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Jornaleiros de A Crítica acordam cedo há 66 anos para levar informações aos leitores do AM

Com uma rotina diária árdua, mas cheia de energia e alegria, jornaleiros do Amazonas vêem as notícias não apenas como uma necessidade, mas como um compromisso com a população 19/04/2015 às 13:58
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Aos 56 anos e portador de uma deficiência visual, o jornaleiro Francisco de Vasconcellos Mendes ainda percorre a cidade de Manacapuru ‘vendendo’ as notícias dos jornais A CRÍTICA e Manaus Hoje
Luana Carvalho Manaus (AM)

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Em cima de uma bicicleta vermelha, usando óculos escuros e anunciando as notícias do dia. Foi assim que a equipe de A CRÍTICA encontrou Francisco de Vasconcellos Mendes, de 56 anos. “Quero dar atenção a vocês, mas também preciso vender meus jornais, vocês me acompanham?”, convidou o jornaleiro mais famoso do Município de Manacapuru, distante 68 quilômetros de Manaus.

Francisco não é casado, mas tem uma grande companheira que batizou de “Mequinha”. “Minha bicicleta está comigo há 22 anos. Já foi roubada, recuperei e não me desfaço dela. É minha ‘ferrari’”, brincou o jornaleiro enquanto entregava jornais nas casas dos clientes fixos.

Típico de cidade interiorana, os moradores ficam em frente de casa esperando o jornaleiro passar. Isso acontece há 14 anos. “Passo todos os dias, sempre no mesmo horário. Gosto de brincar e conversar com as pessoas e acho que é por isso que conquistei tantos clientes ao longo da vida”, conta.

Bem humorado, ele faz piadas e anuncia as reportagens de maneira diferente. “O jornal vende como água quando tem alguma notícia local. Às vezes é só um ‘pinga fogo’, com poucas linhas, mas eu faço virar manchete do dia”.

‘Disposição’

Na área central da cidade a venda é feita a pé. “O trânsito é uma bagunça, tem muitos buracos nas ruas e por isso prefiro caminhar”. A passos rápidos, ele conta que percorre mais de 80 quilômetros entre caminhadas e pedaladas. “Eu faço minha rota e ‘ataco’ nos locais certos. Se sobrar jornal, eu faço tudo de novo”.

A rotina começa às 4h30, quando Francisco, que também é conhecido como ‘Instalação’ por causa da antiga profissão (eletricista), sai de casa com destino à rodoviária. “Acordo, tomo um café da manhã saudável, escuto rádio e vou buscar meus jornais”. São 310 jornais todos os dias.

Depois de muita caminhada, Francisco só parou para posar para as fotos quando estava com o último jornal na mão, por volta das 14h, no ‘beiradão’ da cidade. “Esse é meu trabalho, é o que eu amo fazer de domingo a domingo. É o meu sustento e o pão de cada dia da minha filha Ana Luíza”, disse, emocionado.

‘Superação’

'Instalação’ não tirou os óculos em nenhum momento da conversa. Perguntamos se o acessório servia para combinar com os outros adereços que compõem o estilo do jornaleiro. Com um sorriso no rosto, ele levantou os óculos. “Sou deficiente visual. Tive um glaucoma há 11 anos e não enxergo bem. Eu sempre fui apaixonado por ler jornais, mas agora peço para meus amigos lerem. Assim fico sabendo o que acontece e saio anunciando as notícias”, contou.

Para a ele, a vida sem o jornal não teria o mesmo sentido. “Não quero nem imaginar. Sem o jornal a vida acabaria pra mim. Quando o jornal chega na rodoviária é uma alegria muito grande que eu sinto”, revelou.

Rotina começa na madrugada

A vendedora de jornais Maria do Carmo, 42, acorda todos os dias antes do sol nascer. Ela mora no bairro Nossa Senhora de Fátima 2, na Zona Leste, e vende aproximadamente mil jornais diariamente no Terminal 4 (Jorge Teixeira). “Já passei por muitas provações, de ter que tirar moedas do bolso para comprar o pão. Mas graças ao meu trabalho, que é vender jornais, consegui comprar minha casa”.

Ela trabalha de segunda-feira à sábado e, apesar de se arriscar no trajeto até o terminal toda madrugada, Maria conta que é feliz e ama o que faz. “Caminhei muito a pé, comprei bicicleta, muitos amigos me davam carona e assim fui levando a vida. As dificuldades são grandes, mas eu amo vender jornais e manter o povo informado”, relata.

O largo sorriso no rosto e a gentileza com que trata os clientes são marcas registradas da jornaleira. “Procuro sempre tratar meus clientes bem e é isso que atrai compradores. Dou um cafézinho para cada um que compra um jornal”, revela.


Na banca, ela “adesiva” as reportagens mais interessantes da semana. “Mesmo que o cliente não leve um jornal, acho importante que ele leia assuntos importantes”.

Em datas comemorativas, como Páscoa, por exemplo, ela se veste de “coelhinho”. “No dia das crianças vou me vestir de Emília. Acho importante vender notícias mas também levar um pouco de alegria durante a correria do dia-a-dia”.

História

Fundado pelo jornalista Umberto Calderaro Filho, o jornal A Crítica entrou no mercado em 19 de abril de 1949. Atualmente é a nave capitã do maior grupo de comunicação do norte, a Rede Calderaro de Comunicação.

Voz dos jornaleiros

Você acha que o jornal impresso pode acabar?

Francisco Mendes, 56 anos, jornaleiro

“Isso é história que não entra na minha cabeça. Se fosse assim, o rádio já teria acabado. Se der um trovão, a Internet sai do ar, e o jornal não”

Maria do Carmo, 42 anos, jornaleira

“Apesar da crise em todos os setores no Brasil, o jornal impresso é uma tradição e informa muitas pessoas”

Wellington Pereira, 22 anos, jornaleiro

“Não acredito nisso. Enquanto houver pessoas que, como eu, querem estudar e fazer jornalismo, o impresso não vai acabar”