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Cotidiano
Dia Mundial sem Tabaco

Tabagistas sofrem desconfortos físicos e psicológicos ao tentar largar o fumo

Em 2015, mais de 500 pessoas se inscreveram no programa de tratamento e controle. Dos que começaram o tratamento, 58% concluíram todas as sessões e 39% abandonaram o fumo 15/05/2016 às 14:35 - Atualizado em 15/05/2016 às 15:21
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Fumante há mais de 60 anos, o aposentado Francisco das Chagas, 79, ainda não conseguiu largar o vício em tabaco (Euzivaldo Queiroz)
Silane Souza Manaus (AM)

Muitas pessoas acreditam que o tabagista é um “viciado”, “sem força de vontade”, “que não deixa de fumar porque não quer”. Não é isso. Na verdade, quem fuma sofre de dependência química, ou seja, é alguém que ao tentar deixar de fumar, se defronta com grandes desconfortos físicos e psicológicos que trazem sofrimento, e que pode impor a necessidade de várias tentativas até que finalmente consiga abandonar o tabaco.

É o que define o Instituto Nacional de Câncer (Inca), órgão do Ministério da Saúde responsável pelo Programa Nacional de Controle do Tabagismo (PNCT) e pela articulação da Rede de Tratamento do Tabagismo no Sistema Único de Saúde (SUS). Conforme o Inca, o tabagismo integra o grupo dos transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de substância psicoativa e é a maior causa isolada evitável de adoecimento e mortes precoces em todo o mundo.

No próximo dia 31, será celebrado o Dia Mundial sem Tabaco. Para quem é fumante ficar um dia sem fumo não é fácil. Que o diga o aposentado Francisco das Chagas, 79, que fuma há mais de 60 anos. “A gente sabe que o cigarro significa morte lenta, mas se não houver força de vontade ninguém consegue largá-lo. Eu até penso em deixar o fumo, pelas críticas que recebe, mas não consigo, não tenho essa força de vontade toda”, afirma ele, que fuma em média uma carteira e meia de cigarro por dia.

O aposentado por invalidez Isaac Carvalho, 49, depois de passar 35 anos fumando resolveu que era hora de parar de fumar. Mas, para isso acontecer, ele procurou ajuda em um dos Ambulatórios de Tratamento de Fumantes implantados em algumas Unidades Básica de Saúde e Policlínicas de Manaus. “Sozinho eu não ia conseguir, pode ter certeza”, revela, destacando que várias razões lhe levaram a isso, entre elas o isolamento e o fato de as pessoas se afastarem quando começava a fumar.

Ao contrário de seu Francisco e Issac, o empreendedor social Luiz Felipe Ferreira da Silva, 30, conseguiu largar o vício sem nenhum problema após perceber que fumar estava afetando sua saúde e comprometendo o rendimento nas atividades esportivas que praticava. “Comecei a sentir que me cansava muito rápido e não estava rendendo ai preferi o esporte ao vício”, conta ele, que começou a fumar por curiosidade e fumou por quatro anos. Para ele, a pessoa só consegue parar de fumar se realmente quiser.

Em 2015, de acordo com a coordenadora municipal do Programa de Tratamento e Controle do Tabagismo, Esterfânia Freitas, mais de 500 pessoas se inscreveram para o programa, somente 79% dos inscritos iniciaram o tratamento, 58% concluíram todas as sessões, e 39% abandonaram o fumo.

Reunião no Ambulatório de Tratamento de Fumantes implantado na UBS Nilton Lins, no bairro Parque das Laranjeiras (Aguilar Abecassis)

Os interessados em parar de fumar que precisam de ajuda para isso, ela lembra que há em Manaus, 19 Ambulatórios de Tratamento de Fumantes implantados em algumas UBSs e Policlínicas. “Todo e qualquer fumante que desejar parar de fumar pode ligar para a Central de Informação pelo fone: 0800 280 8 280 e perguntar qual Ambulatório está mais próximo de sua casa”, frisa Esterfânia.

Saiba mais

Conforme a OMS o tabagismo é a principal causa de morte evitável em todo o mundo, sendo responsável por 63% dos óbitos relacionados às doenças crônicas não transmissíveis. Dessas, o tabagismo é responsável por 85% das mortes por doença pulmonar crônica (bronquite e enfisema), 30% por diversos tipos de câncer (pulmão, boca, laringe, faringe, esôfago, pâncreas, rim, bexiga, colo de útero, estômago e fígado), 25% por doença coronariana (angina e infarto) e 25% por doenças cerebrovasculares (acidente vascular cerebral).

Números

8 milhões de pessoas devem morrer por ano, em 2030, por causa do consumo de tabaco e seus derivados, se a tendência atual continuar, conforme a Organização Mundial de Saúde (OMS), sendo que 80% dessas mortes ocorrerão nos países da baixa e média renda.  

Personagem

Shyrlen Sousa Pinto – Assistente Social da Semsa

"Quando a pessoa nos procura ela passa por uma entrevista para sabermos que tipo de dependência do cigarro tem – química, comportamental ou psicológica – para poder iniciar o tratamento, que é feito com base numa “Abordagem Cognitivo Comportamental”, onde se trabalha toda questão relacionada ao comportamento do usuário diante do cigarro. O tratamento conta também com ajuda de medicação como, adesivos de nicotina, goma de nicotina e bupropiona, mas é bom frisar que se a pessoa não quiser parar de fumar ela não vai conseguir, pois os remédios só ajudam a segurar a ansiedade. O cigarro tem mais de 4 mil substâncias química, inclusive viciantes e tóxicas e, além de estar associado às doenças crônicas não transmissíveis, o tabagismo também é um fator importante de risco para o desenvolvimento de outras doenças, tais como tuberculose, infecções respiratórias, úlcera gastrintestinal, entre outras doenças. Por isso, para aqueles que nunca pensaram em parar de fumar é bom se informar acerca dos malefícios do tabaco não só a ele, mas para todos ao seu redor. E aqueles que desejam largar o vício procurem ajuda dos profissionais. Temos mais de 19 Ambulatórios de Tratamento de Fumantes espalhados pela cidade".

Indústria

Apesar de diversas proibições, atualmente o Brasil é um dos países com uma das legislações mais restritivas no que diz respeito ao tabaco e seus derivados, a indústria tabagista continua ativa. Mas para a empresa Souza Cruz, líder no mercado nacional de cigarros, o aumento desenfreado de impostos, associado ao contrabando, é um problema que afeta o país, sociedade e empresas legais.

De acordo com a empresa, entre 2011 e 2015, o governo aumentou o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) em 110%, já em 2015, o aumento foi de mais 14%, sendo 7% em maio e 7% em dezembro. Além disso, em 15 Estados houve aumento de ICMS no mesmo período. Com isso, a carga tributária chegará a 80% em dezembro de 2016. 

“Considerando que no Paraguai, principal fonte dos produtos contrabandeados, a tributação gira em torno de 13%, o preço de produtos legais e ilegais é extremamente discrepante, favorecendo a comercialização destes últimos e também de outros crimes, como tráfico de armas e drogas. No Brasil, o contrabando já detém mais de 30% de participação no mercado de cigarros”, afirmou em nota.

A Souza Cruz informou que sempre reconheceu e apoiou uma regulamentação equilibrada como forma de resguardar o conhecimento público dos riscos associados aos seus produtos e de garantir que esta relevante atividade econômica possa ser desenvolvida exclusivamente por empresas regularmente estabelecidas.

No entanto, o que a história recente do Brasil e de outros países em situação similar tem demonstrado é que este novo ambiente excessivamente restritivo apenas provoca um forte crescimento do já expressivo mercado ilegal de cigarros brasileiros (composto por produtos contrabandeados, falsificados e fabricados por empresas que sonegam tributos), uma vez que, as organizações criminosas que o comandam, por óbvio, não respeitam as novas restrições.

Mercado

Para se manter no mercado, a Souza Cruz garantiu que, seguindo a sua tradição, continuará comprometida com a alta qualidade de seus produtos, buscando explorar modificações e inovações que atendam ao mercado consumidor brasileiro. A empresa reforçou também que seguirá com seus investimentos na cadeia produtiva do tabaco, que hoje envolve mais de 30 mil famílias de produtores rurais parceiras, 6,6 mil empregos diretos e 240 mil indiretos.

E mesmo sem prejuízo com as medidas restritivas, a empresa disse que acredita na importância do combate ao mercado ilegal. “O comércio de cigarros ilegais tem crescido abruptamente no Brasil e, assim, prejudicado, além da própria cadeia produtiva, a sociedade brasileira como um todo, levando à queda de arrecadação tributária, perda da capacidade de investimento público e aumento dos índices de criminalidade”, disse em nota.

Em Manaus

Na avaliação da Souza Cruz, em relação ao mercado especificamente em Manaus, o cenário se mostra crítico, uma vez que a região Norte/Nordeste sofre com maior acidez no cenário de crise no país, em função do alto índice de desemprego, redução de transferências governamentais e incremento de inadimplência, o que vem reduzindo o poder de compra da população.