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Inpa apresenta estudos sobre a história evolutiva recente de sapos na Amazônia

O estudo investigou diversas características em diferentes populações de espécies de sapos recém-descobertas, entre elas a variabilidade genética e de seus sinais sexuais 27/09/2012 às 18:00
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Sapo da Amazônia
Juan Mattheus/Inpa ---

É comum encontrá-los em todos os cantos, ouvindo seus coaxares, seja no quintal de casa ou na beira de igarapés. Os anuros, grupo de anfíbios que não possuem cauda e possuem estrutura de esqueleto adaptada para locomoção aos saltos, representam a mais diversa ordem de anfíbios da região amazônica, sendo mais de trezentas espécies catalogadas. Assim, a Amazônia ocidental tem a mais rica fauna destes animais no mundo.

Observando isso, o estudo de doutorado realizado pelo pesquisador formado pelo Programa de Pós Graduação em Ecologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), Igor Kaefer, orientado pela também pesquisadora do Instituto, Albertina Pimentel Lima e co-orientado pela pesquisadora da Universidade Federal do Amazonas, Izeni Pires Farias, teve como foco a integração de diferentes classes de caracteres para entender a história evolutiva recente de algumas espécies de anfíbios muito pouco estudados na Amazônia brasileira.

Foram utilizados na pesquisa, além dos caracteres de genética que são comumente empregados em estudos evolutivos, marcadores morfológicos e comportamentais que, no caso, foram os acústicos. “A utilização desses marcadores acústicos serviu para entender como se deu a evolução relativa de cada característica”, explica Kaefer.

O Sotaque dos Sapos

Uma das descobertas que atrai a atenção é a diferença na evolução dessas variadas classes de caracteres nesses anfíbios. A morfologia e o canto evoluem de uma forma não necessariamente igual àquela do DNA mitocondrial. Foram feitas análises de propriedades temporais e espectrais dessas vocalizações para obter informações que permitissem separar essas populações em unidades evolutivas.

Segundo Kaefer, as populações que foram estudadas são bastante diferenciadas e estruturadas geneticamente, mas não necessariamente isso aparece nas características que são usadas para determinar as espécies.Foi observada uma diferenciação genética muito mais pronunciada do que aquela do fenótipo, indicando que a riqueza em espécies nesses grupos pode estar sendo altamente subestimada.“É como se os sapos tivessem sotaques. Os sons que eles emitem, que é o sinal sexual deles, são estudados para entender como a variação dessas vocalizações podem indicar o status específico de cada população”, explana.

Rios como barreira

Os estudos foram realizados em áreas de várzea e terra firme nos estados do Amazonas e Pará, e também testaram o efeito que os rios Solimões/Amazonas e Madeira tiveram na diversificação desses grupos de anfíbios e como essas barreiras biogeográficas influenciaram seu processo de evolução.

Por serem espécies recentemente descobertas, suas áreas de distribuição conhecidas eram restritas às localidades-tipo, ou seja, aos locais onde foram descritas. Um dos objetivos da pesquisa foi a procura das localidades onde esses espécies se encontravam, sendo que, ao final, todas as espécies tiveram suas áreas de distribuição ampliadas.

O projeto durou quatro anos, e também envolveu estudantes de mestrado. Os trabalhos de campo foram realizados durante a estação chuvosa, o período reprodutivo das espécies estudadas.

De acordo com Kaefer, umas das maiores dificuldade enfrentadas durante a pesquisa foi a obtenção de dados, tendo em vista a imensidão da floresta. “Nós não visitamos áreas classicamente estudadas como sítios de pesquisas e reservas. Fomos atrás dos animais nos ambientes em que eles ocorrem, visitamos áreas de várzea e vilas ao longo das margens dos rios, muitas vezes sem a estrutura encontrada nas cidades”, relata.

Rumos das pesquisas

O próximo objeto de estudo, para dar continuidade e agregar mais informações à pesquisa realizada, será a condução de testes para verificar se as fêmeas de uma espécie são capazes de reconhecer o canto que é diferente de sua população. “Pretendemos fazer experimentos para testar se as diferenças estatísticas observadas nos sinais sexuais têm significado biológico”, comenta Kaefer.