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Como conviver com a Geração Y no ambiente de trabalho

Existem 80 milhões de pessoas na geração Y, com muitos traços exclusivos: a sensação de que merecem muito, a tendência a compartilhar demais nas redes sociais e uma franqueza que beira a insubordinação 07/05/2016 às 19:30
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A sensação de merecer o melhor não é apenas um estereótipo ligado à geração Y no local de trabalho (foto: Jenn­ifer S. Altma­n/The New York Times)
Ben Widdicombe © 2016 New York Times News Service

Joel Pavelski, de 27 anos, não foi a primeira pessoa a mentir para seu chefe para conseguir uma folga do trabalho. Mas inventar o funeral de um amigo, quando na verdade ele estava construindo uma casa na árvore – e depois colocar uma postagem em um blog e no Twitter sobre o assunto para ter certeza de que todo mundo no escritório percebeu? Isso parece novo.

Esse foi um dos recentes desafios para a administração do Mic, um site de cinco anos de Nova York que vem brigando para se tornar líder de fonte de notícias criadas por e para a geração Y. Chamadas recentes incluem “Não se deve banir os muçulmanos e sim os hoverboards” e “Quando homens desenham vaginas”.

“Existem 80 milhões de pessoas na geração Y, nós focamos nas 40 que foram para a faculdade”, explica o executivo-chefe Chris Altchek, de 28 anos.

Mas ele ainda está aprendendo a administrar muitos dos traços associados a seus colegas de geração: a sensação de que merecem muito, a tendência a compartilhar demais nas redes sociais e uma franqueza que beira a insubordinação.

A equipe de 106 pessoas do Mic se parece muito com seu público-alvo: pessoas asseadas de 20 e poucos anos, com barbas para os homens e roupas fofas para as mulheres, que terminam cada frase com um ponto de exclamação e usam muito a palavra “literalmente”.

A redação apinhada na Rua Hudson tem uma vibração agressivamente divertida, como uma fraternidade de ensino médio. Alguns vão de skate para a cozinha pegar lanches gratuitos. Outros empunham pistolas de dardos ou usam megafones para fazer comunicados. Dino, um maltês branco cujo dono é o designer principal, passa cheirando entre as mesas.

Altchek se orgulha da cultura livre do escritório. “É bom para nós que todos falem e que as melhores ideias apareçam. Pode parecer e soar como grosseria. Mas prefiro ter um monte de gente dizendo o que pensa do que um ambiente muito controlado.”

Mas administrar um escritório que só conta com funcionários da geração Y, ao que tudo indica, também tem seus problemas. Sua filosofia foi testada quando Pavelski, diretor de programação do Mic, pediu uma semana de folga especialmente para ir a um velório em seu estado natal, Wisconsin. “Fui falar com Joel: ‘Sinto muito por sua perda. Fique fora o tempo que precisar’”, conta Altchek.

Então, vários dias depois, ele percebeu que Pavelski havia colocado uma mensagem no Twitter com um link para o Medium, um blog popular para textos pessoais catárticos. Em uma postagem chamada “Como perder a cabeça e construir uma casa na árvore”, Pavelski escreveu que estava se sentindo estressado no trabalho e, como terapia, queria reconstruir a casa da árvore de sua infância. A primeira linha dizia: “Falei que deixaria a cidade para ir a um enterro, mas menti”.

“Eu fiquei meio surpreso. Não aceito que mintam para mim”, conta Altchek. Em um encontro disciplinar no dia seguinte, o supervisor de Pavelski reconheceu que o jovem vinha trabalhando por muitas horas, então ele ganhou mais uma chance. Ainda assim, Altchek queria passar uma mensagem. “Nosso retorno para ele foi: ‘Não temos uma política de três erros e está fora. Bastam dois’.”

Pavelski ainda está em seu primeiro erro. Mas, mesmo em um escritório que é tolerante com a maneira como os jovens expandem suas fronteiras, alguns comportamentos dos integrantes da geração Y passam do limite.

Altchek se lembra de um encontro de toda a empresa em setembro que coincidia com o Yom Kippur e o Eid Al-Adha. Uma funcionária anglo-paquistanesa perguntou por que os chefes haviam anunciado um período de trabalho flexível para o feriado judaico, mas não para o muçulmano.

“Então falei para ela: ‘Você está certa, somos inclusivos e o respeito a todas as religiões é incrivelmente importante para o Mic”, afirma Altchek.

Depois, em frente a um pequeno grupo, ele foi abordado por uma funcionária mais jovem, recém-chegada que afirmou que havia duas palavras faltando na resposta dele. “Fiquei meio confuso e perguntei: ‘Ok, e quais são?’”, conta ele. “E ela disse: ‘Sinto muito. Não ouvi um pedido de desculpas’.”

Altchek não achou que o comentário era apropriado para um local de trabalho, especialmente o seu.

“Fiquei um pouco surpreso pelo tom, mas disse a ela que iria abordam o assunto e ter certeza de que a pessoa que fez a pergunta não havia ficado ofendida com a resposta. Você precisa controlar sua raiva. Aconteceu na frente de um monte de gente, o que foi provavelmente melhor, porque fui forçado a ficar calmo.”

Essa funcionária não está mais na empresa. (Altchek explica que ela saiu por “questões relacionadas a seu desempenho”.) A sensação de merecer o melhor não é apenas um estereótipo ligado à geração Y no local de trabalho.

“Acham que têm direitos, são preguiçosos, narcisistas e viciados em redes sociais”, segundo a rede CNBC. “Eles não precisam de troféus, mas querem reforço positivo”, escreveu a revista Forbes. “Muitos integrantes da geração Y pensam em melhorar o mundo, e o futuro do trabalho está em inspirá-los”, afirmou a revista Fast Company.

Chefes mais antigos, confusos sobre por que as pessoas da geração Y gostam de se comunicar por Snapchat com seus colegas de trabalho ou não querem pagar suas dívidas com trabalho pesado, precisam se acostumar. No ano passado, os integrantes da geração Y superaram os da geração X (com idades entre 35 e 50 anos) como a maior parte da força de trabalho, segundo o Centro de Pesquisa Pew. A geração Y também passou em número a geração dos baby boomers.

Joan Kuhl, de 35 anos, que fundou a Why Millennials Matter (Porque as Pessoas da Geração Y são Importantes), uma firma de consultoria que aconselha empresas como a Goldman Sachs sobre como contratar e reter recém-formados, diz que é necessário maior familiaridade.

“A tendência é dar visibilidade a esses atos ultrajantes de desafio ao invés de enfatizar a maioria que vejo e com quem trabalho, que são muitos focados em sua missão e têm valores como base”, afirma ela.

Joan ensina seus clientes sobre as peculiaridades das pessoas da geração Y e por que um jovem de 21 anos não vê nada de errado em compartilhar demais. Os integrantes da geração Y são incentivados a criar uma “marca pessoal forte” para conseguir um emprego, conta ela. Assim, pedir que diminuam o compartilhamento quando conseguem um emprego é mandar “um monte de mensagens contraditórias”.

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