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Cotidiano
política

‘Eleições gerais cheiram a golpe’, diz prefeito Arthur Virgílio Neto em entrevista

Adversário histórico do PT e, agora, apoiador do impeachment da presidente Dilma, o prefeito Arthur Neto diz também ser contrário a realização de eleições gerais juntos às de prefeitos e de vereadores 25/04/2016 às 10:09
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Prefeito Arthur Virgílio Neto, em dezembro de 2015 (Foto: Antônio Lima)
Antônio Paulo Brasília, DF (Sucursal)

A Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE) deve aprovar amanhã o pedido de empréstimo da Prefeitura de Manaus, no valor de US$ 150 milhões (R$ 600 milhões), para obras de infraestrutura, políticas públicas e sociais.  Com o aval da bancada de senadores do Amazonas, o pedido seguirá no mesmo dia para votação no plenário.

Na última quarta-feira, 20, o Diário Oficial da União publicou a autorização do governo federal para a prefeitura da capital amazonense contrair empréstimo como o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (Bird). Em meio à crise política, por conta do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff que contou com 100% dos votos da bancada do Amazonas, na Câmara dos Deputados, o prefeito Arthur Virgílio Neto (PSDB) diz, nesta entrevista, que o governo tinha essa dívida para com o povo de Manaus sem acreditar que a demora na autorização (dois anos) fosse por conta do voto “Sim” do filho dele, deputado federal Arthur Bisneto, ou por ele ter sido um duro adversário quando esteve no Senado.

Arthur Neto enaltece a bravura dos aliados de Dilma em defendê-la e critica os “animais pouco nobres que pulam do barco na hora que está afundando”. O prefeito de Manaus, que vai concorrer à reeleição em outubro, é contra a proposta de eleições gerais este ano. “Como dizem os petistas, isso cheira a golpe”, afirma. Leia a seguir, a entrevista com Arthur Virgílio Neto.

Após dois anos, o governo federal deu autorização à Prefeitura de Manaus fazer um empréstimo de US$ 150 milhões (R$ 600 milhões) do Banco Mundial. A demora ocorreu porque o senhor e o seu filho (deputado Arthur Bisneto) são adversários políticos?
Minha posição é muito conhecida. Agora, se eu fosse a presidente Dilma, respeitaria um adversário leal e forte como eu sou. E talvez ela tenha aprendido algumas lições com as votações de pessoas que participaram do governo dela, locupletaram-se (enriqueceram), causaram danos por corrupção ao governo dela e depois votam pela ética, votam pelo sim. Pelo meu temperamento, pelo esporte que fiz (jiu-jitsu), pela minha forma de ver o mundo, se eu fosse ela, respeitaria o Arthur Virgílio. O empréstimo não tinha nada a ver com o voto (sim ao impeachment) do meu filho porque o voto dele era esse mesmo. Estava anunciado há 500 anos; quando Cabral chegou aqui, meu filho já ia votar dessa maneira. Eu respeito muito adversários que se põem à altura de serem meus adversários duros e leais. Eu sempre tive relação muito boa com meus adversários mais duros. Se eu fosse a presidente Dilma, respeitaria o ex-senador que foi o principal líder do governo do presidente Lula, que não se arrepende disso porque cumpriu seu papel histórico do momento e que, como prefeito de Manaus, de cabeça erguida e altiva, requer que o governo cumpra com o seu dever de fazer justiça ao povo que eu dirijo.
 
Na mídia, nas redes sociais e nas suas declarações públicas, o senhor chegou a se colocar contra o impeachment e até disse que “era uma coisa menor”. Hoje, qual a sua posição?
Na época que fiz essa análise, estava começando essa crise e eu sabia o que ia acontecer com a economia. O esforço que ela (presidente Dilma) fazia e faz para não sair e o esforço que se faz para tirá-la, só fez agravar a crise. Ela não fez o gesto generoso da renúncia, por isso, eu fiz uma proposta muito clara ao meu partido e à nação de estabelecermos uma pauta de reformas estruturais independentemente de quem estivesse no governo. Está-se hoje num momento muito sério porque há um vácuo de poder; vários ministérios sem titularidade; estamos vendo ministros que se demitem sei lá por quais motivos, ocorrendo aquela velha história de abandonar o barco e o animal que abandona o barco não é um animal nobre, não é nenhum leão nenhum tigre, é um animal diferente que sempre pula do navio, preferindo morrer afogado do que lutar... No momento que vi não mais haver diálogo de parte a parte (oposição e governo) de fazer esse contrato social e nacional, votar as reformas estruturais que o presidente Michel Temer terá que fazer se, porventura, concretizar a posse dele no governo. Quando eu vi que isso não era possível, então, a saída tinha que ser mesmo o impeachment que hoje é uma necessidade. Sou muito consciente da minha posição.
 
O senhor é favor da tese de antecipar as eleições gerais para outubro deste ano juntamente com prefeitos e vereadores?
Eu não sou a favor. Entendo que deve ser cumprido o rito constitucional. Quem substitui uma presidente impedida é o vice. Sobre nova eleição, vou usar uma linguagem do PT: pareceria golpe. E registro que o PT lutou com muita bravura, foi bravo na defesa da presidente e eu respeito muito a posição firme de quem é definido; não tenho muito respeito por quem vai para um lado e outro. A Câmara aprovou a admissibilidade e agora o processo está no Senado onde vai ocorrer efetivamente o julgamento. Vamos ver o desfecho de todo o processo, para mim não muito distante, para que essa crise aguda se resolva de forma positiva.

Perfil
Nome:  Arthur Virgílio do Carmo Ribeiro Neto
Idade:  70 anos
Naturalidade:  Manaus-Amazonas
Formação:  Ciências Jurídicas e Sociais – Faculdade Nacional de Direito (UFRJ)
Profissão:  Diplomata
Cargos e mandatos: Deputado federal (1983-1987;1995-1998;1999-2002), senador (2003-2011), ministro-chefe da Casa Civil no segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso (1999-2001), prefeito de Manaus (1989-1993; 2013-2016).