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Entidades se unem e pedem o fim da discriminação religiosa no AM

Em 2015, o Brasil teve aumento de 69,13% de denúncias de violação religiosa 22/01/2016 às 19:24
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Presidente da Aratrama, Alberto Jorge, durante a missa contra a intolerância religiosa, na igreja de São Sebastião, Centro, realizada em janeiro do ano passado
Marcela Moraes Manaus (AM)

O ano de 2015 registrou um aumento de 69,13% de denúncias de violação de discriminação religiosa. Os dados são da Secretaria de Direitos Humanos do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos da Presidência da República, em 2015 foram 252 o número foi maior que em 2014 onde foram registradas 149 denúncias.

Na última quinta-feira (21), foi  comemorado o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. E entre tantos representantes religiosos, apesar das diferentes crenças, rituais, cultos e ensinamentos, todos entram um consenso: para diminuir a intolerância religiosa é necessário que haja um respeito no modo de pensar um do outro. Com isso, conseqüentemente, haveria uma diminuição nos casos de denúncias.

Para Murilo Laredo, representante do Comitê Israelita do Amazonas, o judaísmo tem uma visão muito pluralista em relação à intolerância religiosa por conta do histórico do povo Judeu. “Nós sempre aprendemos a ter o respeito por outros povos. Aqui no Amazonas a comunidade sempre participa de celebrações, com as igrejas católicas, evangélicas, islâmicas. No geral acredito que todas as crenças pregam uma mensagem positiva, é como um manual que a gente pode aplicar e isso são princípios morais que você leva pra vida toda”, destacou.

Já o pastor Sadi Caldas presidente da Ordem dos Ministros Evangélicos do Amazonas (Omeam) destaca que a liberdade religiosa é uma conquista importante para todos os credos, no entanto muitos utilizam essa liberdade para ferir a liberdade de outrem.

“Não existe religião melhor nem pior, uma opção individual cada um. Todos temos liberdade até demais, por temos um País Laico, podemos cultuar ao nosso Deus de forma singular. Hoje muitos utilizam essa liberdade para ferir a liberdade de outrem. Isso acaba desvalorizando, os sistemas religiosos que na verdade não devem disseminar a discórdia, cada um deve apresentar os seus cultos aos seus Deuses. Se porventura um ou outro age de forma diferente, acredito que por falta de conhecimento da própria religião”, explicou.

União e diálogo

O Padre Charles Cunha, pároco da Arquidiocese de Manaus acredita que toda experiência autêntica leva ao diálogo, ao respeito e fraternidade. Isso leva a ver o outro como irmão e não como inimigo. “A fé une as pessoas. A nossa igreja acredita que o dialogo interreligioso promove a caridade. Todos somos diferentes, e devemos respeitar a crença do outro, podemos dar as mãos na busca de um mundo melhor”, disse.

Dentro da doutrina espírita alguns preconceitos ainda são sentidos por seus praticantes. De acordo com Rita de Cássia Castro presidente da Federação Espírita Amazonense (FEA), a intolerância existe por ignorância por falta de conhecimento aprofundado das crenças.

“O respeito pela opinião do outro deve sempre existir, mesmo que não se concorde, o respeito ajuda na de uma cultura de paz entre os povos. Porque no fim de tudo somos todos irmãos. Nós do espiritismo não queremos converter ninguém, acreditamos que as pessoas devem ser do bem independente de religião, isso é um diferencial. Um olhar diferente e agrega vários conhecimentos”, relatou.

Blog: Francinézio Amaral Sociólogo, sociólogo

A intolerância religiosa é um desdobramento de outros fenômenos sociais. Ter uma religião é uma questão muito pessoal, muito íntima e apesar de ser praticada em coletivo na grande maioria das vezes. Quando um indivíduo não consegue fazer uma distinção do que é privado e do que é o coletivo de forma clara, isso é um fator que determina a intolerância religiosa. Os indivíduos confundem o espaço privado com o espaço coletivo, sendo assim impõe as suas próprias verdades sobre as verdades do outro de tal forma que não conseguirá, portanto conviver com essa multiplicidade de verdades. A intolerância acontece especialmente nas religiões de Matriz Africana, que apesar de terem sido agregadas ao catolicismo, nunca foram compreendidas e assimiladas pela sociedade brasileira. Para se resolver ou melhorar a situação, é importante que as pessoas entendam viver suas questões coletivas e também as individuais”.

Blog: Alberto Jorge, presidente da  Aratrama, antiga Carma

 “Nós só pedimos que sejamos tratados com respeito como todo e qualquer cidadão brasileiro Algumas pessoas acreditam que nós precisamos ser exorcizados. Temos um Estado Laico na teoria, mas na prática não é real, isso se reflete em quanto o nosso povo é perseguido, somos julgados e condenados por nossas crenças. Até hoje as nossas comidas de santo como vatapá, acarajé, quindim, feijoada, cocada, abará e tantas outras comidas mais, geram riquezas para o nosso país, então que a população brasileira reflita que nós somos parte integrante dessa sociedade e nos respeitem como cidadão, nós não queremos tolerância ou intolerância, nós queremos cidadania. Que esse dia seja um momento de reflexão, principalmente para os Povos Tradicionais de Matriz Africana”.

Para denunciar

Denúncias de violações contra religiões de matriz africana, comunidades quilombolas, de terreiros e ciganas podem ser feitas pelo Disque 100, serviço do governo federal para receber denúncias de violações de direitos humanos. O Disque 100, juntamente com a Ouvidoria da Igualdade Racial, são instrumentos oferecidos pelo governo federal no combate ao racismo.

Celebração

Com base na lei 11.635 de 27 de dezembro de 2007, 21 de janeiro é comemorado o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. A data presta homenagem à mãe de santo baiana Gildásia dos Santos, que faleceu em 2000 vítima de enfarto após ver sua imagem estampada em um jornal de uma igreja evangélica, que circula em todo o Brasil, com o título “macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes”.