Publicidade
Cotidiano
Notícias

Fenômeno da cheia traz junto comportamento atípico no regime das águas no Amazonas

Água no baixo Amazonas, historicamente aumenta quando as do Juruá e Solimões secam, mas, este ano não está sendo assim 15/05/2012 às 21:10
Show 1
Subida das águas já chegou em Barreirinha
Jonas Santos Parintins

O ciclo normal da cheia dos rios já mostrou que quando a águas começam a baixar  nas calhas do Juruá e Solimões, por exemplo, e a partir daí que começa a encher a bacias hidrográfica do Baixo Amazonas e regiões próximas. Porém, a enchente de 2012 revela um fenômeno atípico. Na Região que compreende Parintins, Barreirinha, Nhamundá e Boa Vista do Ramos a subida do rio chegou à igual período e proporção que a enchente que assola também a cidade de Benjamim Constant, no extremo leste do Estado, em nível de comparação.

O ritmo do Rio Amazonas subiu tanto que, o que estava previsto para encher até meado de junho quando a água começa estabilizar, deverá alcançar esta marca antes mesmo do final deste mês o pico máximo que suportou em 2009.  No Baixo Amazonas a situação mais crítica é registrada no Município de Barreirinha. Praticamente 90% da cidade já está debaixo d`água. Além das casas dos moradores as águas dos rios Andirá e Paraná do Ramos alagaram os prédios do Fórum de Justiça, Câmara Municipal, Prefeitura, a delegacia de polícia, o mercado municipal, lojas comerciais,  o cemitério e o hospital da cidade. A escola estadual senador João Bosco que deveria ser inaugurada pelo Governo do Estado, no mês de abril, também está no fundo.

A fúria dos rios já ameaça até mesmo a avenida Militão Dutra, na frente da cidade onde está localizada a igreja Nossa Senhora do Bom Socorro, padroeira de Barreirinha. Na grande cheia de 2009, foi à única rua que resistiu a subida das águas. Mas agora os barcos e voadeiras ancoram na praça e a elevação do rio é o mesmo do nível da rua. A previsão do coordenador da defesa Civil Municipal, Charles Duarte, é que até o final de maio a água tome conta da orla.

Para todos os lados da cidade  o que se vê são pontes de madeira, casas submersas e muita gente se mudando. “Nos preparamos para a cheia, apesar de nunca estarmos preparados. Construímos pontes em 80% das ruas, doamos madeiras para marombas, alojamos as famílias e demos apoio para aquelas que abandonaram suas casas colocando barcos a disposição”, disse prefeito o Mecias Batista, da etnia sateré-maué. As famílias que deixaram Barreirinha para trás se transferiram para Parintins e Boa Vista do Ramos.

Com o 38º. Distrito Policial inundado os 13 presos foram transferidos para o prédio do Programa de  Erradicação do Trabalho Infantil( PETI). Os bandidos considerados perigosos foram recambiados para Manaus. Não há segurança na delegacia improvisada. As sessões da Câmara agora estão funcionando no auditório da escola Maria Belém. A cidade praticamente está se alojando no Santa Luzia, o único bairro que ainda não foi completamente tomado pela enchente. O juiz da Comarca, André Luiz Campos, suspendeu todas as audiências marcadas para este período da cheia. Além do Fórum a cada dele também alagou.

 “ Os processos levamos para esta casa, onde estamos funcionando provisoriamente e tivemos que fazer maromba no Fórum para suspender os
arquivos”, disse a tabeliã Valdea Costa. O hospital Coriolano Lindoso, de 34 leitos, situado no bairro São Judas Tadeu, deverá suspender as atividades nos próximos dias. O prefeito solicitou um hospital flutuante da Marinha para atender os pacientes. “Se o hospital for interditado esperamos a Marinha atende esse nosso pedido”, acentuou Mecias.

Dois dos quatro bombeamentos de águas do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) estão comprometidos.  As aulas das redes estadual e municipal  estão suspensas há um mês. Todas as comunidades de várzea inundaram. Em vez de carro a coleta do lixo na cidade agora é feita em botes. Amanhã a Prefeitura começará a distribuir cestas básicas enviadas pelo Governo do Estado.

PARINTINS
Com mais de 12 bairros submersos a preocupação das autoridades em Parintins agora também é com relação o transito da Ilha Tupinambarana.
É que somente três ruas ligam a metade da cidade ao centro e todas elas estão sendo atingidas pelos lagos e o rio Amazonas. A rua Paraiba, que compreende a região de acesso ao Itauna está inundada e já não passa mais carro; a ponte Amazonino Mendes, próximo ao galpão do Caprichoso, que é a porta principal para o bairro Paulo Correa e a ponte da Cidade Garantido  de acesso ao aeroporto começam a ser atingidas. Nesta parte da cidade que corre o risco de ficar isolada estão localizadas ainda as universidades, o Forum de Justiça e a delegacia de polícia. Em Parintins, Mais de 3 mil famílias sofrem com a subida do rio.

Ontem, o prefeito em Exercício, Messias Cursino, visitou as áreas afetadas e anunciou novas ações, entre as quais o aterro de ruas, como por exemplo, na extensão da ponte do Paulo Corrêa. “ Está faltando madeira em Parintins e uma restrição do Ibama  prejudica ainda mais as empresas madeireiras em fornecer as encomendas’, disse Messias. Nas ruas da orla, como a área do Comunas, que também apresentam rachaduras, por causa da erosão  do rio estão com o trânsito interditado para carros.

Hoje o comitê gestor criado pelo município para atender as famílias reúne para definir as ações de entregar de 1,2 mil cestas básicas encaminhadas pelo Governo do Estado.

NHAMUNDÁ
Aproximadamente 70% da população do Município de Nhamundá reside na zona rural. E lá que a maioria das famílias sofre com a enchente do Rio Nhamundá. A sede possui somente quatro bairros, incluindo o Centro, que também foi atingido. O anfiteatro municipal, o principal centro cultural da cidade, às margens da praia da Liberdade,  foi completamente alagado. A população de Nhamundá é de 18 mil habitantes,
segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (Ibge).

O coordenador da Defesa Civil, Jorge Ivan, informou que na sede urbana 1,8 mil famílias foram atingidas pela enchente. “Nhamundá é uma Ilha e são poucos bairros, a maioria da população mora na zona rural. Estamos construindo pontes nas áreas mais afetadas e agora estamos distribuindo cestas básicas que foram enviadas pela Defesa Civil Estadual”, disse o coordenador. Uma equipe da Prefeitura seguiu ontem para a zona rural para distribuir os mantimentos. Somente na zona rural são mais de 6 mil pessoas que padecem com a subida do rio.

“A situação nas comunidades está muito ruim, a cheia que deverá ser a maior já atinge até mesmo comunidades de terra firme aqui em Nhamundá”, afirmou Jorge.   O Governo do Estado envio a remessa de 700 cestas básicas para Nhamundá.

BOA VISTA
Em Boa Vista do Ramos a ajuda humanitária do Governo do Estado ainda não chegou. Lá a enchente do Paraná do Ramos também  é rigorosa na zona rural, onde 90% das comunidades foram afetadas.

“Nossa previsão é de que na semana que vem recebamos as cestas básicas, porque existe uma escala de prioridades. Sabemos que a situação mais crítica aqui na  região é de Barreirinha”, afirmou o coordenador técnico da Defesa Civil Municipal de BVR, Adriano Souza. O prefeito Marlon Trindade decretou situação de emergência no município no dia 03 de maio que passou. Em Boa Vista mais de 700 famílias da cidade foram cadastradas. “ A população tem um rito anual e quando chega a cheia se mudam para as áreas de terra firme”, afirmou Adriano.

CPRM

O superintendente do Serviço Geológico do Brasil(CPRM), Marco Antônio Oliveira, disse que é possível que o Rio Amazonas esteja sofrendo influência do Rio Tapajós, do Estado do Pará, entre Santarém e Óbidos, cidades que também pertencem a Região do Baixo Amazonas.

“É possível que esse rio esteja represando o Amazonas. O Tapajós também teve uma grande cheia. Por causa do represamento dos Rio Negros e Solimões, Manaus, Itacoatiara e Manacapuru também foram afetadas.  A cheia veio antecipada por causa das chuvas que caíram antes do previsto”, afirmou o superintendente, que apesar desse fator considera a enchente no Baixo Amazonas normal. Marco Antônio avalia que os rios devem começar a baixar no final do mês de maio ou começo de junho. “Lá em Tabatinga e no Perú os rios já começaram a baixar e esperamos que aqui também baixe”, acentuou.