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Cotidiano
ARTE

Muralista de fama mundial, Kobra elogia grafites em Manaus e quer pintar na cidade

Ele começou sua carreira como pichador artístico, depois se tornou grafiteiro e hoje é famoso por seus painéis coloridos com pinturas em mais de 30 países que destacam a street art 26/11/2017 às 08:15
Show eduardo kobra
O artista passou por Manaus na semana passada (Foto: Antonio Lima)
Rebeca Mota Manaus (AM)

Conhecido por seus enormes murais coloridos, o artista brasileiro Eduardo Kobra começou sua carreira como pichador, depois se tornou grafiteiro e hoje é chamado de muralista. Tem obras em mais de 30 países e esteve em  Manaus durante o 17ª Conescap, neste mês, para contar um pouco de sua história e do seu trabalho carregado de significados que seguem os princípios da street art, movimento que transforma espaços públicos em uma galeria de arte a céu aberto. Nesta entrevista o artista fala da notoriedade das suas obras, das dificuldades que enfrentou no início da carreira, da importância de incentivar artistas locais e o significado que suas obras têm para a sociedade. 

Como o senhor começou a se envolver com a arte?
 Eu comecei bem novo, com 12 anos de idade, no bairro da Periferia de São Paulo. Iniciei de forma ilegal, com o movimento de pichações e grafites. Dessa maneira comecei a conhecer este universo das ruas. 

No começo dos anos 90, o senhor abandonou a pichação e começou a fazer desenhos mais elaborados. Em que momento o senhor notou que a Street Art era um caminho para canalizar o seu potencial artístico?

Tudo começou de forma bem natural, como sou autodidata não tinha muitas pessoas em quem me espelhar e nem ter muitas referências. Eu simplesmente fui fazendo porque eu gosto, mesmo com todos os impedimentos da sociedade, da minha família, pois todos eram contrários, mas como eu me sentia bem fazendo e sou muito insistente, resolvi continuar e depois de muito tempo. Hoje estou há 28 anos pintando nas ruas, mas só tive alguma notoriedade com meu trabalho quando já tinham passado mais de 15 anos.

Desde que começou a desenhar nas ruas fazia desenhos coloridos?
Eu tenho vários projetos, como o ‘muro das memórias’ que são imagens antigas em preto e branco. Nem todo o meu trabalho é colorido. Tenho o projeto ‘GreenPincel’, um trabalho com o objetivo de proteção aos animais. ‘Pinturas em 3D’ no piso e o ‘olhares da paz’. Os muros coloridos surgiram porque eu queria fazer uma releitura de imagens antigas que originalmente são em preto e branco, então eu comecei a colorir essas cenas. 

Como é o processo de criação dos seus desenhos coloridos? 

Por exemplo, se fosse fazer um mural aqui na cidade de Manaus, eu ia visitar galerias, museus, bibliotecas, ou seja, ia me inteirar sobre toda a história do local que estou. A partir daí, ia desenvolver os desenhos. Meu trabalho sempre tem essa base de pesquisa. 

Qual o tempo dedicado para a produção de um painel?

 Às vezes demora mais para criar do que para pintar, eu chego fazer mais de 40 desenhos do mesmo muro antes de decidir o que vou pintar. Então geralmente eu levo um mês na criação e uma semana pintando ou até mesmo um mês. Um prédio, por exemplo, eu levo em torno de 25 dias. 

Como o senhor decide fazer esses trabalhos? É por meio de convite? 

Eu recebo muitos convites em particular de galerias, mas também eu tenho uma parte no meu trabalho que eu mesmo financio, peço autorizações de proprietários que eu quero fazer as pinturas, sem nenhuma conotação comercial.

O senhor já viu as artes pintadas nos viadutos aqui em Manaus? O que o senhor achou?
Eu não tive muito tempo de conhecer a cidade, mas pude ver pela  internet algumas obras no viaduto e achei a questão técnica algo impecável e  espero num futuro próximo ter alguma obra aqui em Manaus também e poder conhecer os artistas que realizaram esses trabalhos e fazer algo junto com eles, pois acho que a cultura aqui de Manaus é tão rica, o mundo inteiro admira Manaus. Os artistas daqui têm um campo gigantesco para explorar e quanto mais incentivo for dado a esses artistas, melhor será, vai transformar a cidade num lugar mais sociável, transformando as ruas numa verdadeira galeria de arte. Esses artistas têm que ter mais apoio de órgãos públicos e empresas privadas, pois isso melhora o cotidiano da cidade. Nossa ‘floresta’ em São Paulo é de concreto e aço, diferente daqui.

E como o senhor mantém os projetos de sua carreira?
 Em cada muro que pinto eu tenho uma tela que é um painel original desses muros, então eu vendo este original  que é uma peça única para as galerias na Europa e nos Estados Unidos e com este dinheiro eu acabo investindo na produção dos meus muros. 

Quanto custa? Qualquer um pode comprar? 
As minhas obras em tela hoje são a partir de R$ 100 mil. E para comprar depende se a obra já foi ou não vendida. 

Seus trabalhos contribuem para a valorização da cidade e dos bairros?
Dependendo do projeto ele tem essa conotação de falar da conservação do patrimônio histórico da sociedade como o Muro das Memórias. Aqui no Brasil nós não temos muito a cultura de preservar, nós destruímos prédios antigos para construir prédios modernos. Tenho o projeto ‘envolva-se’ que é exclusivo para as pessoas que querem aprender um pouco mais da minha arte e participar voluntariamente das minhas produções.  

Como o senhor lida com essa expansão do seu trabalho internacionalmente?
Eu já pintei mais de 30 países ocupando cinco continentes, só nos Estados Unidos eu tenho mais de 40 muros pintados e é o lugar onde mais atuo. A dificuldade é muito grande quanto à parte logística e operacional, isso tudo é muito complexo, cada país tem regras diferentes de segurança de trabalho, legislação, permissão para pintar, tudo isso é muito complicado, mas estou numa fase do meu projeto que é bastante enriquecedora, pois tenho conhecido várias culturas e lugares. 
 
Tem projetos futuros?
Sempre tenho, sou hiperativo, estou sempre trabalhando no sábado, domingo, feriado, gosto de pintar. Tenho projeto de trazer mais de 100 artistas ao Brasil, que é o primeiro Festival de Pinturas em 3D e quero continuar pintando e levando meu trabalho para o maior número de lugares possível. 

Sua arte é engajada, principalmente em questões ligadas à reflexão sobre a preservação da natureza. O senhor pode falar mais sobre esse seu modo de ver o mundo.
Nós todos somos interligados e interconectados. Todas as pessoas são interdependentes e nós somos dependentes da natureza. No passado nós não entendíamos muito bem isso, mas hoje em dia está muito claro que temos que cuidar dos nossos rios, das florestas e proteger os animais. E nos meus muros eu gosto de utilizar não só por uma questão estética, mas passar algum tipo de mensagem e o que gosto de passar é justamente a preservação dos animais que me preocupa muito. 

Diante dos preconceitos e das críticas destrutivas que o senhor enfrentou no início do seu trabalho, em algum momento o senhor pensou em desistir da sua carreira? 
Eu sou mais um que veio da periferia, não tive apoio de ninguém e não sou o único, tem milhões de artistas assim, pessoas que sonham em seguir com seu trabalho, mas não têm a mínima oportunidade, só recebem discriminação da família e da sociedade. Eu cheguei a ser detido, mas só queria pintar e as pessoas não entendiam muito bem o que significava, então sofri muita repressão e isso não fez com o que eu desistisse dos meus objetivos. 

No início da carreira o senhor enfrentou dificuldades para sobreviver como artista? É difícil viver da arte no Brasil?
Depende da classe social que você vem, porque o Brasil é um país de desnível social muito grande, de ricos e pobres, então artistas que nascem em famílias com boas condições financeiras não têm dificuldade nenhuma, agora quem nasce da periferia enfrenta muitas dificuldades. E não vejo muitos empreendedores investindo e incentivando esses artistas, pois às vezes simplesmente eles só precisam de uma lata de tinta para continuar, de um espaço na cidade ou de algum incentivo. Eu trabalhei como Office boy e numa agência bancária e usava esses recursos para continuar minha carreira. Com o passar dos anos, algumas pessoas começaram a me convidar: lojas de carros, escolas, parque de diversões e eu pintava de tudo. E isso me deu certa segurança, até que um parque de diversões em São Paulo chamado Play Center me deu uma oportunidade de pintar e fiquei mais de 20 anos trabalhando lá.

 

PERFIL

idade: 41
Residência: São Paulo
Ocupação: Muralista
Obras: Retratou a cena do beijo de 1945, na Times Square, em Nova York. Personalidades importantes, como Malala, ganhadora do Nobel da Paz em 2014, o ex-presidente dos EUA Abraham Lincoln e o cantor e vencedor do Nobel de Literatura em 2016, Bob Dylan. Além disso, no ano passado, Kobra entrou para o Guinness Book, por ter pintado o maior grafite do mundo, o mural “Etnias”, localizado no Rio de Janeiro. 

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