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Bairro do Mauazinho, a universidade do tráfico em Manaus

Geografia do bairro facilita reinado da comercialização de drogas que já forma consórcios, rifa ‘cabeças’ de policiais, financia ajuda a moradores e forma seus sucessores 02/06/2012 às 23:34
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Novos policiais, que passarão a integrar o programa Ronda no Bairro na Zona Leste, aprendem andar pelo bairro
Ana Paula Sena Manaus

Tensão, medo, tiros, ameaças e silêncio. Esse é o sistema que impera no Mauazinho, bairro localizado na zona Sul de Manaus. As vielas, becos, morros e “escadões” do local facilitam a atuação de traficantes na região o que vem gerando, entre os próprios moradores, a comparação com favelas dominadas por bandidos no Rio de Janeiro.

Pelo menos 20 pessoas foram executadas a tiros nos últimos quatro meses por facções criminosas que dominam a área. O Comandante de operações do Batalhão de Policiamento Integrado (BPI) do bairro, tenente Lurdenilson Lima de Paula, compara o local com o Complexo do Alemão, localizado na capital fluminense, devido a organização do crime, o difícil acesso à bocas de fumo, - principalmente neste período de cheia -, a difícil geografia do lugar e a falta de denúncias por parte de moradores da área. Tudo isso dificulta o trabalho da policia e acaba impedindo a prisão dos bandidos, segundo o tenente Lurdenilson de Paula.

Ele explica que os moradores não denunciam por que recebem ajuda dos traficantes. Exemplo disso é a construção de pontes com dinheiro do tráfico. “Sabemos que a maioria dos moradores são coniventes com os crimes, pois preferem receber ajuda deles. O Mauazinho pode ser com certeza comparado com o morro do Complexo do Alemão, pois os bandidos dominam todo o lugar. Eles têm uma visão completa de todo o bairro e quando chegamos na entrada, todos os bandidos já sabem”, explicou.

Mototaxi

Em troca de dinheiro pago pelos traficantes, muitos mototaxistas levam clientes nos pontos onde ocorrem a venda de droga, segundo o tenente Lurdenilson de Paula. “Só quem conhece a área consegue entrar”, afirmou.

 Vítimas são ligadas à criminalidade

De acordo com a polícia, as vítimas do Mauazinho foram todas executadas com as mesmas características, com vários tiros, sempre por ocupantes de moto ou em carros com placas não anotadas por testemunhas. Outras foram “sequestradas” e depois tiveram os corpos “desovados” em locais afastados do bairro. As vítimas eram jovens na faixa etária de 14 a 20 anos. O tenente Ludernilson Lima de Paula fez questão de enfatizar, para a reportagem, que entre as 20 vítimas contabilizadas nos últimos 4 meses nenhum deles tinha boa índole ou era “pai e mãe” de família.

 Escola da ousadia entre bandidos

As constantes mortes no Mauazinho, segundo o tenente Lurdenilson Lima de Paula, se devem à rivalidade entre os traficantes João Pinto Carioca, o “João Branco” e  “Cavalo”, que assumiu o comando do tráfico no local após a prisão de “João Branco”. De perfil violento, “João Branco” passou a cumprir pena no regime semiaberto e agora tenta reassumir a área, mandando matar concorrentes que se apossaram de suas antigas “bocas de fumo”.

Um investigador da Delegacia Especializada em Prevenção e Repressão a Entorpecentes (Depre), que preferiu não ter o nome divulgado, relatou que esses traficantes “fizeram escolas” e os que os sucederam acham que têm de fazer o mesmo, ou seja, matar. “A ousadia dos traficantes que os sucederam é tanta que eles se juntaram e formaram uma espécie de ‘consórcio’ e ofereceram a pistoleiros a quantia de R$ 40 mil pela ‘cabeça’  do tenente Gustavo Lehnemann, - antigo comandante da área -, por ele ter declarado uma verdadeira guerra contra o tráfico no bairro”, disse o tenente Lurdenilson de Paula.