidade com que Deus gravou a minha personalidade.

No Livro “O Regatão da Saudade”, o jornalista Umberto Calderaro Filho, que assina o texto da contracapa, fala da sua reclusão pelo regime pós-64. Como foi isso?

Devido ao meu comportamento de natureza nacionalista na Assembleia Legislativa, e nos artigos assinados que publicava, veio o movimento de 64 e eu tive então a tristeza de ver o meu mandado castrado através de uma cassação que me tornou o único deputado no Brasil cassado pela própria Assembleia. Nenhum outro Estado caçou. Mas aqui quiseram ser mais realistas do que o rei, me levando para uma estadia compulsória de 128 dias no Quartel do São Jorge, juntamente com outros companheiros de luta como os escritores Aldo Moraes e Campos Dantas, os trabalhadores Cid Cabral, Belarmino Marreiros, Ernesto Pinho Filho e tambem a presença entre nós do Padre Luiz Ruas e do atual prefeito da cidade de Manaus, meu amigo Amazonino Mendes. Ficamos lá por uma temporada, uns um pouco mais e outros um pouco menos.

Como a Academia Amazonense de Letras entrou na sua vida?

Na condição de jornalista, fui várias vezes pautado pelos meus superiores, para reportar noticiários sobre posses de acadêmicos, solenidades etc. Não sei se por isso, ou por conta da minha tendência para letras, desenvolvi um interesse muito grande pelas atividades da Academia, e passei a comparecer com uma certa regularidade aos seus eventos. A entidade era exatamente no mesmo local onde está hoje, num prédio, naquela época, bastante maltratado pelo tempo. Nessa condição lá fiquei até que em 1992, a bondade do presidente de então, me convidou a fazer parte do quadro de acadêmicos. Naquela altura só havia produzido artigos de jornal, não havia nem sequer agregado os artigos em livro, mas a maioria me elegeu membro, assumi e fui saudado por Bernardo Cabral. De lá pra cá, sempre assinei a minha presença nas várias diretorias, procurando dar a minha colaboração pessoal. A academia vive do trabalho de seus elementos.

Como o senhor avalia o atual momento da Academia?

Sempre entendi uma coisa: órgãos como a Academia de Letras, e institutos destacados pelas culturas dos seus membros, precisam necessariamente contar com a presença de figuras destacadas e de estivadores, para tocar as obras, se não ela fecha as portas. Sempre tive a academia na concepção de algo que tinha que dar minha colaboração porque eu acredito nela como um órgão de promoção da cultura de minha terra, pelo fato de reunir intelectuais, pessoas de pensamento mais avançado. É uma entidade que pode influenciar muito a nossa juventude, no âmbito da nossa cultura. Acho que não se pode prever a Academia como órgão com dissidências e rivalidades, é um órgão com um só pensamento: o bem da cultura.