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Cotidiano
SUPERAÇÃO

‘Novos amazonenses’: imigrantes tentam a vida no AM após deixarem país de origem

Haitianos, venezuelanos e peruanos estão entre os mais de 2,3 mil imigrantes que encontraram no Estado uma oportunidade de recomeçar a vida 12/11/2017 às 11:55 - Atualizado em 12/11/2017 às 14:30
Show imigrante
Kesly veio do Haiti após o terremoto e, depois, trouxe mulher e o filho (Foto: Márcio Silva)
Silane Souza Manaus (AM)

A rotina começa cedo da manhã com o pai e a mãe se preparando para ir trabalhar e o filho para ir à escola. À primeira vista a cena em questão parece ser de uma autêntica família amazonense, acostumada com o dia a dia na capital, mas trata-se de uma família haitiana que viu, em Manaus, a chance de recomeçar. E não estava errada. Foi na cidade que o casal Kesly Cadet, 38, Rose Mezana, 32, com o filho Berwends, 12, teve a oportunidade de ter realmente uma nova vida.

Kesly chegou a Manaus, em 2011, um ano após um terremoto de 7 graus na escala Richter devastar o Haiti. Ele veio sozinho em busca de melhorias e com a esperança de conseguir juntar dinheiro para mandar buscar a família que havia ficado na cidade de Pilate. Três anos depois ele conseguiu realizar o sonho. Essa para o haitiano foi a melhor conquista que obteve nesse período em que vive na capital. “Queria a minha família perto de mim. Tinha saudades deles”, afirmou.


Berwends como intérprete de amigos (Foto: Euzivaldo Queiroz)

E havia mais um motivo especial para Kesly querer a esposa ao seu lado em um novo país. Ela nasceu de novo ao escapar com vida do terremoto do dia 12 de janeiro de 2010. Segundo ele, Rose estava em um prédio de três andares na capital Porto Príncipe que desabou quando aconteceu o sismo. “Ela ficou embaixo dos escombros e foi resgatada três dias depois. Eu soube que ela estava viva no quarto dia, mas só acreditei quando consegui falar com ela, no sexto dia”, contou.

O haitiano se diz agradecido por todas as oportunidades que teve em Manaus. Conforme ele, não enfrentou muitas dificuldades para se estabelecer no novo lar. “Fui muito bem recebido. Fiz vários cursos profissionalizantes e depois de dois meses aqui consegui um emprego. Em três anos juntei o dinheiro para trazer minha família e quando minha esposa chegou meu patrão lhe deu um emprego, meu filho foi para a escola, hoje estamos esperando nosso segundo filho”, revelou.

Berwends, filho de Kesly e Rose, no começo achou difícil se adaptar a nova cidade por causa do idioma. Mas não demorou muito para que o menino aprendesse a falar português e se destacasse na escola da rede municipal onde estuda. Ele, inclusive, atua como intérprete na instituição de ensino. “Quando a diretora precisar conversar com os haitianos que não sabem falar português eu sou chamado para traduzir o que ela fala para eles e o que eles falam para ela. É muito bom poder ajudar minha escola”, afirmou.


Ketia e as filhas (Foto: Euzivaldo Queiroz)

A atendente Ketia Fontaine, 28, veio com as três filhas para Manaus no ano passado quando o esposo, que está na cidade desde 2014, pediu que toda a família viesse para a cidade uma vez que na Venezuela a situação estava cada vez pior. Quando chegou, ela foi vender verduras no Centro para ajudar nas despesas. Passou seis meses nessa situação, depois conseguiu um emprego numa padaria e a sua vida mudou. “Foi muito bom porque trabalhar com verduras é muito difícil”, comentou.

A família de Ketia, assim como o esposo Reny Pierre, é haitiana, mas mora na Venezuela há mais de 30 anos. Ela disse que tem vontade de voltar um dia para aquele país, mas não sabe se isso vai acontecer. Enquanto isso, a preocupação dela é com a educação das filhas que estudam numa escola da rede pública municipal de ensino. Mileidys, 9, e Katerine, 7, chegaram à escola falando português e dizem que não tem dificuldades de acompanhar os alunos locais.

Atualmente, de acordo com a Secretaria Municipal de Educação (Semed), a rede atende 372 alunos estrangeiros, de 18 nacionalidades, sendo os três maiores quantitativos do Haiti (129), Venezuela (117) e Peru (53). O ingresso de alunos estrangeiros nas unidades da rede municipal de ensino acontece da mesma forma que é feita com os alunos brasileiros, no período de matrículas, de acordo com o calendário anual. 


Mileidys em intervalo de aula (Foto: Euzivaldo Queiroz)

Graduado e empreendedor

O haitiano Banel Oreus, 34, veio para o Brasil a convite de uma namorada que havia viajado antes dele. Instalou-se primeiro em Santa Catarina, mas depois de um mês veio para o Amazonas. “Não conseguia lugar para aprender a falar português e me falaram da congregação em Manaus que ajudava os refugiados e vim para cá”, contou. Chegando à cidade ele fez curso de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira para Imigrantes e Refugiados, conseguiu um emprego numa fábrica do Polo Industrial de Manaus (PIM) e, no ano passado, com o apoio da paróquia, conquistou uma bolsa pelo Programa Universidade para Todos (Prouni). “Queria muito continuar meus estudos”, revelou.

Oreus é formado em Contabilidade, agora está cursando Tecnologia em Logística e ano que vem conclui o curso. E não deve parar por aí, ainda mais porque virou um empreendedor. Ele é dono de um lanche numa balsa do porto da Manaus Moderna, Zona Sul. “Trabalhei três anos numa empresa e quando fui demitido peguei o dinheiro e investi. Foi mais uma oportunidade para construir uma vida. O que consegui aqui no Haiti não teria conseguido”, afirmou.

Para ele, as dificuldades sempre vão existir, sempre haverá pessoas que não gostam de ter um imigrante estrangeiro ou refugiado “tomando seu emprego”. Mas ele aprendeu a conviver com isso. “Aprendi a ter inteligência emocional, quando falam algo ruim, mesmo que machuque, finjo que não ouvi, não respondo e nem reajo. Não adianta nada. Fui chamado de macaco, na fábrica me chamaram de burro, na faculdade também. Mas é a minoria. No geral, gostei muito da hospitalidade”.


Oreus em ponto de venda na Manaus Moderna (Foto: Winnetou Almeida)

De picolezeiro a Uber

De vendedor de picolé no Centro a motorista da Uber. É a história do venezuelano Yanhec Silva, 29, que está em Manaus há um ano e quatro meses. Ele também é professor de espanhol numa escola de idiomas e garçom no restaurante na Zona Centro-Sul. “Quando cheguei, no começo foi difícil, mas quatro meses depois minha vida mudou e para melhor. Aqui tem muitas possibilidades para trabalhar”, afirma.

Ele diz que não enfrentou muitas dificuldades para se estabelecer em Manaus. Quando decidiu trabalhar na Uber conseguiu rápido validar a carteira de habilitação para poder dirigir na cidade. A única coisa que não conseguiu até agora foi convalidar os diplomas. O sonho é voltar a dar aulas de Geografia e História, mas, desta vez, numa universidade brasileira e pretende fazer mestrado ou doutorado para alcançara meta.


No tempo livre, Yanhec trabalha como Uber (Foto: Winnetou Almeida)

Emprego de cabeleireiro

O também venezuelano Hector Granadillo, 29, é outro que mudou de vida para melhor em Manaus. Ele está na cidade desde maio de 2016, veio a convite do irmão que é médico num programa do governo federal. Logo que chegou, ele conseguiu um emprego de cabeleireiro num dos salões do grupo Amanda Beauty e fez vários cursos pela empresa, inclusive em Buenos Aires (Argentina), Rio de Janeiro e São Paulo.

Hector é formado em Administração, a experiência na área de cabelos foi adquirida há alguns anos quando trabalhava nesse ramo para pagar a faculdade. Hoje, ele tem carro próprio e, junto com o irmão, conseguiu comprar um carro e uma casa para os pais que estão na Venezuela. O sonho é montar um salão e poder ajudar outros venezuelanos. “Tem muitos que ficam no sinal e passam fome. Nem todos têm a sorte que eu tive”.


Hector trabalha no Espaço Amanda (Foto: Euzivaldo Queiroz)

Oportunidade de emprego

Há mais de duas décadas, a peruana Rocio Del Carmen, 50, passou por várias situações parecidas com as vivenciadas hoje em dia pelos imigrantes estrangeiros e refugiados. Ela veio para Manaus após um governo ditatorial ser instaurado no Peru. “O país estava passando por uma problemática muito grande com a crise econômica e a ditadura. Então vim em busca de oportunidade de emprego e estudo no Amazonas”.

Rocio veio como turista, tinha três meses para permanecer em Manaus, mas conseguiu ampliar esse prazo para seis. Nesse período, ela foi à Universidade Federal do Amazonas (Ufam) saber se havia oportunidade de estudo. Quando soube que a instituição a aceitaria como aluna especial, se apresentasse toda a documentação, ela voltou ao Peru para pegar os documentos e retornou a capital, onde está até hoje.

Primeiro ela fez uma pós-graduação em Educação, depois uma especialização em Literatura, em seguida, mestrado em Educação. Contudo, foi um começo muito difícil porque ela não tinha autorização para trabalhar. “Naquela época, não era assim tão fácil para o estrangeiro. Como estudante eu não podia trabalhar, mas mesmo assim eu trabalhava porque minha família não conseguia mandar dinheiro”, conta.


Rocio é professora coordenadora do Curso de Letras da Ufam (Foto: Márcio Silva)

Apenas no mestrado que Rocio conseguiu uma bolsa e, quando terminou, conseguiu emprego numa universidade particular. Mas só pode permanecer no Brasil por um “golpe de sorte”. “No ano que terminava meu visto de estudante o então presidente Fernando Henrique Cardoso abriu anistia para as pessoas que não tinha documento e eu aproveitei essa anistia. Foi muita sorte, porque não podia ter ficado no país”.

Em 2015, ela fez o concurso federal e passou. Desde então é professora da Ufam e hoje coordena o Curso de Letras – Língua e Literatura Espanhola da Universidade. “Nesses 23 anos, a minha maior conquista foi os meus estudos, tenho duas pós-graduações e um mestrado feitos na Ufam. Essa minha preparação que nunca deixei é que abriu as portas para mim”, afirmou.

2.332 estrangeiros

No ano passado, o Amazonas recebeu 2.332 estrangeiros, a maioria entrou nos meses de janeiro (288), novembro (266), fevereiro (264) e julho (262). Até janeiro deste ano, o Estado contava com 2.791 estrangeiros com registro ativo, isto é, 1.856 tinham visto permanente, 908 visto temporário, 25 visto de refugiado e 2 visto provisório. Os dados são da Polícia Federal (PF).

Entre os países com o maior quantitativo de imigrante e refugiado estava à República do Haiti, com 963 no total, seguido da Colômbia (514), Japão (137), República da China (88), Coréia do Sul (66) e Estados Unidos da América (64). Dos 1.791 estrangeiros registrados no Amazonas, 1.842 era do sexo masculino, 1.613 eram solteiros e 2.404 moravam em Manaus. A PF não enviou os dados que englobam os números deste ano.


Passaporte brasileiro (​Foto: Agência Brasil)

Até a 118ª Plenária, do dia 19 de dezembro de 2016, no Brasil, 9.552 pessoas, de 82 nacionalidades distintas, tiveram sua condição de refugiadas reconhecida. Dessas, 713 chegaram ao Brasil por meio de reassentamento e 317 foram estendidos os efeitos da condição de refugiado de algum familiar, os demais foram reconhecidos por vias tradicionais de elegibilidade.

Nova Lei de Migração

Entra em vigor, este mês, a nova Lei de Migração, nº 13.445, que garante ao migrante, em condição de igualdade com os nacionais, a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade. Também, institui o visto temporário para acolhida humanitária, a ser concedido ao apátrida ou ao nacional de país que, entre outras possibilidades, se encontre em situação de grave e generalizada violação de direitos humanos – situação que possibilita o reconhecimento da condição de refugiado, segundo a Lei nº 9.474, art. 1º, III.

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