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Cotidiano
Entrevista Haiti

Embaixador do Haiti está de malas prontas para visitar o Amazonas

Em entrevista exclusiva para A Crítica, o embaixador do Haiti no Brasil revelou que foi ideia dele a proposta da cota do visto humanitário e de emprego para a entrada de haitianos no Brasil 06/02/2012 às 11:48
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Embaixador do Haiti no Brasil, Idalbert Pierre-Jean
Antônio Paulo Brasília

 O embaixador do Haiti no Brasil, Idalbert Pierre-Jean, está de malas prontas para visitar o Amazonas e ver de perto a situação dos 4,6 mil haitianos que estão no Estado, sendo 3,6 mil em Manaus e 1 mil em Tabatinga (a 1.105 quilômetros da capital amazonense). A viagem só depende do Governo do Estado responder oficialmente à solicitação da Embaixada, que está em negociações com o presidente haitiano, Michael Martelly, para criar um consulado do país caribenho na capital amazonense. Pierre-Jean já esteve no Acre e também tem a intenção de ir a Rondônia, para onde foram dezenas de haitianos à procura de emprego nas usinas hidrelétricas que estão sendo construídas.

 Idalbert avalia como positiva a ação do governo brasileiro em limitar a entrada de imigrantes do Haiti a partir do dia 12 de janeiro, mesmo emitindo opinião de que, por ele, o número poderia ser maior. Ele classificou como um erro a aventura dos seus conterrâneos em fazer a longa viagem com o auxílio de “coiotes”. O representante do Haiti disse não ter críticas ao Brasil nem aos governadores dos Estados, assim como à sociedade civil, porque reconhece o esforço que todos estão fazendo para ajudar os compatriotas. Questionado sobre o futuro do seu País, o embaixador responde que somente por meio de investimentos internacionais o Haiti poderá criar infraestrutura, produção, turismo e emprego, pondo fim ao fenômeno migratório de seu povo. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Como o senhor avalia a imposição de uma cota de 1,2 mil vistos humanitários por ano para haitianos em busca de refúgio no Brasil?

A ideia de fixar uma cota de visto humanitário foi minha, da Embaixada do Haiti no Brasil, aceita pelo Itamarati (Ministério das Relações Exteriores). No entanto, não tenho nenhum direito de estipular número. O Brasil é um País soberano e tem a responsabilidade sobre sua política migratória para tomar as decisões que entender melhor; decidir quem pode e não pode entrar no País. Não era a Embaixada do Haiti que poderia impor ao Brasil essa situação. A cota foi uma proposta de um acordo entre o Brasil e o Haiti. Não foi selado um acordo migratório, mas saiu uma resolução fixando uma cota de cem vistos ao mês. Não vou entrar nesse mérito sobre a resolução, mas para mim, ela é positiva. Agora, é natural o embaixador querer que a quantidade fosse maior.

Na sua opinião, a cota de cem vistos/mês vai frear o fenômeno migratório ou apenas aumentar a demanda por coiotes que possam colocar os haitianos dentro do território nacional de forma ilegal?

A ideia é reduzir, pois, sabemos que não vai resolver o problema da migração. Os especialistas dizem que o tema da migração não vai acabar porque é muito mais complexo e não é somente no Haiti. O desenvolvimento mundial é desigual e, a partir da desigualdade, os problemas se agravam. Esse visto humanitário é de trabalho para dois anos com prorrogação de mais dois. É o que diz a resolução. O acordo, a resolução, tem essa virtude de reduzir o número de haitianos que saem do Haiti sem visto para o Brasil nas mãos dos coiotes que exploram o tráfico de pessoas e também pretende resolver um problema brasileiro que é o controle e vigilância da fronteira. O tráfico de pessoas ocorre quando há uma zona onde acontece a entrada de imigrantes ilegais. Pode haver também um problema de drogas, crianças e outros tipos de crimes. Portanto, a avaliação é positiva porque vai reduzir essa migração. Os haitianos vão primeiramente tratar de conseguir o visto no consulado ou Embaixada do Brasil no Haiti.

Então, o senhor é contra a migração, a entrada ilegal dos haitianos no Brasil?

 Um haitiano que vai tentar entrar no Brasil ilegalmente passa por todos os tipos de problemas. No Acre, dizem que parte do pagamento da viagem do Haiti ao Brasil é roubada nas fronteiras pelos coiotes. Mas, os haitianos estão reconhecendo que pagando US$ 3 mil, US$ 4 mil aos coiotes, para chegar ao Brasil, é um erro. Podem trabalhar, fazer qualquer coisa, mas é um dinheiro perdido. Por outro lado, é preciso entender que quando um ser humano está desolado, com problemas econômicos, a única ideia que se tem é sair dessa situação e procurar outras alternativas. Agora, primeiramente, o haitiano vai tratar de conseguir o visto e isso é o mais importante.

O senhor compartilha com a opinião dos críticos sobre a demora na ajuda dada pelo Brasil aos haitianos que chegaram ao País desde o final de 2010?

Sempre há problemas com os casos de imigração e limitações nas ações governamentais. Não poderíamos pedir ao Governo do Brasil que desse tratamento a cada imigrante porque todo governo tem o dever primeiro de atender à população nacional. Acho que não é verdade que o Governo Federal nem os governos locais não estejam ajudando. O governo está fazendo. A própria presidente Dilma deu instruções para dar ajuda humanitária aos haitianos. O que as organizações religiosas e outras entidades podem dizer, não vou entrar no mérito, mas, o que sei é que Governo Federal, Estadual e Prefeitura estão ajudando desde o início da Minustah (Missão de Paz da ONU), em 2004, sobretudo a partir do terremoto em 2010. São muitas ações nas áreas de agricultura, energia e cooperação alimentar e técnica.

 Na sua opinião, porque esse fenômeno migratório para o Brasil está ocorrendo? Tem a ver com o fato de que o Brasil desponta como liderança da América Latina?

Tem a ver, primeiramente com o controle rigoroso nas fronteiras. Os haitianos não vão conseguir um visto para ir ao EUA ou Canadá. A chegada dos haitianos ao Brasil é um fenômeno muito recente e ocorre a partir do terremoto de 2010. As razões são muitas: gente que perdeu casa, famílias, não tem trabalho. Como todas as outras fronteiras estão fechadas, eles procuram novas, que estão abertas, mas também porque o haitiano sempre teve uma relação de idílio (amor, carinho) com o Brasil, com sua cultura, com seu povo, sobretudo com futebol. E a situação do Brasil é muito mais interessante porque é um País em construção. O migrante haitiano pensa que aqui pode trabalhar especialmente porque vai acontecer a Copa do Mundo em 2014. De fato, há trabalho que nem todos os brasileiros querem fazer por conta do baixo salário, mas para um haitiano, que não tem emprego no seu País, pode ser o melhor.

O que o senhor pensa sobre a Missão de Paz da ONU no Haiti?

O Brasil tem o comando da Minustah, mas não é o único. Toda missão de paz tem problemas de impopularidade porque está ligada ao nacionalismo, à soberania nacional. Há dois casos que levam os haitianos a estar contra a Minustah: a cólera humana que dizem ter sido levada pelos soldados; e a denúncia de um caso de estupro a uma menina haitiana por soldados uruguaios. O presidente Michael Martelly falava na campanha eleitoral da saída progressiva das forças de paz. É uma proposta legítima e soberana porque um País não pode estar eternamente debaixo da força da ONU.

Como o Haiti pode sair dessa situação em que vive principalmente depois que foi destruída pelo terremoto? Qual é o futuro daquela Nação?

Somente com investimentos estrangeiros. O Brasil é consciente dessa situação e é um dos países que mais fala disso concretamente. A partir da resolução, que estabeleceu as cotas de vistos humanitários, a presidente Dilma Rousseff está criando diversos níveis de cooperação bilateral para aumentar os investimentos no Haiti. Mas, os investimentos não podem ser somente do Brasil. O governo haitiano também está procurando investimentos nos países amigos para reconstrução, alavancando a produção, o turismo, a cooperação técnica e criando emprego e renda ao povo haitiano. E repito: o Brasil está fazendo essas ações nos últimos cinco, seis anos.