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‘Há uma nova zona cocaleira na fronteira’, diz ex-superintendente da Polícia Federal no AM

Há mais de três décadas, Mauro Spósito acompanha o crescimento do tráfico de drogas no Estado, principalmente o da cocaína pura, exportado pelos países vizinhos 26/04/2015 às 15:44
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"Essa região da Amazônia sempre foi uma 'porta de entrada'. Só que, ao longo dos últimos dez anos, tivemos uma mudança significativa nesse cenário", explica Spósito
Joana Queiroz Manaus (AM)

O avanço do narcotráfico na fronteira do Amazonas com a Colômbia e o Peru vem ganhando dimensões preocupantes  e  tem levando as autoridades, principalmente as da área de segurança  pública, a discutirem soluções para conter o avanço do tráfico na região, assim como sua “rede de consequências”, que vão de crimes de homicídio, roubo e sequestro a evasão de divisas e ainda lavagem de dinheiro.

Com  mais de 30 anos de experiência trabalhando em ações policiais para reprimir a ação de traficantes e a entrada de drogas em território brasileiro, o ex-superintendente da Polícia Federal no Amazonas Mauro Spósito revela que uma grande ação conjunta deve ser realizada este ano com um objetivo, no mínimo, ousado.

Ele pretende reprimir em 80% a entrada de drogas no Amazonas pela tríplice fronteira – Brasil, Peru e Colômbia. Nesta entrevista, Espósito fala sobre o avanço do tráfico no Amazonas, relata ações das quais participou e relembra narcotraficantes que prendeu  ao longo das três últimas décadas.


O que mudou  nas ações de combate e repressão às organizações criminosas ligadas ao tráfico nos últimos 30 anos?

Essa região da Amazônia sempre foi uma “porta de entrada”, no Brasil, da cocaína produzida na Colômbia e no Peru. A fonte de ingresso sempre foi a tríplice fronteira. Só que, ao longo dos últimos dez anos, tivemos uma mudança significativa nesse cenário.  Até o ano de 2005, tínhamos a certeza de que a cocaína só era produzida na  banda oriental da Cordilheira dos Andes, em um processo em que as folhas eram secadas e transformada em cloridrato de cocaína. E, só depois desse processo, a droga era transportada. De 2005 para cá começamos a notar que os narcotraficantes começaram a plantar  coca em áreas de selva úmida. Descobrimos que haviam descoberto uma nova tecnologia para a extração do alcalóide da folha de coca verde.  A realidade que temos hoje é que, na margem esquerda do rio Javari, no Peru, foi instalada uma nova zona cocaleira, que não existia há dez anos. A produção está a cada ano mais perto do mercado consumidor brasileiro.


Quais são as implicações que essa nova forma de  produção trouxeram para a segurança na área de fronteira?

O  campesino, que era quem  cultivava a coca e vendia a folha para os laboratórios de refino, deixou de ser o mero cultivador e  passou a ser o narcotraficante. Ele planta, processa e vende a droga. As plantações, que no passado eram concentradas na região do alto Tupumayo e no Alfayaga, distantes mais de 400 quilômetros das nossas fronteiras, hoje  estão a pouco mais de 30 metros do Brasil, na margem do rio Javari. Há cultivo tanto na Colômbia como no Peru.


Quantas toneladas de cocaína entram no Brasil pela nossa fronteira?

A avaliação que eu tenho é que  mais de 300 toneladas de cocaína entram no Brasil por ano, a maior parte por aqui. Para produzir a cocaína, eles usam gasolina, cimento e ácido sulfúrico, e esse material eles compram lá por um preço bem inferior ao que é comercializado aqui.


Da quantidade que entra no País, quanto fica em Manaus?

Não posso dizer. O que eu posso dizer é que, pelos nossos cálculos, o que temos é uma situação totalmente esdrúxula aqui no Amazonas, com uma evasão de divisas anual de  U$ 300 milhões. Isso implica que nós colocamos esses U$ 300 milhões para comprar a droga  e, quando ela ingressa em território amazônico, ela fornece  ao mercado de U$ 1,2 bilhões  de economia subterrânea, porque não é taxada. O que  eu posso dizer é que nós temos um consumo absurdo de pasta base de cocaína. 


Quais os caminhos que a droga segue no Amazonas?

Só temos um caminho: os rios. O transporte por aeronave implica em abastecimento e nós controlamos o abastecimento de aeronave há muito tempo. Portanto, a grande estrada é o rio. O Solimões é o principal.


A que o senhor atribui essas grandes apreensões de droga que vêm acontecendo nos últimos meses?

Posso dizer que pode ser a chegada do Sérgio Fontes na Secretaria de Segurança (ex-superintendente da Polícia Federal, Sérgio Fontes assumiu a SSP-AM no início desde ano). Ele é um especialista nessa área, teve a vida profissional toda voltada para isso. As grandes apreensões podem trazer consequências. Eu tenho um posicionamento muito claro. No crime não existe hierarquia, quem tem hierarquia é quem tem dinheiro e quem tem dinheiro contrata pistoleiro.


Além da cocaína, a polícia tem apreendido nos últimos meses grandes quantidades de skunk. Quem está produzindo essa maconha?

É uma maconha praticamente hidropônica  e, pela facilidade de cultivo, está em declínio e precisa de um grande volume para abastecer os fornecedores. Um exemplo, um quilo de maconha custa R$ 1 mil na Colômbia, mas um quilo de maconha no Paraguai custa U$ 30. A Colômbia sempre foi produtora da maconha, eles aproveitaram os caminhos do tráfico da maconha para traficar cocaína, que é bem mais rentável. No ano passado apreendemos, no Mato Grosso, uma carreta com 14 toneladas de maconha  produzida no Paraguai.


A Polícia já identificou os grandes traficantes que atuam no Amazonas?

Nós temos centenas de traficante. Eles atuam da forma mais simples que você  possa pensar. Eles têm representantes junto à fronteira do Brasil com Peru e Colômbia, que intermediam a compra da droga e a trazem para Manaus. Alguns grupos têm ponto de distribuição em Manaus e até em outros Estados.  Não precisa de muita coisa. Só de dinheiro. O que faz o crime é o dinheiro. Tendo dinheiro ele contrata o pistoleiro, que é quem garante a segurança. No crime não existe cartório de protesto. As dívidas do narcotráfico são pagas com a vida.


Ao longo desses 30 anos de atuação na repressão ao narcotráfico no Amazonas, quais os principais nomes que passaram pela prisão?

Foram centenas de nomes, não dá para destacar um ou outro. Foram muitos, mas lembro do Leonardo  Dias Mendonça, do Antonio Mota Graça, o “Curica”,  que está foragido. São de famílias que se envolveram  com o crime. Javier Ardela Michue o “Javier”, era o grande fornecedor desses que hoje dizem ser membros da Família do Norte “FDN”, como José Roberto Fernandes, Ronairon, Gelson Carnaúba e João Branco.


O que pode ser feito para reprimir a ação dos narcotraficantes aqui?

Enquanto nós não cortarmos a linha de suprimento nós vamos ter problema. A única forma que existe é  cortar essa linha de suprimento direto em território brasileiro. Não tem outra forma.  Toda guerra se ganha assim. Enquanto o inimigo tiver suprimento ele tem munição para dar tiro. Traficante perde 200 quilos de droga, mas ainda tem dinheiro para recuperar o prejuízo que teve. Ações pontuais são boas, mas enquanto não se adotarem ações permanentes de repressão, não vamos conseguir nada.


O que o senhor chama de ações permanentes?

São ações para impedir a entrada das drogas em território brasileiro. Nos próximos dois meses, por exemplo, estaremos montando um trabalho  que tem 11 instituições envolvidas  e em que, 24  horas por dia e 365 dias por ano, serão fiscalizadas todas as embarcações que adentram o rio Solimões, uma média de 150 por dia. É disso que estou falando.


Perfil

Nome: Mauro Spósito
Idade: 64 anos
Estudos: Formado em Direito e especializado em Sociologia Criminal pela Faculdade de Guarulhos
Experiência: Delegado de Polícia Federal,  ex-superintendente da PF no Amazonas (1993-2000).