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Cotidiano
Charme das vilas

Charme das Vilas: pacato estido de vida de quem mora nesses conjuntos

Nem o crescimento urbano nem a valorização de condomínios mudou o pacato estilo de vida de quem mora nessas vilas em Manaus 24/02/2013 às 09:00
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Com dezenas de casas ‘coladas’ umas nas outras, os moradores das vilas que resistem ao tempo e ao assédio do mercado imobiliário citam a segurança para as crianças e a proximidade com os vizinhos como vantagens
Nelson Brilhante Manaus (AM)

Passa o tempo, a cidade avança rapidamente em direção aos “fundos”, a classe média-alta se afugenta nos afastados e “blindados” condomínios e a vida nas vilas do Centro continua, se não a mesma, mas a passos lentos - em todos os sentidos. A convivência segue tão pacata e as reformas dos prédios tão esquecidas que tem-se a impressão de que a modernidade insiste em não entrar nas estreitas vielas cercadas de casas.

Somente nesses pequenos conjuntos é possível manter alguns dos velhos costumes que a violência urbana se encarregou de “arquivar”. Em algumas vilas ainda é possível, por exemplo, colocar a cadeira na porta de casa e “bater papo” com a vizinhança, afinal, vizinhos desconhecidos é coisa de condomínio e prédio de apartamentos.

Na rua Lauro Cavalcante, a Vila “Jorgete”, embora cambaleante e aparentemente com os dias contados, é uma autêntica representante da categoria. Com as paredes deterioradas, o conjunto de casas resiste bravamente aos efeitos do tempo e até às consequências do descuido humano. Sete das 15 residências foram destruídas por um incêndio na noite de 7 de agosto de 2012, depois que um morador esqueceu uma vasilha com azeite no fogo.

Aliás, dizem que a maioria dos salgadinhos vendidos no Centro da cidade saem da Vila “Jorgete”. Isso talvez justifique o fato de ninguém reclamar do preço “salgado” do aluguel das casas (R$ 800). Além do que, em todas as casas as ligações de água e de luz são clandestinas (gatos).


Saudosismo

O vendedor de churrasco Evandro Celestino Cruz, 50, é morador de um dos apartamentos do Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus (Prosamim), mas alugou uma das casas porque fica perto de onde comercializa seu produto. Mesmo só permanecendo na vila durante o dia, ele não tem dúvidas da tamanha diferença em relação ao antigo endereço, no igarapé do 40.

“Além da gente conversar com todo mundo, a criançada pode brincar à vontade. A gente fica despreocupado, principalmente porque sabe que aqui as crianças não correm risco de acidente de trânsito. Que bom se essa tranquilidade fosse em toda a cidade, como era antigamente”, comentou Celestino.

Problemas que pioram a situação

A pendenga judicial que se arrasta há anos pela propriedade do conjunto de casas da Vila “Jorgete” deixa os inquilinos órfãos e os imóveis cada vez mais deteriorados. “A gente nunca soube quem é o dono. A pessoa de quem nós alugamos fala que é só responsável. Enquanto a Justiça não decide quem é o dono, ninguém investe nada e os problemas vão aumentando. Ouvi falar que tem dívidas de água e luz que passa de R$ 500 mil, sem falar em IPTU (Imposto Territorial Urbano)”, revelou um morador que pediu para não ter o nome revelado.

Para o eletrotécnico João Bonfim, 51, foi um “achado” encontrar a irmã de criação morando numa das vilas do Centro. Como era inquilino no igarapé do 40, não teve direito a apartamento do Prosamim. Hoje divide o aluguel de uma das casas com a irmã e não quer outra vida. “Não tenho problema de ônibus, vou a pé para o trabalho, os meninos podem brincar à vontade, enfim, parece vida de antigamente”.

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“Com esse planejamento urbano a cidade tem crescido de forma muito acelerada. Muitas áreas rapidamente são ocupadas por prédios novos. No Centro de Manaus, a história muda de figura porque o saudosismo ajuda os donos dos imóveis mais antigos a resistirem, mas não será por muito tempo. Seria interessante se houvesse o incentivo do Governo do Estado para essas vilas que estão em situação precária, para que elas possam voltar a ter aquela vida pacata de antigamente, a exemplo do que fizeram no Pelourinho, em Salvador, recuperando as casas antigas. Tem formas de incentivar os donos das vilas, como isenção de IPTU ou financiamentos, por exemplo. Eles vão poder reformar as casas, escapam da especulação imobiliária e incentivam as famílias a permanecerem nas vilas. Do contrário, nem as vilas familiares sobreviverão”, diz Carlos Araújo, Urbanista.