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Cotidiano
ENTREVISTA

‘Trabalhamos por uma universidade pública gratuita’, diz Cleinaldo Costa, reitor da UEA

Desde 2013 à frente da instituição, ele destaca os desafios e os projetos da universidade, e revela os motivos da crise que quase levaram a UEA a fez fechar as portas 07/01/2018 às 06:20
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Cleinaldo é reitor da Universidade Estadual do Amazonas (UEA) desde 2013 e professor titular desde 2002 (Foto: A Crítica)
Rebeca Mota Manaus (AM)

Após investimentos em dois novos cursos de pós-graduação: Gestão Pública e Gestão de Negócios, o reitor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Cleinaldo Almeida Costa, enfatiza que não há o menor risco de fechamento da universidade e destaca novos projetos para este ano.

“A UEA emerge de uma crise muito grave, maior crise que a instituição já enfrentou na sua curta história, quase 17 anos, mas sobrevivemos nesse percurso”, explica Cleinaldo. Veja abaixo os principais trechos da entrevista.

A UEA lançou dois novos cursos de pós-graduação para este ano. Quais os outros projetos previstos para 2018? 
Tivemos que fazer uma esforço muito grande para manter a universidade viva, priorizamos os pagamentos dos salários dos docentes, dos técnicos administrativos, as bolsas dos alunos, as casas de estudantes e os restaurantes universitários, essas foram as nossas prioridades para manter a casa funcionando. Tivemos que reduzir em 30% a oferta de vagas no vestibular, isso impactou diretamente o interior do Amazonas. No ano de crise não lançamos nenhuma vaga nova para o interior. Então é preciso replanejar a UEA. Nesse último vestibular ofertamos 2,4 mil novas vagas que representam um aumento perto dos 30% que havíamos perdido no ano anterior e nos permitiu a voltar a oferecer cursos no interior, que é vocação da instituição, cursos muito importantes para a economia do Amazonas. E, além disso, está oferecendo novos cursos em Tecnologia em Mineração, Pedagogia do Campo e Gestão Comercial. E também a volta do curso de Licenciatura em Matemática

Qual o maior desafio que o senhor vê pela frente?
É continuar crescendo com qualidade. A demanda ainda é muito grande e nós precisamos responder essa procura. Os recursos são finitos, precisam ter planejamento para atingir esses objetivos com qualidade. Levar a educação com qualidade ao interior do Amazonas, que eu acredito que seja maior o desafio da UEA e também é o seu papel estratégico e sua contribuição de desenvolvimento como um todo. 

De que forma o senhor entende que o ensino deve ser incentivado não só na capital, mas também no interior do Estado?
Essa política de levar a educação superior pública ao interior do Amazonas por esse mecanismo de cotas eu acredito que seja eficiente. Não necessariamente ser um mecanismo perpétuo. Na medida em que o interior alcance um grau de desenvolvimento e que não necessite mais desse suporte.Outro aspecto que precisa ser lembrado: não existe uma diferença do ponto de vista estatístico em resultado acadêmico de aluno que entra por cotas e daqueles que entraram por ampla concorrência É uma política que tem validade, estratégica para o desenvolvimento do estado. E deve ser olhada com muito carinho e zelo por nossos gestores e pela a população. 

A UEA está presente em quantos municípios?
A UEA tem sede física em 19 municípios e realiza algum tipo de atividade em 61. Hoje ela está preparada. A grande preocupação para os próximos anos é como crescer de forma consistente, em como ter mais professores e cursos, além de discutir com a comunidade e com a gestão pública, seja município e estado, quais são os cursos que teriam mais aproveitamento em determinados municípios. Só que isso envolve planejamento, recursos e um desenho de médio e longo prazo. 

O senhor pretende aumentar o número de professores?
Nós estamos nesse momento saindo de uma crise. Houve uma recuperação do PIM e naturalmente essa recuperação se reflete em orçamento para a Universidade. E em meados de 2017 nós estávamos numa situação tão difícil que não tínhamos recursos orçados para chegar ao final do ano pagando os salários de nossos professores e técnicos administrativos. O nosso governador entendeu a situação da UEA e se colocou à disposição dessa reestruturação econômica. A ALE votou por unanimidade o retorno do superávit para UEA e isso representou para o nosso orçamento, só neste ano, 16% a mais de recursos que foram muito bem vindos, porque nos permitiu cruzar dezembro de 2017 e naturalmente é um cenário que demonstra ser promissor para a Universidade.

Tem previsão de realização de concursos públicos?
Temos a necessidade de 160 vagas para professores, isso significaria concurso público em dois anos na taxa 80 professores por ano para os diversos cursos da capital e interior. São números para suprir perdas ao longo dos anos, como reposição de professores que entraram na Universidade já com idade avançada e se aposentaram ou profissionais que faleceram ao longo do tempo. Também existe a necessidade de reestruturação de cursos. São números que vão resolver uma demanda reprimida na UEA nesse exato momento.

Que caminho aponta para manter a proximidade da universidade com a comunidade científica?
Houve uma preocupação central durante essa gestão no sentido de fortalecer a formação dos nossos docentes. Nós recebemos da casa em 2013 apenas 208 doutores de um quadro de 1 mil professores, ou seja, 20.8% apenas eram doutores. Fizemos um esforço em todos no sentido de levar ao doutoramento,  uma média de 50 professores por ano, totalizamos em três anos e meio 243 professores em programas de doutoramento. É provável que até o fim dessa gestão chegue ao quadro de 455 doutores. E isso impacta no ponto de vista de produção científica, são doutores jovens, com interesse em produção, que alicerçaram parcerias, em diversas universidades nacionais e estrangeiras, com grupos de pesquisas renomados que trazem para dentro da universidade a ciência de ponta, que são recursos muito importantes, pois estruturam  laboratórios, fortalecem linhas de pesquisa e nos colocam em outro patamar de desenvolvimento científico. 

A UEA possui uma boa estrutura para incentivar a pesquisa científica?
A UEA tem investido pesadamente a despeito da crise no fortalecimento de laboratórios, no desenvolvimento de novas linhas de pesquisa e, sobretudo, investindo naquilo que é mais importante dentro da Universidade, que é o capital humano. Investimos na formação de 243 doutores, o que representa uma ordem de R$ 45 milhões em quatro anos. 

Como anda a construção da cidade universitária? Tem data prevista para começar a funcionar?
Não tem data prevista. A UEA tomou a decisão prudente de parar a obra no inicio da crise, no momento que não tínhamos como manter o investimento. No final de 2017 houve uma reunião com a Secretaria de Infraestrutura do novo Governo e iremos nos próximos dias tratar da retomada da cidade universitária.

Qual seria o diagnóstico da situação econômica atual da instituição? Ainda existe o risco de fechar?
Não, não há risco de fechar. Existe a questão de fortalecer essas demandas, ou seja, continuar investindo pesado em recursos humanos, linhas de pesquisa, laboratórios e na ciência e tecnologia. E existe em contrapartida uma sensibilidade muito grande do atual governador do Amazonas no sentido de entender a UEA. Então essa sinergia é muito boa e traz muitas esperanças para a UEA. 

Existe uma proposta de lei que pode fazer o estudante de faculdade pública pagar a mensalidade e isso seria uma das soluções para equilibrar os cofres da Instituição? O senhor concorda com o projeto?
Peremptoriamente não. Eu como professor e cidadão acredito na Universidade pública como uma medida constitucional no Brasil e como tal deve ser respeitada. Nós trabalhamos pela Universidade pública gratuita no Brasil. 

A Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (ALE-AM) aprovou em 2016 duas emendas à Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) que devolvem a autonomia financeira à Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Qual a importância da Universidade poder utilizar com “liberdade” todo o recurso destinado à instituição?
É importante entender isso como responsabilidade e que a Universidade tem no seu papel constitucional a autonomia universitária que é prevista na Constituição Federal e é muito importante entender que ela precisa sim dizer que caminhos precisa trilhar, onde deve investir prioritariamente e fazer esse desenho junto com a comunidade respondendo acerca da gestão financeira responsável de seus recursos. 

Quais avanços da UEA o senhor destaca?
Investimentos céleres. A Universidade saiu de um patamar de 20% para 50% de seus professores e doutores. Este é o maior investimento. E a partir daí que teremos os alicerces para “fazer o assoalho da casa”. 

Como é feita a relação entre os cursos que são oferecidos na UEA e o mercado de trabalho? 
Em primeiro lugar é feita uma análise econômica da mesorregião, para entender qual é a demanda de determinados cursos nesses municípios. Então a comunidade informa também que demanda tem e quais cursos serão ofertados em quais municípios. E por fim, esse estudo é oferecido na medida de um projeto de curso do qual o conselho universitário da UEA e como tal é aprovado. 

O senhor pretende sair da reitoria para disputar eleições?
Não, eu não tenho nenhum cenário do ponto de vista político no meu horizonte. Eu sou um profissional médico que trabalha há 23 anos e esse é meu cenário natural. Meu mandato encerra em março de 2018, há a possibilidade de disputar uma reeleição. 

Cleinaldo Almeida

Idade: 52 anos
Naturalidade: Rio de Janeiro
Formação: Medicina pela a Universidade Federal do Amazonas (UFAM).
Experiência: É reitor da Universidade Estadual do Amazonas (UEA) desde 2013. Professor titular desde 2002. Foi diretor da Escola Superior de Ciências da Saúde (ESA) no período de janeiro de 2011 a março de 2013.