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Derrubada de mais de 30 árvores no campus da Ufam pode ter sido causada por erro

Esta semana, várias árvores foram cortadas no setor norte, no hall do ICHL, devido obras de um estacionamento. A derrubada gerou revolta e parte dela pode ser um erro de entendimento 16/10/2015 às 16:29
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A derrubada de uma Sumaumeira que ficava ao lado da entrada do hall do ICHL foi o que mais revoltou a comunidade acadêmica
Vinicius Leal Manaus

A derrubada de mais de 30 árvores que ficavam no setor norte campus da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), esta semana, revoltou a comunidade acadêmica. Um grupo de alunos fez um protesto pintando de tinta vermelha os tocos das árvores cortadas, e os estudantes prometem mais atos em defesa da floresta da Ufam. Entretanto, o assunto é “nebuloso”, rodeado por dúvidas.

As árvores cortadas ficavam no início do setor norte, no Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL). Algumas delas estavam concentradas em um bloco de mata fechada entre o centro de convivência e a rua e outras espalhadas pela área de início do ICHL. Segundo a assessoria de imprensa da Ufam, a derrubada das árvores faz parte da obra de expansão do estacionamento com construção de abrigos de ônibus e passarelas incorporadas.

“Foram tomadas todas as medidas preventivas para que o dano ambiental fosse o menor possível. A instituição realizou estudos de fauna e flora, recebeu representantes do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) para avaliação do projeto e obteve todas as licenças necessárias para que a obra fosse iniciada”, disse a assessoria.

De acordo com o órgão, vários professores da Ufam, especialmente os do Centro de Ciências do Ambiente, acompanharam a demarcação da área afetada. A instituição afirmou, ainda, que se comprometerá em fazer uma compensação ambiental. “Para cada árvore retiradas serão plantadas outras 20, o que supera o número indicado na legislação, que é de 2 por unidade”, informou. A obra está prevista para terminar em abril de 2016.

Bloco de mata fechada que foi derrubado entre centro de convivência e a rua. Foto: Clóvis Miranda

O biólogo e professor Marcelo Gordo, do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da Ufam, foi o especialista que assinou o parecer técnico de fauna da obra. Além do parecer sobre fauna, havia outro parecer sobre vegetação, a flora. Segundo o professor, no projeto da obra constava sim a derrubada da mata fechada entre o centro de convivência e a rua – e algumas outras, mas não havia regra para derrubar certas árvores que estavam dispersas, espalhadas ao redor do hall do ICHL.

E é justamente a derrubada de árvores que ficavam afastadas do bloco de mata fechada, fora do perímetro das obras do estacionamento, que revoltou os estudantes. “Elas foram cortadas no fim de semana e feriado. Todo mundo chegou terça-feira e viu as árvores cortadas. Eram árvores que faziam sombra e parte do espaço de convivência dos estudantes”, explicou o estudante Natã Souza Lima. “Vamos nos mobilizar para mostrar que queremos árvores ali”.

O professor Marcelo Gordo tenta explicar o que aconteceu. “No meu parecer (de fauna), (eu coloquei que) das dez árvores (afastadas) que não faziam parte do complexo da floresta (mata fechada entre o centro de convivência e a rua), oito deveriam ser poupadas. Eu fui contrário ao corte de algumas dessas árvores. No parecer do professor que fez a parte vegetal (flora) não consta que algumas dessas árvores seriam cortadas”, afirma.

Marcelo continua. “Aí fica uma questão dúbia, porque o Ipaam faz a menção (no licenciamento) às medidas mitigadoras e compensatórias ao parecer de fauna e não ao (parecer) da flora, e isso dá brecha (ao derrubamento das árvores afastadas). Houve um mau entendimento entre as instituições e causou isso. A licença foi autorizada, e a empresa foi lá e cortou”, disse.


Ato de protesto de alunos contra o corte das árvores. Foto: Reprodução/Internet

A árvore que fazia sombra

Uma dessas árvores que foram derrubadas e poderiam ter sido mantidas é a Sumaumeira que ficava bem ao lado da entrada do hall do ICHL. A permanência dela ali era motivo de controvérsias entre os acadêmicos de meio ambiente da Ufam. “A árvore é resultado de um plantio de 2003. Ela cresceu e tinha gente dizendo que ela danificava a calçada, que podia quebrar telhas e machucar alguém, e que até (as raízes) estaria danificando o banheiro (mais à frente)”, explicou o professor Marcelo Gordo.

“Na minha opinião, ela (a Sumaumeira) não era problema. Mas tem outros profissionais da área que discordam do meu posicionamento. Pra mim, se uma Sumaumeira for atrapalhar desse jeito, o Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas na Amazônia) teria que mudar de local. Lá as Sumaumeiras estão ao lado dos prédios, e eles convivendo com as árvores há 30 anos”, disse Marcelo Gordo.

Ipaam proibiu o corte

Em resposta, o Ipaam informou que foram concedidas quatro licenças ambientais únicas (LAU) para a supressão vegetal em quatro áreas da Ufam, e em uma dessas autorizações não estava permitido o corte de árvores isoladas, como disse o professor Marcelo Gordo.

As três primeiras áreas autorizadas são: um ramal de 6 metros de largura que liga a estrada de acesso interno ao bloco do ICHL; uma área de 0,0565 hectares referente à construção de passarela e parada de ônibus, com supressão vegetal; e uma área de 0,0283 hectares para construção de um terminal de ônibus, também com supressão vegetal.


Área onde deve ser plantadas parte das árvores de compensação. Foto: Reprodução/Internet

A última área autorizada pelo Ipaam, a mais polêmica, é uma de 0,0216 hectares referente à ampliação do estacionamento. Nesta área, de acordo com o órgão, somente foi autorizada uma volumetria de 13,063 metros cúblicos de madeira apresentados no inventário e o corte de isoladas, ou seja, fora da área para a ampliação do estacionamento, não foi autorizado. Segundo o Ipaam, a derrubada dessas árvores não consta na licença emitida ambiental.

“As árvores isoladas dessa área são 1 Sumaúma e 2 Paleteiras que não constam na licença e que, portanto, não está autorizado corte. A licença expedida possui restrições e condicionantes, tais como: proteger a fauna, o solo e o curso d’água, além da proibição de corte de árvores protegidas (Castanheiras e Seringueiras)”, consta em trecho da resposta do Ipaam. O instituto ressaltou que “em nenhuma das licenças há autorização para corte de árvores isoladas fora das áreas das obras, assim como há a proibição de corte de árvores protegidas”.

Quanto à compensação, o órgão informou que a lei 3.789 de 2012 diz que a mesma pode ser feita por meio de pagamento para a reposição florestal ao Fundo Estadual de Meio Ambiente (Fema). “Tal pagamento é utilizado pelo fundo em ações de reflorestamento em todo o Estado. O empreendedor pode escolher entre pagar ao fundo ou oferecer a compensação por meio de reflorestamento já efetuado”, diz na nota.

Mesmo após a derrubada das árvores no setor norte do campus da Ufam, o Ipaam afirmou que será realizada uma “fiscalização de monitoramento das condicionantes dos licenciamentos emitidos pelo órgão ambiental”.

O prefeito do campus contesta

O prefeito do campus, Atlas Bacellar, contestou as informações repassadas pelo Ipaam e afirmou que no licenciamento permitiu a derrubada das árvores isoladas. “A licença foi dada por completo. No estudo do florista professor Ulisses (Silva da Cunha - que deu o parecer de flora) consta três áreas (permitidas para derrubada de árvores) e ainda os indivíduos isolados. O processo se compõe de três áreas mais as árvores isoladas. A licença não tem nenhuma restrição”.


A antiga árvore Sumaumeira ficava ao lado de tubulações de água e esgoto. Foto: Clóvis Miranda

Bacellar explica a derrubada da árvore Sumaumeira que ficava ao lado da entrada do hall do ICHL. “É uma árvore linda e maravilhosa, mas plantada no lugar errado. Estou querendo colocar dez Sumaumeiras no lugar certo. O tronco dela é enorme, atinge alturas enormes que atraem raios. Uma aluna contou que foi comprar din-din (ao lado da árvore) e um galho caiu quase atingiu ela. Um galho pesa só 50 quilos. A Sumaumeira é uma árvore de várzea”.

O prefeito do campus conta ainda que a administração da Ufam pretende construir com a obra um abrigo para 170 pessoas naquela área, protegendo os alunos do sol e da chuva. Além disso, Bacellar promete plantar no local da antiga Sumaumeira uma nova árvore. “A ideia é levar uma árvore mais adequada para trazer sombra. Ali tem tubulação de água, de esgoto, de combate a incêndio, poço artesiano. Se eu planto uma árvore (Sumaumeira) nesse local, ela pode destruir tudo (com a raiz). Podemos mudar o poço, o prédio, gastando um milhão, ou podemos mudar a árvore”.

Mobilização

Nas redes sociais, um evento de manifestação contra a derrubada das árvores e pela defesa da floresta da Ufam está marcado para acontecer na próxima segunda-feira (19), data de retorno das aulas após o fim da greve. “Vamos nos reunir para decidirmos como iremos protestar e nos posicionar para que alguma atitude seja tomada, não podemos deixar esse ‘arvorecídio’ continuar, não mesmo!”, consta na descrição do evento “Não cortem as árvores do campus!!!”.

Área de Proteção Ambiental

A Ufam possui um campus com 6,7 milhões de metros quadrados de área que constitui a maior área verde em meio urbano do Brasil e a terceira do mundo. No dia 27 de março de 2012 foi criada a APA (Área de Proteção Ambiental) pelo decreto municipal nº 1503, que incluía além dos limites do campus universitário, as áreas do Iná, Parque Lagoa do Japiim e área verde do conjunto Acariquara.