Publicidade
Cotidiano
ENTREVISTA

'Existem vários feminismos', diz pesquisadora sobre empoderamento das mulheres

Pós-Doutora em Ciências Sociais e Antropologia, a professora da Ufam, Iraildes Caldas comenta, em entrevista para A CRÍTICA, a luta pelo empoderamento feminino e critica declarações como as emitidas pelo presidente Michel Temer 12/03/2017 às 05:00
Show prof
Professora fala sobre a luta da mulher amazônica diante de um cenário dominado por homens (Foto: Aguilar Abecassis)
Oswaldo Neto Manaus (AM)

O que é o empoderamento feminino?

O conceito de empoderamento não é tão novo. Ele nasce nos Estados Unidos em 1970 e desde aí os movimentos feministas do mundo inteiro, e especialmente os da América Latina, tomam este conceito como algo possa se falar em emancipação e desenvolvimento das mulheres. Eu particularmente acho que é desenvolvimento social das mulheres e não tanto emancipação. O empoderamento no campo do feminismo ou dos feminismos de gênero está voltado para dar visibilização a mulher, que durante muito tempo esteve invisibilizada pela ciência. Ela não tinha voz. Hoje é um sujeito de voz e sujeito de decisão. Hoje ela está nas instituições. Ela tem uma visibilidade bem maior que, por exemplo, há três décadas. Ela vai se constituir como uma força de trabalho dentro da divisão social, muito embora o patriarcado seja um conceito que vá acompanhar essa mulher. A educação é um forte elemento. Essas mulheres podem se sentir mais livres, menos oprimidas, sair do espaço privado, da invisibilidade, pela perspectiva da educação. Paulo Freire já nos dizia que a educação é que liberta, e realmente é. Tanto liberta essa mulher para se conceber no seu modo de ser e estar no mundo como para saber quem é ela. Hoje nós temos mulheres nas reitorias, tivemos uma mulher presidenta da República. Acho que outro empoderamento que está colado com esses do espaço de poder é o político participativo. As mulheres estão muito mais dentro dos movimentos sociais, compõem redes de movimentos sociais muito grandes. Não existe mais um feminismo, existem vários feminismos. Elas não são mais aquele tipo tradicional vinculado a um partido político. Elas vão se fazendo normalmente nesse circuito de movimento de uma forma livre, de uma forma liberta.

Quais tipos de feminismos podemos encontrar na sociedade?

Nós temos feminismos de várias ordens, inclusive aqueles a favor do aborto. Por exemplo, nós temos freiras católicas que compõem um grupo de feministas, que lutam pela liberdade de ter filho ou não. Tem hoje grupos de moças evangélicas que decidiram não fazer sexo antes do casamento. Outro tipo de feminismo é a defesa da educação pras meninas. O feminismo não é exatamente um movimento organizado, mas ele é essa coisa que eclode e se manifesta. A internet e as redes sociais ajudam muito pra que aconteça essa proliferação da manifestação em favor de gênero.

Como a senhora avalia o posicionamento do presidente Temer que delimita o papel das mulheres aos afazeres domésticos?

É uma pena. Há um retrocesso de mais de 40 anos nessa frase. Quando ele louva ou eleva o doméstico, é muito simbólico isso pras mulheres, porque remete para uma subordinação das mulheres na esfera privada, que é o doméstico. Quando ele diz “elas estão bem na casa”, ou que “elas fazem bem as coisas da casa”, ele está confinando as mulheres e dizendo pra elas que o lugar delas é na casa, que é o lugar da invisibilidade, que é o não-lugar. Foi muito infeliz a frase dele e denota uma ignorância total das relações de gênero. É uma pena o presidente do País ser desprovido de conceitos básicos.

Até que ponto a fala de Temer é um reflexo do que a sociedade pensa?

A sociedade brasileira é muito patriarcal. O patriarcado é aquele sistema de ideias que dá proeminência ao homem. O homem assume como dono da mulher e dominador de tudo e de todos. É bem verdade que há uma parcela grande da sociedade brasileira que vê a mulher assim. Nós temos como exemplos as piadas machistas contra as mulheres. Quando um homem fala bem das mulheres é porque está dando concessão pra ela. Sempre há uma depreciação, porque isso é cultural dentro da sociedade.

Muitas vezes, até as próprias mulheres têm posicionamentos nesse sentido.

Um dos piores machismos é o machismo de mulher, porque ela incorpora essa inferioridade da mulher, essa coisa da submissão, e depois ela se torna um homem ou macho às avessas. Ela assume a defesa do homem... Ao invés do homem fazer o machismo, ela própria faz. Isso a gente vê constantemente. E não podemos nos esquecer das mães. São as mães que passam a cultura nas primeiras fases da vida da criança.

Nas fábricas do PIM, menos de 28% da mão de obra é feminina. Essa proporção não seria muito baixa?

É muito baixa. Eu fiz uma pesquisa de doutorado no final dos anos 90 e levantei dados que o Distrito Industrial teve mais de 600 fábricas, e dessas 600 a mão de obra feminina era a mais elevada. Tinha fábricas como a CCE que tinha entre 6 mil e 7 mil mulheres. Depois dela vinha a Sharp, em seguida Philips, então hoje 28% é uma inflexão enorme. Isso significa dizer que houve muita desarticulação de postos de trabalho, muitas fábricas fecharam porque o Distrito é talhado porque é de peças semi elaboradas, só pra fazer montagem. A mulher que tem mais atenção, no sentido de visualização ela percebe mais que o homem. É mais perfeccionista para pegar aquelas pecinhas com pinça. Uma série de elementos que envolvem uma mística feminina voltado para esse tipo de indústria.

Quais seriam as causas dessa queda?

Em primeiro lugar as transformações que ocorreram no mundo do trabalho desde o consenso de Washington de 1989, quando se decide pelo enxugamento da máquina, tanto a máquina pública quanto industrial, e o sistema capitalista teve que se redefinir nos seus métodos. Na redefinição ele introduz novas tecnologias que desarticulam postos de trabalho. Então quando ela precisar de uma mão de obra, ela vai precisar de uma mão de obra muito qualificada, e é aí que os trabalhadores não atendem mais. O Brasil não preparou os trabalhadores para a crise. A qualificação profissional não é só a educação formal, de ter o ensino médio, curso superior... A qualificação quer dizer que ele tem que ter algumas habilidades que saiba fazer alguma coisa.

A senhora enxerga machismo nesse número tão discrepante entre homens e mulheres no PIM?

O machismo está impregnado quando essas mulheres não estudaram ou não tiveram condições. O capital contribuiu pra elas no sentido de dizer “não precisa estudar”, porque são “aptas”. Isso é um dos piores machismos, um patriarcado. Porque aí você não está preparando a mulher para a história, você está usando uma força de trabalho que quando você não quiser mais você descarta.

O que a senhora elegeria como principal desafio das mulheres do Amazonas em relação ao trabalho?

Sempre acho que o caminho é a educação. Firmar a sua liberdade a partir da educação e seguir em frente a vida. Não só esse empoderamento da rua, fazer militância, elas têm que cuidar da vida, prestar atenção naquilo que faz o desenvolvimento delas.

Como a senhora avalia o ativismo feminino aqui?

Aqui é muito forte. Temos um Fórum de Mulheres que tem mais de 50 entidades inscritas. O Amazonas está muito bem servido de organização de mulheres. Não posso falar muito do interior, porque conheço alguns, agora Manaus está muito bem provida. O movimento social mais organizado da capital é das mulheres e em segundo o de moradia.

A senhora tem pesquisas onde estuda as mulheres da tribo Sateré-Mawé. Quais características dessas indígenas?

Essas mulheres são tímidas, caladas. A gente descobriu nessas pesquisas em Andirá e Barreirinha que há um feminino, e não feminismo, mas um feminino mítico, que vem desde a matriz mítica do povo Sateré. Essas mulheres são empoderadas por dentro do mito, e o mito numa comunidade indígena é respeitado. Então elas não aparecem como tuchauas, como xamãs, mas aparecem por dentro da cultura. Elas são aquelas que ralam o guaraná e fazem uma bebida. Esse guaraná advém de uma matriz mítica, é um deus pra eles e vai ser o centro da etnia. Esse guaraná ilumina a palavra, que faz com que eles façam acordos e a política aconteça, só que ele não pode ser feito pela mão dos homens, e sim das mulheres. A mulher aparece como centro. Se não tem essa bebida que só a mulher pode fazer, não tem nada. Não podemos dizer que essa mulher não é importante.

Quais suas expectativas pro futuro em relação ao avanço no empoderamento feminino?

É difícil falar. Tem horas que o patriarcado se eleva, outras ele baixa, e outras fica querendo equiparar na sociedade. Tem horas também que ele dispara. Essa do Temer (declaração) foi de disparar. O impeachment da Dilma foi uma baixa muito grande. A gente vê que há um machismo por dentro dessas coisas, mas nós temos esperança de dias melhores. A nossa busca pela equiparação salarial, equidade de gênero no mundo do trabalho é uma busca constante. Agora, igualdade mesmo... Podemos ter esperança, mas não vejo um horizonte muito próximo de igualdade de gênero, mas a busca tem que continuar.