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Irmão de Eloá afirma que Lindemberg não é um ser humano

Durante depoimento realizado na manhã desta terça-feira (14), o irmão mais novo da vítima, afirma que a vida dele mudou depois do assassinato de Eloá 14/02/2012 às 12:37
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Mãe de Eloá, Ana Cristina Pimentel, esteve no julgamento nesta terça (14)
Débora Melo / UOL Santo André (SP)

O irmão mais novo de Eloá Pimentel, Everton Douglas, 17, depôs como testemunha nesta terça-feira (14), segundo dia do julgamento de Lindemberg Alves, 25, em Santo André (Grande SP). O réu manteve, em outubro de 2008, sua ex-namorada Eloá, 15, como refém por cerca de cem horas –o cárcere terminou com a morte da jovem e com a amiga dela, Nayara Rodrigues, baleada.

“Minha vida nunca mais foi a mesma”, disse Everton, relatando que teve que fazer terapia e tomar remédios por cerca de um ano e meio após a morte da irmã.

A testemunha disse que “infelizmente” era muito amigo de Lindemberg. Segundo seu irmão mais velho, que também prestou depoimento hoje, foi Everton quem apresentou o réu a Eloá e que, por isso, ele se sentia culpado pela morte da irmã. O irmão mais novo confirmou a informação e disse que jogava bola todo o fim de semana com o réu, que morava no mesmo conjunto habitacional da família de Eloá.

“Nós jogávamos futebol e era sempre ele quem causava as brigas, mas eu relevava”, relembrou, citando o comportamento explosivo de Lindemberg e seu gênio forte.

Sobre o sentimento que nutre atualmente pelo réu, a testemunha disse: “No começo eu sentia muita raiva, muita mágoa. Agora só sinto pena. É um ser insignificante para mim. Ele não pode ser considerado ser humano”.

Mais cedo, o irmão mais velho da vítima, Ronickson Pimentel, se emocionou durante o depoimento. Ele chegou a afirmar que Lindemberg é "um mostro", mas sua família o tratava "como um filho".

Após o depoimento de Everton, a sessão foi interrompida para o almoço. A previsão é que o julgamento dure até quarta ou quinta-feira.

Hoje continuam a ser ouvidas mais testemunhas de defesa e, na sequência, o réu será interrogado –Lindemberg, que até agora se recusou a falar, poderá permanecer calado, mas sua advogada já adiantou que ele vai falar sobre o caso e "expor sua versão". Depois dessa etapa, os debates são abertos, com uma hora e meia para a acusação e uma hora e meia para a defesa, além da réplica e da tréplica.

Mãe é dispensada de julgamento

A advogada de defesa de Lindemberg Alves desistiu de ouvir a mãe de Eloá Pimentel no segundo dia de julgamento --ontem, a advogada Ana Lúcia Assad havia exigido que Ana Cristina Pimentel fosse arrolada como testemunha. Nos bastidores, afirma-se que o pedido da defesa seria uma estratégia para retirar a mãe de Eloá do plenário, evitando que ela comovesse os jurados.

Em entrevista aos jornalistas, Ana Cristina disse que se sentia humilhada por ter sido dispensada e que gostaria de ter falado. A mãe de Eloá afirmou que Lindemberg não é um monstro, e sim um assassino. "Eu tratava ele como filho", disse. Ela completou que está preparada para ouvir o que ele tem a dizer no plenário. "O pior já passou, que foi perder minha filha", disse. "Não vi arrependimento nele, ele não pediu perdão."

Ana Cristina ainda lembrou o dia do início do cárcere. "Eu tive um pressentimento: eu disse para a Eloá e para o meu filho mais novo não abrirem a porta se ele fosse lá. Mas ele foi e acabou entrando. Ele convenceu meu filho a entrar em casa. Não entendo de lei, mas acho que ele tem que continuar preso", afirmou.

Primeiro dia de julgamento

O primeiro dia de julgamento durou pouco mais de nove horas e foi encerrado às 20h de segunda-feira (13). As quatro testemunhas que prestaram depoimento confirmaram que Lindemberg fazia ameaças de morte durante o cárcere privado. O testemunho mais esperado do dia era o da amiga de Eloá, Nayara Rodrigues, que foi feita refém junto com a jovem. Nayara pediu que Lindemberg fosse retirado da sala enquanto ela falasse.

A jovem, que foi ferida por um tiro no rosto quando a polícia invadiu o local, disse que o réu agrediu Eloá durante o período de cativeiro e que a vítima dizia o tempo todo que “sabia que ia morrer”. Nayara afirmou que ouviu três disparos antes da entrada da polícia no apartamento –o que comprova a tese da acusação, de que os tiros partiram do réu e não da polícia.

A amiga de Eloá também falou sobre o comportamento do ex-namorado da vítima. “Lindemberg passou a perseguir a Eloá depois que eles terminaram o namoro”, completou. Segundo a jovem, ele a considerava uma má influência para a vítima. "Ele tinha raiva de mim e da minha mãe porque a Eloá andava dormindo lá em casa e a gente saia bastante. Ele dizia que eu a influenciava diretamente."

Já sobre o comportamento do réu durante o cárcere, ela afirmou que Lindemberg dava risada e se vangloriava pela repercussão do caso na mídia. "Na televisão só passava isso [relatos do caso]", disse Nayara.

A advogada de defesa, Ana Lúcia Assad, questionou o teor do depoimento. “A Nayara mentiu e inventou (...). Por ela ser vítima, o depoimento dela é um depoimento suspeito”, disse. “Ela foi bem orientada por seu advogado, até simulou um choro, uma emoção, para dramatizar.”

Outros dois amigos de Eloá, que também foram mantidos reféns, afirmaram que Lindemberg os ameaçava de morte. "Ele dizia que ia fazer uma besteira", disse Victor Lopes de Campos respondendo às perguntas da promotora Daniela Hashimoto. Já Iago Oliveira afirmou que "ele ameaçava a Eloá a toda hora, e dizia que ela não ia sair viva de lá: ou ele ia matar todo mundo e se matar, ou matar a Eloá e se matar".

O sargento Atos Antonio Valeriano, policial militar que iniciou o trabalho de negociação com Lindemberg, disse que o jovem estava nervoso e dizia que “ia matar os quatro” e depois ameaçava também se matar.

Entenda o caso

Lindemberg Fernandes Alves, então com 22 anos, invadiu o apartamento de sua ex-namorada Eloá Cristina Pimentel, 15, no segundo andar de um conjunto habitacional na periferia de Santo André, na Grande São Paulo, no dia 13 de outubro de 2008. Armado, ele fez reféns a ex-namorada e outros três amigos dela, que estavam reunidos para fazer um trabalho da escola.

Em mais de cem horas de tensão, Lindemberg chegou a libertar todos os amigos, mas Nayara Rodrigues acabou voltando ao cativeiro, no ponto mais polêmico da tragédia --a polícia, que trabalhava nas negociações, foi bastante criticada por ter permitido o retorno.

Em depoimento, Nayara afirmou que, após ter sido liberada, foi procurada por policiais que queriam que ela tentasse convencer Lindemberg a libertar Eloá pelo telefone. Então ela os acompanhou até o local do sequestro e foi orientada pelo rapaz ao celular a subir as escadas. Nayara disse que Lindemberg prometeu que os três desceriam juntos, mas, quando chegou à porta, viu que ele estava com a arma apontada para a cabeça de Eloá. Então, ele puxou Nayara para dentro do apartamento e não a libertou mais.

Mais tarde, policiais militares do Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais) invadiram o apartamento, afirmando que ouviram um estampido do local. Em seguida, foram ouvidos tiros. Dois deles atingiram Eloá, um na cabeça e outro na virilha, e outro atingiu o nariz de Nayara. Eloá morreu horas depois. Lindemberg foi preso.

O réu é acusado de cometer 12 crimes, entre eles homicídio duplamente qualificado por motivo torpe, tentativa de homicídio (contra Nayara Rodrigues e contra o sargento Atos Valeriano), cárcere privado e disparos de arma de fogo. Se for condenado por todos os crimes, a pena pode ser superior a cem anos de prisão –Lindemberg está preso desde 2008.