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Ipaam diz que corte de árvores isoladas para obras no campus da Ufam estava proibido

Órgão ambiental emitiu licenças ambientais autorizando o corte de determinadas árvores no setor norte do campus, no ICHL, para obras de um estacionamento, mas nem todas elas 16/10/2015 às 16:59
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Lista do inventário para derrubada de árvores que foram autorizada pelo Ipaam
VINICIUS LEAL Manaus

O Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) confirmou que o corte de determinadas árvores no setor norte do campus da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) estava proibido. Entretanto, o órgão admitiu que divulgou uma informação errada. Esta semana, a comunidade acadêmica se revoltou contra a derrubada das árvores, referente às obras de um estacionamento no Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL).

Segundo o Ipaam, foram concedidas quatro licenças ambientais únicas (LAU) para a supressão (corte) vegetal em quatro áreas da Ufam, e em uma dessas autorizações não estava permitido o corte de árvores isoladas, como a Sumaumeira que ficava bem ao lado da entrada do hall do ICHL – e que teve o toco pintado de tinta vermelha, em protesto. Várias árvores fora do perímetro da obra foram cortadas sem autorização.

As áreas autorizadas com licença ambiental do Ipaam eram (1) um ramal de 6 metros de largura que liga a estrada de acesso interno ao bloco do ICHL; (2) uma área de 0,0565 hectares referente à construção de passarela e parada de ônibus, com supressão vegetal; e (3) uma área de 0,0283 hectares para construção de um terminal de ônibus, também com supressão vegetal.

A (4) quarta área autorizada pelo Ipaam – a mais polêmica –, é uma de 0,0216 hectares referente à ampliação do estacionamento. Nesta área, de acordo com o órgão, “somente foi autorizada uma volumetria de 13,063 metros cúbicos de madeira apresentados no inventário (foto acima)” e “o corte de árvores isoladas, ou seja, fora da área para a ampliação do estacionamento, não foi autorizado”. Segundo o Ipaam, a derrubada dessas árvores não consta na licença emitida ambiental.

Bloco de árvores que estava autorizado pelo Ipaam para ser derrubado. Foto: Clóvis Miranda

“As árvores isoladas dessa área são 1 Sumaúma e 2 Paleteiras que não constam na licença e que, portanto, não está autorizado corte. A licença expedida possui restrições e condicionantes, tais como: proteger a fauna, o solo e o curso d’água, além da proibição de corte de árvores protegidas (Castanheiras e Seringueiras)”, consta em trecho da resposta do Ipaam.

O Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas, o Ipaam, ressaltou, em nota enviada ao Portal A Crítica, que “em nenhuma das licenças há autorização para corte de árvores isoladas fora das áreas das obras, assim como há a proibição de corte de árvores protegidas”.

Quanto à compensação, o órgão informou que a lei 3.789 de 2012 diz que a mesma pode ser feita por meio de pagamento para a reposição florestal ao Fundo Estadual de Meio Ambiente (Fema). “Tal pagamento é utilizado pelo fundo em ações de reflorestamento em todo o Estado. O empreendedor pode escolher entre pagar ao fundo ou oferecer a compensação por meio de reflorestamento já efetuado”, diz na nota.

Mesmo após a derrubada de todas as árvores – as permitidas e não permitidas pelo Ipaam – no setor norte do campus da Ufam, o instituto afirmou que será realizada uma “fiscalização de monitoramento das condicionantes dos licenciamentos emitidos pelo órgão ambiental”.


Árvore no campus que não estava permitido pelo Ipaam para o corte. Foto: Clóvis Miranda

Parecer técnico de fauna

O biólogo e professor Marcelo Gordo, do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da Ufam, foi o especialista que assinou o parecer técnico de fauna da obra pela Ufam. Além do parecer sobre fauna, havia outro parecer sobre vegetação, a flora. Segundo o professor, no projeto da obra constava sim a derrubada da mata fechada entre o centro de convivência e a rua – e algumas outras (como confirmou o Ipaam), mas não havia regra para derrubar certas árvores que estavam dispersas, espalhadas ao redor do hall do ICHL.

O professor Marcelo Gordo tenta explicar o que aconteceu. “No meu parecer (de fauna), (eu coloquei que) das dez árvores (afastadas) que não faziam parte do complexo da floresta (mata fechada entre o centro de convivência e a rua), oito deveriam ser poupadas. Eu fui contrário ao corte de algumas dessas árvores. No parecer do professor que fez a parte vegetal (flora) não consta que algumas dessas árvores seriam cortadas”, afirma.

A árvore que fazia sombra

Uma dessas árvores que foram derrubadas e poderiam ter sido mantidas é a Sumaumeira que ficava bem ao lado da entrada do hall do ICHL. A permanência dela ali era motivo de controvérsias entre os acadêmicos de meio ambiente da Ufam. “A árvore é resultado de um plantio de 2003. Ela cresceu e tinha gente dizendo que ela danificava a calçada, que podia quebrar telhas e machucar alguém, e que até (as raízes) estaria danificando o banheiro (mais à frente)”, explicou o professor Marcelo Gordo.

“Na minha opinião, ela (a Sumaumeira) não era problema. Mas tem outros profissionais da área que discordam do meu posicionamento. Pra mim, se uma Sumaumeira for atrapalhar desse jeito, o Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas na Amazônia) teria que mudar de local. Lá as Sumaumeiras estão ao lado dos prédios, e eles convivendo com as árvores há 30 anos”, disse Marcelo Gordo.


Em protesto, alunos pintaram toco de árvore que não devia ter sido derrubada. Reprodução/Internet

O prefeito do campus contesta

O prefeito do campus, Atlas Bacellar, contestou as informações repassadas pelo Ipaam e afirmou que no licenciamento permitiu a derrubada das árvores isoladas. “A licença foi dada por completo. No estudo do florista professor Ulisses (Silva da Cunha - que deu o parecer de flora) consta três áreas (permitidas para derrubada de árvores) e ainda os indivíduos isolados. O processo se compõe de três áreas mais as árvores isoladas. A licença não tem nenhuma restrição”.

Bacellar explica a derrubada da árvore Sumaumeira que ficava ao lado da entrada do hall do ICHL. “É uma árvore linda e maravilhosa, mas plantada no lugar errado. Estou querendo colocar dez Sumaumeiras no lugar certo. O tronco dela é enorme, atinge alturas enormes que atraem raios. Uma aluna contou que foi comprar din-din (ao lado da árvore) e um galho caiu quase atingiu ela. Um galho pesa só 50 quilos. A Sumaumeira é uma árvore de várzea”.

O prefeito do campus conta ainda que a administração da Ufam pretende construir com a obra um abrigo para 170 pessoas naquela área, protegendo os alunos do sol e da chuva. Além disso, Bacellar promete plantar no local da antiga Sumaumeira uma nova árvore. “A ideia é levar uma árvore mais adequada para trazer sombra. Ali tem tubulação de água, de esgoto, de combate a incêndio, poço artesiano. Se eu planto uma árvore (Sumaumeira) nesse local, ela pode destruir tudo (com a raiz). Podemos mudar o poço, o prédio, gastando um milhão, ou podemos mudar a árvore”.


A antiga árvore Sumaumeira ficava ao lado de tubulações de água e esgoto. Foto: Clóvis Miranda

Mobilização na internet

Nas redes sociais, um evento de manifestação contra a derrubada das árvores e pela defesa da floresta da Ufam está marcado para acontecer na próxima segunda-feira (19), data de retorno das aulas após o fim da greve. “Vamos nos reunir para decidirmos como iremos protestar e nos posicionar para que alguma atitude seja tomada, não podemos deixar esse ‘arvorecídio’ continuar, não mesmo!”, consta na descrição do evento “Não cortem as árvores do campus!!!”.

Área de Proteção Ambiental

A Ufam possui um campus com 6,7 milhões de metros quadrados de área que constitui a maior área verde em meio urbano do Brasil e a terceira do mundo. No dia 27 de março de 2012 foi criada a APA (Área de Proteção Ambiental) pelo decreto municipal nº 1503, que incluía além dos limites do campus universitário, as áreas do Iná, Parque Lagoa do Japiim e área verde do conjunto Acariquara.