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Eleitorado se recusa a patrocinar campanhas políticas

Enquete feita por A CRÍTICA mostra que eleitores estão pouco dispostos a doar recursos aos candidatos a prefeito e vereador 10/10/2015 às 17:31
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Os candidatos e partidos podem utilizar o Fundo Partidário, que este ano foi inflado para R$ 867,5 milhões, e contribuições de pessoa física limitadas a 10% do rendimento bruto do ano anterior à eleição
Aristide Furtado Manaus (AM)

Se depender da maioria dos eleitores entrevistados por A CRÍTICA nas ruas de Manaus, a campanha eleitoral do próximo ano vai ser minguada em recursos financeiros e exigirá dos candidatos a vereador e prefeito muita sola de sapato para conquistar votos.  Com a proibição do financiamento empresarial,  os candidatos terão outro desafio: convencer os eleitores a bancarem suas campanhas.

Isso porque além da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que considerou inconstitucional o patrocínio de campanhas eleitorais por empresas, ao sancionar a  minirreforma eleitoral, a presidente da República Dilma Rousseff (PT) vetou o artigo que permitia esse tipo de doação. Os candidatos e partidos podem utilizar o Fundo Partidário, que este ano foi inflado para R$ 867,5 milhões, e contribuições de pessoa física limitadas a 10% do rendimento bruto do ano anterior à eleição.

Para se ter uma ideia da dependência que a próxima  campanha terá da doação dos cidadãos, basta verificar que o  valor  atual do Fundo Partidário não chega a 20% dos R$ 4,6 bilhões arrecadados pelos 466 mil candidatos a prefeito e vereador que concorreram em 2012 em todo o País. Desse montante, 94,2% vieram de  pessoas jurídicas. No Amazonas, as empresas participaram com 91,5% dos R$ 116,5 milhões que irrigaram as candidaturas de prefeitos e vereadores, segundo dados da ONG Transparência Brasil.

Moradora do bairro Compensa, Zona Oeste de Manaus, a funcionária pública Cristiane Alves da Silva refuta a ideia de ajudar a bancar a campanha de qualquer candidato.  “Não tem nem cabimento eu tirar do meu bolso para ajudar político. Político é quem tem que ajudar a população. Não a população ajudar o político. No meu bairro não aparecem,  não que eu vejo”, disse  a servidora pública.

A mesma opinião é partilhada pelo design de móveis Sidervan Paiva, que nunca ajudou financeiramente na campanha de nenhum candidato. “Não acho correto fazer esse tipo de doação. Essas corrupções todas que ocorrem no Brasil e todo mundo parece estar envolvido.  Na minha comunidade eles aparecem próximo da campanha. No dia a dia, somem. Só doaria para alguém que tivesse comprometido com o interesse público e não em si próprio”, disse o morador do bairro de Petropolis, Zona Centro Sul de Manaus.

O bancário Andrei Silva está disposto a ajudar na campanha do seu candidato. “Desde que me identificasse com a ideologia do partido com as propostas desse candidato eu abriria mão de parte da minha renda em favor dessa campanha política”, disse.  Ao ser questionado sobre o que pensa da classe política disse: “estou decepcionado. Acho que precisamos de heróis no cenário político, pessoas de bem que representem os anseios da população”.

Análise, Ademir Ramos, doutor em Antropologia e professor da Ufam

Com a proibição da doação de empresas para as campanhas, o eleitor  ganha status de cidadão, economicamente falando.  O candidato vai ter que bater a porta e convencer o eleitor de que ele deve participar do processo. Não temos tradição desta prática política. Nos Estados Unidos  é mais comum. De certa forma, já fazíamos isso na década de 1980 com os almoços para levantar fundos. Vai ser prática comum reunir eleitores em grandes encontros e ao mesmo tempo passar a sacolinha. Além de não termos tradição disso, o eleitor está ressabiado com o político. O  candidato terá que vender a proposta dele para o eleitor. Vai ter que gastar muita sola de sapato e muita saliva. O processo de fiscalização da Justiça Eleitoral terá que ser rigoroso para evitar o caixa dois. Pode-se burlar a regra. Determinadas empresas podem fazer uma caixinha escolher um grupo de eleitores de confiança para doar como se o dinheiro fosse deles. Isso tem que ser coibido pela justiça. Por outro lado, quem tiver pouco recurso ficará no mesmo patamar de igualdade de quem já está no  mercado. Todos vão ter que correr. Vender proposta. E como isso minimizar o custo de campanha. Não sei se a qualidade do marketing vai cair. Mas não terão como manter os custos atuais desse serviço. Vai  ser um novo ensaio.

Em números

70% do maior gasto declarado na eleição de 2012 é o limite que os candidatos  poderão usar no pleito de 2016. Se a  eleição tiver sido em dois turnos, no caso de prefeito, o limite será 50% do total de gastos.

R$ 100 mil será o teto de gastos para candidato a  prefeito nos municípios com até 10 mil eleitores. Para vereador, o limite é R$ 10 mil. O descumprimento acarretará multa de100% da quantia acima do teto.