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Cotidiano
imperio do tráfico

Lei do silêncio domina em bairros de Manaus onde o tráfico de drogas predomina

Em um dos bairros apontados por pesquisa nacional como de alto consumo de crack, moradores dizem ser " tranquilo" 19/01/2012 às 11:30
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No Jorge Teixeira, Zona Leste, impera a Lei do silêncio
Maria Derzi Manaus

Como ocorreu nos grandes centros do tráfico de drogas, a exemplo do Rio de Janeiro, a população do Amazonas já está se “acostumando” ao clima de terror imposto nos bairros onde o tráfico de drogas predomina. Em alguns locais, o convívio com o tráfico é uma situação rotineira e, com a ausência dos mecanismo de segurança pública do Estado, os moradores mantêm uma relação de “amizade e respeito” para com os criminosos. Eles fazem a lei e, em alguns casos, são considerados “tranquilos” pela população.

De acordo com a pesquisa da Secretaria Nacional de Antidrogas (Senad), realizada em parceira com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em Manaus existem 20 pólos de concentração de usuários de crack, dos quais o destaque são os bairros Terra Nova, na Zona Norte, e Jorge Teixeira, Zona Leste.

A reportagem de A CRÍTICA visitou os bairros em busca de informações e o que encontrou, em um deles, foi uma população que vive sob a lei do silêncio, intimidada pelo tráfico de drogas, e presa em sua própria casa. No outro bairro, o que impera é a tolerância ao tráfico de drogas, um convívio considerado pacífico por parte dos moradores.

Jorge Teixeira

No Jorge Teixeira, Zona Leste, a lei é do silêncio. Os comerciantes da área baixa do bairro não quiseram falar e fecham as portas ao identificar a equipe de reportagem. Um deles disse: “Se eu falar, vou me sujar. Vai ficar ruim para mim”, mas confirmou que na área baixa o tráfico de entorpecentes é constante. Além disso, muitos usuários chegam a “se mudar” para o local para ficar mais perto da fonte da droga.

 Na área de cima do bairro, o silêncio não é diferente. Todos os estabelecimentos comerciais, por exemplo, são fechados por grades e, em alguns casos, o freguês é atendido através de pequenas frestas na porta ou janela. Outro comerciante, “seo” Geraldo*, pede ajuda. “ O tráfico, a criminalidade, estão em todo lugar aqui no bairro. Tanto faz em cima ou em baixo. Todo dia tem um assalto, um crime. As pessoas não saem nem na rua com medo”, disse.

 Terra Nova

Também apontado pelo estudo como um dos bairros com maior concentração de consumo de crack em Manaus, no Terra Nova alguns moradores se sentem “tranquilos” com os traficantes. O morador Carlos* fala sobre o convívio com o tráfico e diz que a maioria não se sente refém da criminalidade. “Eles respeitam os moradores. Vendem, mas não tem violência. Eles são até bem tranquilas! Eles são, como chegamos a dizer, mais ‘artistas’. Quando a polícia chega, fogem, se escondem”, explicou. * Nome fictício

‘Estado deveria reconhecer’

Coordenador do Núcleo de Políticas Públicas da Ufam, o antropólogo Ademir Ramos diz que o Estado deveria reconhecer as cracolândias. “Para captalizar recursos e elaborar programas de combate e tratamento da dependência química. Negando essa existência ele também nega o direito a tratamento de saúde aos usuários. A questão da droga é um problema de política pública. O Estado vem legando essa responsabilidade à piedade cristã, demonizando o problema, ao associá-lo às igrejas.”

 Ademir diz que as drogas são um problema invisível. “Há mães que se calam e rezam para que seus filhos morram, porque não aguentam mais. Tem gente que fica em silêncio por medo. Há outras pessoas que aceitam porque, em última análise, com ausência do estado, o narcotráfico beneficiaria a comunidade.”

A Secretaria de Segurança Pública (SSP) diz que vai solicitar reforços para o policiamento nos bairros por meio do comando da polícia metropolitana. E quanto à declaração do antropólogo, não vai se pronunciar.