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‘Empresário tem que tentar prever o futuro’

Novo presidente da Associação Comercial do Amazonas revela sua  trajetória   e fala dos desafios da economia brasileira para 2012. Em Manaus, o foco hoje é solucionar questão de acesso ao Centro 30/06/2012 às 18:15
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Ismael Bicharra tomou posse este mês como novo presidente da Associação Comercial do Amazonas (ACA)
Cimone Barros ---

Diz a lenda que os árabes, se não inventaram o comércio, foram os primeiros a lucrar com ele. Seguindo a tradição, o amazonense Ismael Bicharra Filho, 54, desde cedo se movimentou nessa direção. E com a mulher, Amália, conseguiu montar negócios sólidos, boa parte baseada em importações. Bicharra tomou posse este mês como o novo presidente da Associação Comercial do Amazonas (ACA), onde pretende nos próximos dois anos preservar o legado da entidade de 141 anos e atender as demandas advindas do setor.  Em entrevista ao A Crítica, Bicharra conta sua trajetória empresarial que começou com uma pequena loja dentro do Hotel Tropical há 26 anos. Também fala que diante do aprofundamento da crise internacional e apesar das medidas do governo, não acredita em crescimento da economia este ano, além de adiantar a busca de alternativas para movimentar o comércio do Centro de Manaus, após a cheia e as mudanças no trânsito.

Quem é Ismael Bicharra Filho?

Sou caboclo da terra, de São Paulo de Olivença. Vim com sete anos para Manaus. O meu pai tomava conta da rede de telégrafos em São Pulo de Olivença e Benjamin Constant. Nós, árabes, sempre enveredamos para o comércio, e acredito que isso esteja no nosso sangue. Comecei a trabalhar com 12 anos, no escritório do advogado Nissin Benoliel, entregando intimações. Depois, fui um dos primeiros DJs, no Ideal Clube, o que me levou a trabalhar na Disco de Ouro. Depois fui para a Varig e subi muito rápido na empresa.

E como foi para o senhor se tornar empresário?

Como o meu relacionamento, ainda na Varig, era muito próximo à diretoria do Hotel Tropical, consegui uma loja pequena, de 20m, no shopping do hotel. Ali eu e minha esposa, Amália, iniciamos a nossa atividade empresarial, dia 1º de maio de 1986. Demos muita sorte. Tínhamos poucos recursos e para entrar no shopping do hotel, só tinha um modo: ser útil. Então montamos a Drugstore. O medicamento era nacional e todo o resto importado, porque era o grande nicho de mercado. Juntamos a necessidade do hóspede com os produtos para a venda. Tínhamos filme, repelente, tudo focado na necessidade do turista

Desde o início o negócio foi de família?

Sim. E no início continuamos trabalhando na Varig. Quando ela engravidou da nossa primeira filha, dormia atrás do balcão da nossa loja. Sábado e domingo também. Nós éramos a primeira loja que abria, para pegar os turistas, e a última que fechava.

O que inspirou o negócio Drugstore?

O nome inicial era drogaria Santa Amália S.A. Depois, como viajávamos muito para o exterior, resolvemos mudar. Após três anos, abrimos nossa segunda loja, na Guilherme Moreira no Centro. Na parte de cima era um hotel em ruínas. A lojinha dava pouco mais de um metro por dois de fundo e as prateleiras eram uma escada. Depois tivemos loja no Sucatão, no Cecomiz, chegamos a ter sete lojas no auge da ZFM e mais de 100 funcionários. Hoje, temos mais de 150 funcionários, fora os profissionais, porque agora temos a distribuição.

Como foi para o senhor começar a importar?

Minha primeira viagem para os Estados foi para fazer compras. Conseguíamos ser agressivos porque vivíamos com o nosso salário, e toda a rentabilidade da empresa era reinvestida nela. Lembro que a gente comprava, para revenda, o desodorante Brut aqui em Manaus a US$ 6. Descobrimos que comprando lá em quantidade maior saía a US$ 1. Trouxemos e vendemos a US$ 7 na ponta enquanto todo mundo vendia US$ 9. Nisso, começamos multiplicar nosso investimento.

E como fez para continuar após a abertura econômica com o Collor de Melo?

O governo criou novas normas e procedimentos que criaram dificuldade nas burocracias que hoje são aplicadas no Brasil. A partir daí a ZFM começou a declinar. E isso aconteceu não porque abriu a importação para o resto do Brasil, mas porque as novas regras, como certificação de produtos, as autorizações dos Ministérios da Saúde, da Agricultura, as análises feitas pelos laboratórios para que se tenha a certificação do Inmetro, prejudicaram a Zona Franca, já que não tínhamos laboratórios aqui.

E como vocês fizeram para superar isso?

Pensando nesses problemas. Participávamos de feiras internacionais e tínhamos muitas informações sobre como os outros países procediam em relação a controles. Então começamos a pulverizar a venda de importados para a periferia de Manaus. Antes as pessoas diziam: “Vou lá na Zona Franca” e se achava que a ZF era o Centro da cidade. Além disso, abrimos lojas de importados dentro dos supermercados e drogarias da cidade. Isso há dez anos e não existe mais.

Atualmente como estão configurados os seus negócios?

Temos as lojas Drugstore, no Amazonas Shopping e Manauara Shopping, e em cima os salões de beleza. Temos a loja Cabelo & Corpo, um supermercado chamado Matchou, no Novo Aleixo, a Espaço e Negócio e temos a Constanza no Shopping Manauara, que é uma loja de sapatos e acessórios. Trabalhamos ainda na distribuição de produção de produtos importados, nacionais e produtos direcionados ao público profissional da área de salão de beleza (Senscience e Joico).

Então diversificar o negócio foi a saída para permanecer e crescer no mercado?

Sim. E sempre existe uma necessidade do empresário de tentar prever o futuro e tentar acertar a previsão. Hoje, por exemplo, estamos vivendo um momento muito complicado no Brasil e no mundo. A Presidente acabou de liberar US$ 115 bilhões para a agricultura já pensando nos problemas com fornecimento. Na quarta-feira foi outro pacote com R$ 8,4 bilhões para a compra de equipamentos pelo fato de prever os problemas da crise que a gente está sentindo muito forte.

Teremos crescimento na economia do País este ano?

Não, embora os crescimentos individuais sejam possíveis. Existia previsão do Governo Federal de que o PIB do País iria crescer 4,5%, hoje ele já fala em 2,5%. Quer dizer que pode contar que está em pouco mais de 1%. A situação na Europa está muito complicada, a China vai reduzir 2,5% no seu crescimento histórico, e isso afeta o mundo inteiro. O nosso comércio teve uma queda de 7% no primeiro semestre com relação ao ano passado e devemos ter crescimento no segundo semestre, o que é natural, mas não será maior que em igual período do ano passado.

Numa crise, quais os caminhos para o empresário?

O empresário tem sempre de buscar alternativas, ainda mais na crise, inclusive fora do eixo de atuação para que seja impactado o mínimo possível. Encontrar um novo nicho de mercado que possa crescer. Temos uma Copa na nossa cidade daqui a dois anos, então é procurar alternativas que envolvam todo o evento que vai haver, e o empresário tem capacidade disso.

Quais as prioridades para o comércio amazonense?

Hoje é a situação do Centro de Manaus. Em reunião com os empresários, eles mostraram o desespero e a necessidade de se fazer alguma coisa. Depois da cheia e da mudança no trânsito, tirando o terminal da Matriz para a Praça da Polícia, a  situação ficou muito sofrida. Tem empresas com queda no faturamento de 90%. Os hotéis não conseguem mais receber convenções porque não tem mais acesso. A área da Floriano Peixoto também está toda comprometida. Antes, as pessoas vinham ao mercado e movimentavam toda aquela área, hoje não têm acesso.

E já há alternativas?

Estamos trabalhando junto aos técnicos da Prefeitura Municipal de Manaus para que a gente tenha alternativas. Entre elas está abrir a Henrique Martins até a Lobo D'Almada, permitir que os táxis passem pela Sete, levar uma parte dos ônibus para a Ilha de Monte Cristo, lá no mercado, além de melhorar o fluxo dentro do Centro, tirando os calçadões da Guilherme Moreira, Doutor Moreira e Marcílio Dias.

Quais os planos para os próximos dois anos a frente da ACA?

É preservar o legado que a entidade está me passando. Nós criamos um planejamento estratégico com eixo em quatro pilares, que são o aumento do quadro de associados, passando de cerca de 400 para o dobro até o fim do ano; promoção de  convênios, com hotéis, restaurantes, planos de saúde e afins para prestar serviços para o associado; estarmos mais próximos das entidades do governo e dos problemas sociais inerentes às atividades do comércio e, por último, atender as demandas promovidas pelo comércio.