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Cotidiano
SAÚDE

Chega de pitacos: especialistas desvendam os principais mitos a respeito da amamentação

No mês em que acontece o movimento conhecido como “Agosto Dourado”, profissionais desmistificam conceitos e mostram a importância do cuidado com a alimentação das nutrizes 27/08/2017 às 17:51 - Atualizado em 27/08/2017 às 20:51
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A psicóloga Cristiane Lins, acima, com José Eduardo, 5, e o com João Vinícius, de pouco mais de um mês: ‘Em time que está ganhando não se mexe’ (Fotos: Evandro Seixas)
Lucy Rodrigues Manaus (AM)

“Comer feijão e chocolate dá colica no bebê”; “O consumo de bebidas alcoólicas é incompatível com a amamentação!”; “A amamentação prolongada torna a criança dependente emocionalmente da mãe”. Que mulher que amamenta não ouviu, pelo menos, um desses pitacos? Fato é que o ato de amamentar envolve uma série de dúvidas e muitos mitos. Mas uma coisa é consensual: leite materno é o melhor alimento para os bebês. No mês em que acontece o movimento conhecido como “Agosto Dourado” – cor que simboliza o padrão ouro de qualidade do leite materno e a luta pelo incentivo à amamentação – especialistas ajudam a desmistificar alguns conceitos sobre o assunto  e mostram a importância dos cuidados com a alimentação das nutrizes.

Pediatra do departamento científico de aleitamento materno da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP),  a médica amazonense Rossiclei Pinheiro explica que é comum, durante a gestação e nos primeiros dias e meses de vida do bebê, as mães escutarem muitos conselhos sobre o que podem ou não comer, que alimentos “dão cólicas” no bebê ou ajudam a produzir mais leite.

“A mãe não deve tirar os alimentos que está habituada a comer porque está amamentando. O que ela deve fazer é observar se a criança apresenta algum desconforto após mamar. Se isso acontecer, ela deve e se recordar quais foram os alimentos consumidos na última refeição e reduzir a quantidade do alimento suspeito na próxima vez. As cólicas são comuns nos primeiros meses de vida por causa da imaturidade do trato gastrointestinal do bebê”, explica.

Da mesma forma, a nutricionista pediátrica Evelyn Bliglia afirma que não há necessidade de fazer qualquer tipo de alteração alimentar em função da amamentação. “A mulher que amamenta precisa ter uma dieta saudável e equilibrada. Existem muitos mitos em relação a alimentos proibidos durante a amamentação, tais como acreditar que o chocolate e o feijão aumentam a cólica do bebê. Mas não há nenhum estudo que tenha comprovado esta relação. O que se sabe é que o consumo do café deve ser controlado, pois possui cafeína, e algumas pequenas partículas passam para o bebê através do leite. Mas observe que usei a palavra "controlado" e não proibido”, declara. 

A nutricionista reforça que não existem 'alimentos milagrosos', capazes de aumentar a produção de leite, como muitos constumam aconselhar. "O método mais eficiente para se produzir mais leite é a própria demanda da criança, ou seja, quanto mais o bebê sugar, maior será a produção de leite. Pois o corpo da mãe entenderá que precisa produzir mais porque alguém está consumindo tudo o que está 'estocado'. E para manter a 'maquina funcionando' a mãe precisa estar hidratada, ou seja, ingerir líquidos ao longo do dia. Então ela precisa criar o hábito de beber água. Qual a quantidade? Muitos são os valores encontrados na literatura mas não se tem um consenso a respeito. Dizem 2-3 litros/dia. O que se sabe é que mais importante que valores é o hábito de beber água antes de sentir sede, que é um dos sinais de desidratação. E pode-se agregar à alimentação, alimentos ricos em água, como melancia, melão, etc", indica. 

Álcool reduzido

O consumo de bebidas alcoólicas é outro ponto que gera muita polêmica mas, de acordo com Pinheiro, tanto a Academia Americana de Pediatria quanto pela SBP consideram o consumo compatível com a amamentação, mas não o recomendam. “Lembramos que o álcool pode diminuir a produção de leite e mudar cheiro e gosto, sendo motivo de recusa pelo bebê. Se for um evento muito importante, a  mãe pode sim, tomar um drinque eventualmente, desde que com alguns cuidados. O nível de álcool que chega até o leite está diretamente relacionado à quantidade ingerida, então se for muito importante um drinque, a mãe deve comer junto para diminuir a absorção do álcool. Quanto menor o volume, mais rápido será eliminado pelo organismo. Aguarde pelo menos duas horas para oferecer o peito”.

Amamentação Prolongada

Outro dado que chama a atenção, segundo a SBP, diz respeito à recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) da amamentação prolongada até os dois anos ou mais. No Brasil, apenas 26% das crianças são privilegiadas com a prática.

Mãe de Ane Cristine, 14, José Eduardo, 5 e do pequeno João Vinícius, de pouco mais de um mês, a psicóloga Cristiane Lins, 35, conseguiu prolongar a amamentação dos dois primeiros filhos até pouco mais de 3 anos. Com o terceiro ela acredita que não será diferente. “Acho que em time que está ganhando não se mexe. Fiquei até dois anos integralmente com eles. Antes de engravidar, faço um planejamento, por isso a diferença tão grande de idade de um para o outro. Da primeira para o segundo são nove anos de diferença e do José para o João, cinco. Fico dois anos juntando dinheiro para engravidar. Não é fácil abrir mão da minha profissão, pois trabalho há 22 anos. Entre as vantagens, cito o afeto, a intimidade, a cumplicidade, a obediência, fora que eles são auto-confiantes e têm uma imunidade muito forte”, conta.

O apoio da família, em especial do marido, o consultor de vendas Bruno Gouveia, 31, faz toda a diferença. “Essa parceria é fundamental. Ele tirou um mês de férias do trabalho para ficar exclusivamente com a gente nesse início e participa de tudo”.

De acordo com a pediatra Rossiclei Pinheiro, uma das crenças mais danosas é a de que a amamentação prolongada faz mal à criança e à mãe sob o ponto de vista psicológico, o que deixaria a criança muito dependente. “Essa crença é tida como verdade, inclusive por muitos profissionais de saúde, muito embora não tenha fundamento científico algum. O oposto parece ser verdadeiro. Crianças com vínculo seguro tendem a ser mais independentes, a ter mais facilidade para se separar de suas mães e a entrar em novas relações com mais segurança e estabilidade, e são, na realidade, mais fáceis de ser disciplinadas”.

Amamentação e medicamentos

 Um outro fator que chama a atenção e gera muita ansiedade nas mães é o uso de medicamentos durante a amamentação. Pesquisas em muitos países sugerem que o uso de medicamentos é uma das principais razões pelas quais as mulheres interrompem a amamentação prematuramente.  “A maioria dos medicamentos para dor, anti-inflamatórios e antibióticos podem ser usados com segurança por mães que estão a amamentando sem riscos.  Existe um aplicativo LactMed, que pode ser baixado nos celulares e a mãe pode checar estas informações”, frisa Rossiclei Pinheiro.

Perfis

 Rossiclei Pinheiro -Especialista em Pediatria e Neonatologia pela Sociedade Brasileira de Pediatria e Associação Médica Brasileira (SBP/ AMB); doutora em Pediatria pela Unesp/Botucatu; professora de Saúde da Criança da Faculdade de Medicina UFAM; Pediatra do departamento científico de aleitamento materno SBP. Mãe de dois, o que considera seu maior título. Instagram @dicasdepediatria

Evelyn Alves Briglia -  Nutricionista pediátrica, mestre em Ciências Aplicadas à Pediatria (Universidade Federal de São Paulo). 

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