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Cotidiano
ESPECIALISTAS ALERTAM

Jogo 'Baleia Azul', que leva jovens ao suicídio, requer atenção de pais e responsáveis

Conhecido como "Blue Whale", no jogo clandestino são dadas uma série de instruções que induzem os participantes a tirarem a própria vida 21/04/2017 às 05:00 - Atualizado em 21/04/2017 às 11:44
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Jovens são as principais vítimas das quadrilha que opera o Baleia Azul no mundo / Arquivo/AC
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Especialistas alertam pais e responsáveis sobre jogos e séries suicidas que estão proliferando na Internet. O mais famoso “game mortal” e que vem gerando muitos comentários nas redes sociais é o “Baleia Azul” (Blue Whale): ele consiste em um jogo clandestino no qual são dadas uma série de instruções que agridem, fragilizam e induzem os participantes a tirarem a própria vida. O jogo, que teve início na Rússia, rapidamente se espalhou na internet e já tem várias ocorrências registradas no Brasil. Segundo informações, trata-se de uma quadrilha que alicia crianças e jovens e os levam a atos perigosos, sob o disfarce dos 50 desafios do jogo. 

“O jogo Baleia Azul virou moda porque muitos adolescentes estão adoecidos -  com sintomas de oscilações de humor, depressão e angústia - e facilmente são influenciados. É um jogo que revela a fragilidade emocional da juventude diante de desafios e ameaças, ao não utilizarem de um juízo crítico e maturidade para avaliar as situações e enfrentar a frustração diante de situações de vida”, analisa a psicóloga Gisele Cristina Resende, que trabalha no Centro de Atenção Psicosocial (CAP) Infanto-Juvenil do Conjunto Acariquara, na Zona Leste e é doutoranda em Psicologia na Universidade de São Paulo - USP - Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto.

Diante desse jogo, diz a especialista, somos levados a refletir sobre a forma como as pessoas enfrentam as situações da vida e como a população está adoecida psiquicamente, pois em algumas situações o suicídio se torna a alternativa para dar fim ao sofrimento. A psicóloga faz um alerta em face do problema: “Em situações em que se percebe o sofrimento emocional, como por exemplo, ansiedade, angústia, humor depressivo (tristeza, desânimo) deve-se ficar atento, ou seja, escutar a pessoa para poder ajudá-la procurando a ajuda de um profissional de saúde, especificamente psicólogos e psiquiatras. O alerta é observar e procurar ajuda para a pessoa que inicia um comportamento diferente daqueles que tinha, como por exemplo, isolamento, tristeza, desânimo, falta de apetite, pois muitas vezes a pessoa não verbaliza suas emoções e problemas”. 

Epidemia de suicídios?

No mundo há evidências de que o número de suicídio tem aumentado. Um relatório elaborado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2014 revela que o suicídio é um grande problema de saúde pública e cerca de 75% dos casos ocorrem em países de baixa e média renda. O Brasil é o oitavo país, nas Américas, em número de suicídios. “Tem havido um crescimento expressivo do suicídio no mundo inteiro. Esses dados exigem atenção da população para que se previna esse acontecimento”, detalha Gisele.

Mas quais os sinais que os suicidas deixam antes de praticarem o ato? Geralmente alguém antes de cometer suicídio apresenta alguns comportamentos, como, isolamento, tristeza, frases alarmantes (que se analisadas podem revelar o estado emocional da pessoa em sofrimento), oscilação de humor (tristeza, euforia, choros imotivados, olhar distante), conta a especialista, que vai além: “O adolescente apresenta outros sintomas, ele vai se trancar no quarto, não vai falar com ninguém, e isso vai ser entendido como fenômeno da adolescência normal, já que ele não consegue expressar seu sofrimento de uma forma clara. Orienta-se à família diálogo e observação. É bom lembrar que envolvimento com álcool e drogas podem desencadear transtorno mental e suicídio em alguns casos”.

Transtorno 

De acordo com Cleber Naief, presidente da Associação Amazonense de  Psiquiatria (AAP), o tema da “Baleia Azul” está “apenas começando e vai ganhar muita atenção ainda”. 
“Um total de 96% das pessoas que cogitam ou tentam o suicídio possuem algum transtorno psiquiátrico, com a maioria dos casos tendo a possibilidade de ser evitado com o tratamento adequado. O isolamento social também aumenta o risco e os tratamentos são efetivos na maioria dos casos”, destaca.

“A depressão é a causa mais comum e está presente em cerca de 60% dos suicídios. O Brasil tem cerca de 12 mil suicídios por ano. Os índices mais elevados do Amazonas estão na população indígena de São Gabriel da Cachoeira”, explica Naief.

Escolas divulgam alerta

Preocupadas com a repercussão dos jogos que podem colocam em risco a vida dos jovens, algumas instituições educacionais da cidade se anteciparam e já vem orientando pais e alunos sobre a bizarra atividade.

Em e-mail enviado na semana passada, e cujo texto está publicado em seu site oficial para os responsáveis dos alunos, as Escolas Idaam, por exemplo, fizeram um alerta sobre os jogos suicidas nas redes sociais. 

“Na verdade nós enviamos um alerta aos pais e responsáveis pois como esse jogo está circulando, gerou comentários e discussões entre os jovens. Nós pedimos para que os pais aconselhassem seus filhos para o que eles estão visualizando na Internet e não apenas o Baleia Azul, mas outros que causam medo nos jovens. É aquela questão de aparecerem as lendas urbanas. Há essa necessidade dos pais acompanharem para saber exatamente o que seus filhos estão jogando on line, quem são seus amigos...”, explicou Célia Carrara, diretora de ensino das Escolas Idaam.

‘13 Reasons Why’

Outra instituição educacional que alertou diretamente aos pais sobre a situação foi a Rede Salesiana Brasil. Em seu site, ela orienta não apenas sobre o jogo Baleia Azul, mas também  sobre a série norte-americana “13 Reasons Why” (“Os Treze Porquês”), disponível aos assinantes do serviço de streaming Netflix. A série gira em torno de uma estudante que se mata após uma série de agressões sofridas dos colegas no ambiente escolar. Antes de tirar a própria vida, ela grava fitas de cassete explicando para treze pessoas como elas desempenharam um papel na sua morte: os treze motivos.

“Profissionais da área de Psicologia têm alertado que a série, embora tenha valores contra o bullying, não toma os cuidados adequados para tratar do tema. Existiria, na lógica da trama, uma ideia romântica do suicídio como alternativa e vingança contra opressões individuais. Também foram criticadas a presença de cenas de estupro e a encenação detalhada do suicídio da protagonista”, divulgou a Rede Salesiana.

QUADRO 1

Recomendações importantes contra o Baleia Azul

- Informar aos filhos a existência do jogo da Baleia Azul e seus perigos. 
- Instruir os filhos a não adicionarem estranhos nas redes sociais.
- Monitorar o uso de smartphones e redes sociais. 
- Restringir o uso da internet em determinados horários.
- Estar presente nos pátios virtuais e acompanhar o que o filho está fazendo. 
- Ficar atento a qualquer mudança radical no comportamento de crianças e adolescentes.
- Acolher os filhos e conversar sempre que notar neles algum desconforto. 

QUADRO 2

Onde procurar apoio contra suicídios e acolher pessoas com esses problemas?

Em Manaus existe a Rede de Atenção Psicossocial da Prefeitura Municipal e do Governo do Estado, formada pelos Centros de Atenção Psicossocial e Policlínicas:

*CAPS - Benjamim Matias Fernandes - Parque Dez, antigo CAPS Sul - Av. Maneca Marques, 1916 - Parque 10 de Novembro, Manaus - AM, 69055-540.Telefone(92) 3214-9172

*CAPS - Centro de Atenção Psicossocial Silvério Tundis - Av. Sete de Maio, s/n - Santa Etelvina, Manaus - AM, 69008-270 Telefone(92) 3652-3150

*CAPS Infanto Juvenil - Av. Adolfo Ducke, 917 - Conjunto Acariquara- Coroado, Manaus - AM. Telefone 3644-3094.

*Policlínicas nos bairros.