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Cotidiano
Pesquisas

Descobertas oriundas das pesquisas da Expedição Serra do Aracá são reveladas

Pesquisadores que durante 17 dias desbravaram riquezas do Parque Estadual Serra do Aracá retornaram com um manancial riquíssimo de informações, registro de novas espécies e a certeza que é preciso estudar melhor o local 18/09/2017 às 08:36 - Atualizado em 18/09/2017 às 08:36
Show peltogyne
A Peltogyne pode ser uma nova espécie do gênero Hymanaea / Fotos: Ramiro Melinski, Francisco Farroñay, Marcelo Gordo e Euzivaldo Queiroz
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Os pesquisadores que integrararam a Expedição Aracá, ao Município de Barcelos (a 405 km de Manaus em linha reta e a 656 Km por via fluvial), que durante 17 dias desbravou as riquezas do Parque Estadual Serra do Aracá, retornaram da viagem com um manancial riquíssimo de informações que ainda estão sendo analisadas e, claro, estudadas.

Entre as novidades há quatro espécies de anfíbios que muito provavelmente são espécies novas, mas ainda demandam estudos mais aprofundados e esse número pode chegar a cinco ou seis, informa o professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Marcelo Gordo, que integrou a equipe de pesquisa.   “Além das espécies novas, tivemos o registro de duas espécies de anfíbios conhecidas apenas de outros países e uma serpente (Mastigodryas moratoi) recém descrita que pouco se conhece”, revela o pesquisador.

Os integrantes da expedição ressaltaram a necessidade de novas investidas no local para aprofundar as pesquisas. Ecólogo de formação  na especialidade em mamíferos com enfoque em primatas, o pesquisador da biodiversidade do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) Wilson Roberto Spironello explicou que a Expedição Aracá mostrou que a área em questão tem potencial e é bem interessante, “bem única da Amazônia”, e “vale a pena novas excursões pois há grandes chances de se encontrar espécies novas”, garantiu.

Reconhecimento

Ele comentou que teve menos possibilidade de trabalhar por causa da logística, atuando mais  no reconhecimento. “Não tivemos tempo, já que esse trabalho requer isso, diferente de pesquisas sobre as aves, por exemplo, pra nós leva mais tempo”, conta ele, descartando a existência de espécies novas de mamíferos. “No momento não temos nada de espécie nova. Não tivemos tempo, mas a área é de potencial para levantamentos. Mamíferos menores, como roedores, você tem maiores chances de encontrar espécies novas. Mas nem todas as áreas foram refinadas”, comentou. 
Spironello manifestou a vontade de retornar para estudar novas áreas de maior altitude e florestas altas que não foram visitadas nesta expedição e para registrar as espécies. Ele também alertou para os impactos negativos da mineração clandestina no local e para a importância da preservação, “que não está sendo vista com todo cuidado pelo Estado”.

Frase

“Há uma flora única na Serra. Existe também a beleza paisagística e da água e com formações antigas de pedra. No âmbito do conhecimento de plantas novas foi muito boa a expedição”

Francisco Farroñay, Botânico

Total de 116 aves foram registradas

A amostragem de aves durante todo o período da expedição,  isto é, desde a saída de Manaus até a parte alta da Serra do Aracá e o respectivo trajeto de retorno, resultou no registro de 116 espécies delas, relata o biólogo e ornitólogo Ramiro Dário Melinski.

“Apesar da menor diversidade em relação às terras baixas, foi na parte alta que fiz os registros mais interessantes, que são as aves consideradas características do Pantepui. O principal registro foi o da espécie “maria-preta-de-cauda-ruiva” (Knipoleguspoecilurus) (imagem abaixo), endêmica dos tepuis e registrada pela 1ª vez no local. 

O Pantepui é a região biogeográfica localizada no Escudo dos Guianas, no limite norte do bioma amazônico, que agrupa montanhas tabulares, conhecidas como tepuis, e outras formações serranas que, embora apresentem origem geológica e formato distintos, aportam elementos da biota (conjunto de todos os seres vivos de uma região) em comum com os tepuis). 

O “falcão-de-peito-laranja” (Falcodeiroleucus) também foi registrado pela 1ª vez na Serra e, embora tenha ocorrência ampla também em terras baixas, é considerada uma espécie bastante incomum. “Também fiz o registro de outras 12 espécies consideradas típicas dos tepuis, coletando algumas que ainda não constavam na coleção de aves do Inpa, como o “caraxué-de-bico-preto” (Turdus ignobilismurinus)”, informou Melinski.

Variedade diversa no ramo da botânica

Só no ramo da botânica, no total foram coletados 150 exemplares,  pertencentes a 64 famílias botânicas, 98 gêneros e 144 espécies. Foram identificadas ainda 80 diferentes espécies, de 50 gêneros diferentes, pertencentes a 14 famílias, informa o pesquisador Francisco Farroñay, mestrando no Programa de Pós-Graduação em Botânica pelo Inpa.

“Coletamos plantas de qualquer espécie que, durante a expedição, estivessem florescendo ou frutificando, independentemente da forma de vida ou grupo taxonômico, a fim de ter uma identificação ótima através de coletas férteis. De cada espécime coletado se registrou suas coordenadas geográficas, características vegetativas (hábito, altura, presença/ausência de glândulas, lenticelas, látex, odor, etc.) e algumas outras informações potencialmente úteis para a identificação das espécies. Também fotografamos as estruturas reprodutivas ou vegetativas para ter um banco de imagens das espécies amostradas e para a elaboração a futuro de um catálogo das mesmas”, explicou.

Em números

150

É o número de exemplares de plantas foram coletadas pelos pesquisadores na Serra do Aracá e trazidas a Manaus para estudos. Outras 80 espécies foram identificadas na excursão.

Procedimento delicado no retorno a Manaus

Depois de serem coletadas, as amostras botânicas tiveram que ser prensadas em jornais, embebidas em álcool 96° GL para sua preservação, e colocadas em sacos até o retorno a Manaus. Também foram coletadas folhas desidratadas para futuros estudos moleculares. As amostras foram levadas à coordenação de Biodiversidade do Inpa.

Anfíbios e serpente entre as novidades

“Em uma região como a Serra do Aracá, tudo o que for encontrado é diferente”. As palavras são de Marcelo Gordo, especialista em Herpetofauna (anfíbios e répteis) e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), que integrou a equipe de pesquisa.  

Uma das coisas interessantes, diz ele, foi verificar a mudança na composição de espécies desde os ambientes na parte baixa do terreno até a parte alta da montanha, sem contar o registro de espécies que só são conhecidas em lugares fora do Brasil e o registro de possíveis espécies novas para a ciência.

Ainda há muito no local a ser explorado, diz o professor da Ufam. “Há ambientes diferenciados que não conseguimos chegar, como uma parte do platô com mais de 1.200 metros de altitude que é coberta por floresta densa. Nessa floresta pode haver espécies que não registramos em altitudes inferiores. Em relação aos anfíbios, em todas as altitudes fiz registros sonoros de pelo menos quatro espécies que não consegui capturar e nem identificar. Será um desafio para as próximas expedições”, destaca.

Marcelo Gordo já havia estado na Serra do Aracá anteriormente, e ressalta que, desta vez, a expedição foi realizada por um caminho menos íngreme do que o caminho feito na primeira expedição, possibilitando acampamentos em diferentes altitudes, com água e florestas para serem exploradas. “A base e as encostas das montanhas também são muito relevantes e abrigam espécies endêmicas. Não é só a parte alta que pode ter espécies interessantes! E dessa maneira, consegui registrar muito mais espécies do que na primeira vez. Fiquei muito empolgado e com a certeza de que não consegui registrar tudo, pretendendo voltar outras vezes”, explicou o especialista em anfíbios e répteis.

Lacunas amazônicas

Para Marcelo Gordo, a expedição foi importante, entre outros fatores, porque “começamos a preencher lacunas de conhecimento sobre a distribuição das espécies. Mas as lacunas na Amazônia ainda são gigantescas”.

PH da água apresenta variação, diz pesquisador

O químico, pesquisador titular do Inpa e especialista em hidrogeoquímica Sérgio Roberto Bulcão Bringel também falou com A CRÍTICA sobre as observações que fez durante os dias em que esteve junto com a equipe de pesquisa. “É uma região que necessita de bastante conhecimento para que nós possamos entender o que ocorre no ambiente da Serra do Aracá, que faz parte de um conjunto como um todo do Planalto das Guianas”, analisa ele.  

Interessante, diz Bringel, é a formação da chuva, que rapidamente, cai com um PH (símbolo para a grandeza físico-química potencial hidrogeniônico, que indica a acidez, neutralidade ou alcalinidade de uma solução aquosa.) quase neutro, de 6,6, mais ou menos e, ao chegar no solo, encontra-o com uma carga muito grande de substâncias únicas e muda rapidamente o PH de quase alcalino e neutro, a  um PH ácido, de 4,5 mais ou menos, com uma dissolução dessas substâncias únicas que vão formar a cor dessa água. “É possível  que haja uma interação muito forte entre as substâncias presentes e essa matéria orgânica, que ainda precisamos investigar também”.

Coloração

A cor da água existente na Serra do Aracá é bastante interessante, ressalta Bringel. “Ela provém basicamente de todo material orgânico que está em decomposição na Serra do Aracá. A decomposição é rápida, em uma região de charco, e isso facilita a dissolução dessa matéria orgânica que vai compor a cor da água”.

O especialista frisa que são necessárias novas incursões ao local. “O que nós vemos é uma coisa e o que analisamos é outra completamente diferente. Precisamos ter dados de, pelo menos, 1 ano de pesquisas, para poder falar daquele ambiente. Os dados estão isolados. O que fizemos foi um simples levantamento que deve ter continuidade, mas com outro foco de pesquisa, com interação, um programa de pesquisa bem coordenado. Esse resultado ainda não foi discutido com o grupo, sendo necessário um programa de pesquisa envolvendo vários  assuntos e que seja homogêneo”, pontua ele.

Emoção

Ir de encontro pela primeira vez ao Parque Estadual Serra do Aracá, e se deparar com a maior queda d’água livre do Brasil, que é a Cachoeira do Eldorado ou Cachoeira do Aracá, com seus 353 metros de altura, encantou o pesquisador parintinense.

“Ver aquele paredão de água caindo foi sui generis. Foi sem igual. Trezentos e poucos metros de queda de água livre... Foi maravilhoso, bem como as cachoeiras do Boto e do Pai Nosso. Cada coisa maravilhosa, tudo lá em cima na Serra do Aracá. Há cinco ou seis cachoeiras lá em cima”, descreveu ele.

Frase

O que nós vemos na expedição é uma coisa, e o que analisamos é outra completamente diferente. Precisamos ter dados de, pelo menos, 1 ano de pesquisas, para poder falar daquele ambiente. Os dados estão isolados.

Sérgio Bringel, químico e pesquisador do Inpa