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Cotidiano
SAÚDE

Atenção: infecções de ouvido mal curadas podem levar à meningite

Pesquisa aponta que quase 10 milhões de brasileiros têm alguma deficiência auditiva, o que representa 5% da população do País 21/11/2017 às 12:49 - Atualizado em 21/11/2017 às 13:52
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As pessoas costumam negligenciar a saúde dos ouvidos (Fotos: Divulgação)
Laynna Feitoza Manaus (AM)

De uns dois anos para cá, a confeiteira Mônica Lins percebeu que a audição do filho – que pediu para não ser identificado – estava ruim. “Achava que era frescura e que ele não queria me escutar, foi aí que percebi isso. Ele,desde a sétima série,usa fone de ouvido. Como ele não se entrosava com os colegas,o fone virou o companheiro dele... sempre tinha Linkin Park no último volume”, declara ela.

A mãe então o levou ao médico, e eis o diagnóstico: o filho estava com perda de 70% da audição. “O médico disse que ele tinha que aprender a usar menos o fone, e principalmente no tom bem baixo, mas não adianta. Às vezes passo por ele e está alto demais. Ele não percebe mais o nível de altura, tenho que falar alto com ele. Quando está comigo, fica desesperado porque eu tiro dele”, comenta ela.

Essa realidade é muito comum aos jovens de hoje. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que quase 10 milhões de brasileiros têm alguma deficiência auditiva, o que representa 5% da população do País. Destes, cerca de 2 milhões possuem deficiência auditiva severa, 1,7 milhão tem grande dificuldade para ouvir e 344,2 mil são surdos.

Perda auditiva e surdez

A otorrinolaringologista Nina Brock (@dranina.otorrino) afirma que perda auditiva é diferente de surdez. “Pensa no óculos: a pessoa tem uma diminuição da visão, mas não é cega. Isso acontece com a audição também. Ela vai diminuindo. Aos 80 anos de idade, todo mundo vai ter algum nível de perda auditiva, mas não vai significar que a pessoa seja surda”, pondera ela. A médica declara que as lesões no órgão auditivo são acumulativas, podendo incidir numa surdez no futuro. Mas isso depende de fatores mais intensos, visto que a perda auditiva os níveis leve, moderada, moderadamente severa, severa e profunda.

“A surdez pode acontecer quando a gente é submetido a algum trauma acústico muito importante, como um tiro perto do ouvido ou uma exposição a uma explosão, porque esses sons muito fortes podem danificar a estrutura dentro do nosso ouvido. Por isso é obrigatório o uso de equipamentos de proteção individual a quem trabalha nas indústrias, para diminuir a exposição sonora. A agressão no órgão auditivo é acumulativa e ao longo dos anos vai piorando”, diz ela.

Muitas pessoas negligenciam as infecções no ouvido (otites). Se não tratadas corretamente, otites podem evoluir para meningite, doença com taxa de mortalidade de 20%. “A otite tem um fundo infeccioso e bacteriano na maioria das vezes. O ouvido está muito próximo das regiões do cérebro, e o que divide o ouvido do cérebro é uma fina camada de osso. A infecção bacteriana pode erodir essa estrutura óssea e ir para a área das meninges. Pode também causar um abcesso cerebral. Óbvio que são complicações raras, mas podem acontecer”, explica a médica.

Outros problemas

O aparelho auditivo é dividido em três partes: o ouvido externo, médio e interno, e o órgão auditivo pode ser acometido por alguns problemas. O excesso de cera de ouvido pode trazer dor, diminuição da audição e zumbido. A pele do ouvido externo, ao sofrer traumatismo por cotonete ou acúmulo de água após o banho pode ficar inchada e trazer dor, secreção ou coceira. Nas infecções de ouvido, causadas por bactérias, os sintomas podem ser dor de ouvido intensa e às vezes súbita, febre, diminuição da audição, secreção purulenta com ou sem presença de sangue.


Nina Brock manuseando o otoscópio, aparelho que examina o ouvido (Foto: João Marcelo/Divulgação)

Por isso com os cuidados com os ouvidos devem ser reforçados. “Sugerimos sempre que evite o uso do cotonete, pois se introduzirmos dentro do ouvido, empurramos a cera para o fundo do canal auditivo, dificultando a sua eliminação espontânea. Ao tomarmos banho de mergulho, em piscina, rio ou mar, devemos ter o cuidado de secar o ouvido, uma dica é usar um pano fino, ou aplicação de calor seco”, coloca a médica.

Evitar manipulação do ouvido, e não introduzir nenhum objeto dentro do conduto auditivo é um dos cuidados a serem tomados. “Evite fones com volume elevado, e também ambiente muito ruidoso que gera desconforto auditivo”, completa Nina.

Tratamento para surdez

No dia 10 de novembro, foi comemorado o Dia de Combate À Surdez. “Há quem nasça com a perda auditiva, por isso o acompanhamento no pré-natal é muito importante. Mas temos casos de pessoas que adquirem essa deficiência com o tempo, por ouvir durante horas e com frequência sons intensos ou música em alta intensidade, além dos casos por idade avançada também”, relata a fonoaudióloga Cíntia Fadini.

Ela conta que há dois tipos principais de surdez: a de condução e a neurossensorial. A de condução acontece quando algo impede o som de passar pelo sistema auditivo. Pode ser tratada por meio de medicamentos ou, dependendo do caso, com o uso de aparelhos auditivos.

Já na perda neurossensorial há a morte irreversível de algumas células. Para essa situação, o único recurso é o uso de aparelhos auditivos para amplificar e corrigir os sons recebidos. Mas o processo inicial não é tão simples, pois, na maioria dos casos, é necessário também treinar o cérebro para ouvir melhor por meio de treinamentos específicos que estimulam a atenção e memória auditiva.

Teste da Orelhinha em bebês

A detecção precoce de problemas auditivos pode resultar em melhor qualidade de vida. Criada por lei municipal em 2000, mas sancionada pelo Governo Federal em 2010, a Triagem Auditiva Neonatal, conhecida como Teste da Orelhinha, é feita de forma rápida, fácil e indolor, executada durante o sono natural do bebê. Realizado no recém-nascido, com dois a três dias de vida (mas pode ser realizado até o 3º mês após o nascimento), ainda na maternidade, o teste é feito colocando um fone de ouvido na orelha.

O teste não é invasivo, não gera incômodo ou dor, e dura cerca de 10 minutos. Ele capta ruídos emitidos pelas células ciliadas externas (células responsáveis pela audição) em funcionamento. Quando o resultado é negativo, ou seja, com ausência de resposta ao Teste da Orelhinha, pode indicar provável problema na audição. “Provável porque um resultado negativo ao exame precisa ser confirmado com outros testes”, explica Dra. Jeanne Oiticica, médica otorrinolaringologista e pesquisadora da USP.