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'Houve equívoco na forma', diz Sérgio Freire sobre transformar 'amazonês' em patrimônio

A obra literária “Amazonês: expressões e termos usados no Amazonas”, do professor Sérgio Freire,  esteve essa semana  no centro de uma polêmica provocada por um projeto de lei do deputado Wanderley Dallas 25/04/2015 às 15:34
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Livro de Freire lista cerca de 1.500 expressões que são utilizadas de forma comum no vocabulário dos amazonenses
Janaína Andrade Manaus (AM)

A obra literária “Amazonês: expressões e termos usados no Amazonas”, do professor Sérgio Freire, doutor em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas  (Unicamp), esteve essa semana no centro de uma polêmica provocada pelo projeto de lei n° 341/2012, de autoria do deputado Wanderley Dallas (PMDB), que quer reconhecer como patrimônio cultural de natureza imaterial a linguagem regional do Amazonas.

Lançado em 2010, o livro de Freire lista cerca de 1.500 expressões que, segundo a pesquisa do autor, são utilizadas de forma comum no vocabulário dos amazonenses. A obra chamou a atenção de Dallas ao ponto de em 2012 propor, por meio de um projeto de lei, que a Assembleia Legislativa do Estado (ALE-AM) transforme em patrimônio cultura todas as palavras e expressões listadas no livro.

Ao enumerar palavra por palavra no projeto de lei, o deputado do PMDB acabou constrangendo colegas de parlamento, que se sentiram ofendidos em transformar palavras como “cabaçuda”, “cabaço”, “dedada”, “gala”, “pimba”, “pinguelo”, “piroca”, “pomba” e “xibiu” em patrimônio cultural. A reprovação dos deputados com o projeto de Dallas foi tema de matérias na imprensa local e nacional, e também de comentários de toda ordem nas redes sociais, inclusive de Freire.

Assim como fez nas redes sociais e nas entrevistas que concedeu ao longo da semana à imprensa local e nacional, o pesquisador diz enxergar algo bom - para além da chacota - nessa discussão toda. “Eu costumo dizer que a vantagem dessa confusão toda foi a de colocar a linguagem regional em pauta”, afirma o professor. A seguir, trechos da entrevista.


Como surgiu a ideia de escrever o livro?

O livro surgiu como ideia no ano 2000 quando eu fazia doutorado em linguística.  E precisei fazer um trabalho dentro da linguística que trata essa relação da sociedade e linguagem. E aí pensei: “Por que não fazer algo sobre a linguagem regional?”. Eu sou amazonense, nascido em Manaus e aí conversei com a professora que me orientava e saiu o embrião deste livro, ela me deu todos os passos técnicos para fazer isso e começamos esse trabalho. Em 2010, consegui lançar a primeira versão do Amazonês. Foram dez anos trabalhando neste projeto para dar a forma de dicionário.


Que fontes de pesquisa utilizou para reunir esses termos?

Coleta ‘in loco’ (no lugar). Eu fui subsecretário de Educação de Manaus na gestão do Serafim Corrêa, de 2005 a 2007. Então, visitava muitas escolas nas seis zonas de Manaus e nessas visitas de trabalho eu aproveitava para fazer o meu trabalho de linguista, de conversar, de registrar, enfim, pegando toda essa linguagem em estado bruto e transformando em linguagem técnica que é o dicionário. Além disso, teve colaboração de pessoas que gostavam do meu trabalho. Porque, por exemplo, a primeira versão do livro eu disponibilizei na Internet. Ele circulou bastante e muitas pessoas mandavam as suas sugestões, com outras expressões e aí fomos agregando e dando essa forma ao dicionário. 


Em que edição está? Terá uma nova edição?

Hoje o livro já está em sua 2ª edição. Provavelmente a 3ª edição já saia agora no segundo semestre de 2015, já sendo uma versão ampliada, com alguns vocabulários novos que não fizeram parte das edições anteriores. A 2ª edição tem em torno e 1.500, 1.600 palavras, e esse agora terá quase 2 mil palavras. E o dicionário Amazonês é uma fotografia, você bate uma fotografia em determinado momento. A língua é dinâmica, viva e está se movimentando o tempo todo, se modificando. Portanto, esse é um trabalho sem fim. Algumas palavras surgem, outras desaparecem, e você precisa estar atualizando isso e o trabalho então não para.


Tem outro projeto relacionado ao tema?

Projeto relacionado à linguagem regional é só esse, mas trabalho com outras coisas; no mestrado, por exemplo, eu trabalho com a minha linha do doutorado que é análise do discurso, então trabalho com discurso e as novas tecnologias, linguagem das novas tecnologias). Trabalho com linguagem e tudo que interessa a ela.


Como foi a aceitação do livro quando lançado?

A aceitação foi muito boa porque o livro trata de linguagem, e a linguagem é um dos mais fortes índices de identidade de um povo. As pessoas se encontram muito no livro (Amazonês). E desde o seu lançamento, em 2010, é o livro mais vendido. A aceitação desse livro é dupla. A primeira é a dos amazonenses que falam essa linguagem. E a segunda é a das pessoas que vem de fora, e que encontram uma certa barreira linguística quando chegam aqui. É um presente para as pessoas que vem de fora, serve para ambientá-las.


Como é ser escritor no Amazonas? Dá para viver?

Não dá para viver. Escritor hoje acaba sendo uma atividade secundária no Amazonas. Você precisa ter uma atividade realmente de sustento, e a minha principal é de professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) desde 1991. Então escrever, para mim, acaba sendo um desdobramento, mas do ponto de vista financeiro não dá para viver. Tem gente que gosta de beber whisky. Eu gosto de escrever.


Tem outros livros além desse?

O “Amazonês” foi o segundo livro que lancei. Fora ele, tenho outros cinco livros acadêmicos (“Conhecendo análise de discurso”, “New Citizen”, “Redação: fundamentos e práxis”, “Microcontos” e “Análise de Discurso: procedimentos metodológicos”).


 Quais seus projetos atuais?

Dando aula na graduação e no mestrado em Letras e trabalhando no meu livro de crônicas.


Os termos que reuniu na obra são utilizados somente no Estado do Amazonas?

Essa é uma questão que muita gente fala, porque algumas expressões do amazonês também são usadas no Pará, em Roraima e em outros estados. Mas o livro traz expressões usadas no Amazonas, não necessariamente só aqui no Amazonas. Só para se ter uma ideia, a nossa linguagem se tributa a três lugares: aos portugueses, aos nordestinos e o terceiro grande componente da nossa é a linguagem indígena, pois estamos numa região de elevada incidência indígena. Então, expressões como ‘ficar de bubuia’, “só o cuí”, e cuí é pó, o que quer dizer que a pessoa está muito magra. E é por essa confluência que não tem como darmos uma certidão e dizer ‘isso aqui é do Amazonas’. Não, não é. O que o livro diz é que essas expressões são usadas no Amazonas, mas não quer dizer que sejam somente aqui.


Como o senhor  avalia a polêmica em que se transformou o projeto do deputado Dallas?

Algum tempo atrás, quase dois anos, a assessoria do deputado Wanderley Dallas me procurou dizendo que ele gostaria de transformar a linguagem amazonense em patrimônio cultural e imaterial. Agora eu acredito que houve um equívoco na forma do projeto, pois acho que deveria dizer mais ou menos ‘transformar a linguagem amazonense em patrimônio cultural e imaterial do Estado’. Bacana. Pronto. Mas aí a assessoria do deputado resolveu colocar a listagem dos vocábulos e apareceram essas palavras em que  algumas pessoas se sentiram ofendidas, mas que são de uso comum, de uso corrente, e aí pronto. Daí fizeram, ou por má fé ou por desinformação mesmo, uma lista apenas com as palavras que consideram ofensivas e disseram que o deputado Dallas iria transformar essas palavras em patrimônio cultural e imaterial, o que é uma inverdade. O que ele verdadeiramente quer é transformar a linguagem ao todo, a linguagem falada aqui no Amazonas e que inclui essas palavras, sim. Entendo que existam outras prioridades, como saúde, educação, mas não quer dizer que a gente não precise de cultura.


Qual a vantagem dessa polêmica causada pelo projeto?

Costumo dizer que a vantagem dessa confusão toda foi a de colocar a linguagem regional em pauta. Agora podemos falar de onde viemos, quais as nossas origens, quais as nossas identidades, influências. E, mesmo que o projeto não seja aprovado, o que eu vou achar uma pena, só a gente ter discutido tudo isso já é um grande ganho. Porque você desmistifica um mal entendido de que essa linguagem regional seja mais pobre do que a linguagem padrão. Linguagem é um assunto que todo mundo acha que entende, porque fala, escreve, dá opinião sobre isso, mas ela é uma área do conhecimento como qualquer outra. E sou adepto daquele diagrama chinês que diz que crise é sinônimo de oportunidade. E essa crise referente ao projeto nos dá a oportunidade de discutir a linguagem, identidade.


Alguns deputados como o presidente da Comissão de Constituição, Justiça e Redação, Orlando Cidade, defendem que o projeto causa constrangimento por conta das palavras consideradas chulas, o senhor  acha um exagero da parte do parlamentar?

Eu acho que esse julgamento do Cidade é um efeito. O deputado tem um conceito de língua que retrata uma língua higienizada, purificada e que vem de um discurso religioso, ético, moral. Mas é impossível você apagar o jeito que ela é falada. E a psicologia explica que se alguma coisa lhe incomoda é preciso você se perguntar o porquê. E acho que o grande constrangimento na mente do deputado Orlando Cidade é achar que com essas expressões a língua estará sendo mal representada, mas essas são as palavras que o povo fala. E não cabe a mim, linguista, cortar a língua, cabe a mim escrevê-la. Esse seria um retrato infiel da realidade. O trabalho de regular o uso da língua é de outras instituições, como a família, a escola e a igreja.


O deputado Dallas disse que vai retirar algumas expressões do projeto. O  senhor concorda?

Eu acho que não há problema em o deputado decidir retirar algumas expressões porque nem ele colocando todas as palavras que estão no dicionário vai englobar a linguagem regional toda, pois a linguagem é mutável. E esse projeto não é um cabo de guerra para se medir quem tem mais força, e sim valorizar a linguagem regional, transformando-a num patrimônio cultural e imaterial. A política é a arte da negociação, e às vezes você tem que perder no varejo para ganhar no atacado. É indiferente ter o palavrão ou não ter.


Está certo transformar em patrimônio cultural do Amazonas expressões que também são comuns em outras regiões?

Não. Não é o fato da expressão ser de outras regiões que qualifica como não sendo daqui. A circunscrição é que queremos tornar patrimônio cultural as expressões que são faladas aqui, e não que nasceram aqui. A linguagem falada, como já disse, por questões históricas, recebeu influências de vários falares.


Como cidadão, que utilidade o senhor enxerga num projeto dessa natureza?

O projeto tem um mérito muito bacana que é valorizar a linguagem regional. Houve um erro de forma, mas isso é ajustável, não condena 100% o projeto. O que a gente não pode é matar esse projeto. Acho muito pobre isso. Levantar várias questões de identidade, de cultura, de moral. Quem fala essas expressões, geralmente, são pessoas de baixa escolaridade. Muita gente acha que linguagem é só gramática, só regras e não é. Linguagem é cultura, é identidade.



PERFIL

Sérgio Freire, 46 anos de idade. Doutor em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas  (Unicamp). É líder do Grupo de Pesquisas Discurso e Práticas Sociais e vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFAM. Suas áreas de atuação científica são o ensino de línguas, linguística, educação, novas tecnologias, redes sociais digitais e análise do discurso.