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Cotidiano
VINTAGE

Na era dos smartphones, empresa brasileira quer voltar a revelar fotos

Revelação de imagens, comum nos anos 1990, volta a ser oferecida no país após falência de gigantes da fotografia 14/12/2017 às 18:23
Show photoo
Ag. Conversion Manaus

O filósofo polonês Zygmunt Bauman ficou mundialmente famoso por falar sobre a ideia de “modernidade líquida”, um fenômeno do nosso tempo em que todas as coisas, diz ele, são flexíveis e temporais, ao contrário de uma época em que eram sólidas, fixas e duráveis.

Um exemplo cotidiano disso é a maneira como as pessoas consomem e produzem fotografia atualmente. Até meados dos anos 1990, uma máquina fotográfica era um equipamento caro, restringia as fotos a pouco mais de 30 “poses” e, quem a possuía, tinha um jeito específico de usá-la. “Era comum reunir as visitas em cada para ver o álbum de fotos de uma viagem, de um evento, como um casamento ou uma formatura, ou mesmo para lembrar de momentos especiais”, diz a artista plástica Kátia Santana.

Hoje em dia, no entanto, com a popularização de celulares com câmeras embutidas e das redes sociais - como o Instagram -, aumentou não apenas a produção de imagens, mas a circulação delas pela internet. O processo de revelação de fotos foi substituído pela postagem a internet, onde estão a maioria das pessoas conhecidas.

“Todo mundo tem acesso à uma câmera, mas ninguém pensa. Estamos no momento em que se produz a maior quantidade de fotos da história humana e, ao mesmo tempo, que ninguém reflete sobre nada”, critica o fotógrafo e professor universitário Rogério Nagaoka.

A mudança foi tão grande que, em 2015, o jornal estadunidense New York Times publicou uma reportagem perguntando como a Kodak, outrora responsável por quase todo o mercado fotográfico dos Estados Unidos e de boa parte do mundo, ainda sobrevivia.

Segundo o periódico, a empresa perdeu 139 dos 200 edifícios que possuía em seu parque industrial nos EUA, assim como milhares de funcionários até a declaração de falência, em 2012. Hoje, depois de um longo processo de recuperação judicial, a Kodak vive em um mercado pequeno do nicho fotográfico profissional.

Outra grande empresa dedicada ao mercado fotográfico no país era a Fotóptica, que concorreu com a Kodak por décadas pelas revelações de imagens dos brasileiros. Neste ano, porém, ela anunciou sua saída total do mercado para atuar apenas no ramo de ótica.

No entanto, empresas brasileiras, como a Phooto, com sede em Miami (EUA), estão tentando retomar um costume que fazia parte de quase todas as famílias em um passado onde as coisas não eram tão “líquidas”.

As estratégias para conquistar novamente o mercado apelam para a importância que as lembranças têm na vida das pessoas, e como isso não pode ser instantâneo. “A fotografia não deixou de ser a eternização de um momento. Quando você fotografa algo, é porque quer guardar aquela experiência. O que está acontecendo hoje, na era dos celulares, é que esses momentos ficam perdidos na nuvem, na memória do celular. Portanto, nosso trabalho é relembrar a importância não somente de fotografar, mas de reviver o momento outra vez, de rememorar aquilo que foi vivido”, conta Anik Strimber, diretora da Phooto.

A empresa, assim como outras do setor, oferece serviços de revelação fotográficas pela internet em que o cliente recebe as imagens em casa. Algumas delas chegam a disponibilizar entregas horas depois da seleção das fotos na internet. O público, como não poderia deixar de ser, é primordialmente formado por pessoas acima dos 25 anos, apesar do crescimento gradual de jovens.

“Existem cada vez mais pessoas tirando fotos de tudo, mas também há um movimento crescente de jovens que querem revelar as fotos por causa dos pais, que ainda viveram na época em que era um serviço comum”, diz Anik.

“Na era dos celulares, está crescendo o interesse por colocar isso no papel. As pessoas estão voltando a revelar suas imagens”, completa ela.

Revelação via celular

Em janeiro de 2017, o governo brasileiro divulgou que existiam 243 milhões de linhas telefônicas no país, número que dá uma ideia do volume de aparelhos celulares pelo país – a imensa maioria deles aparelhada com câmeras fotográficas. Por isso, era impossível promover um retorno à revelação sem contar com os celulares. “A ideia é que todas essas fotos que são produzidas por celulares não fiquem perdidas na memória, mas se tornem físicas, sólidas”, explica Stramber.

A dimensão da mudança do consumo fotográfico também pode ser vista no crescimento das redes sociais, como o Facebook e o Instagram. Enquanto a plataforma de Mark Zuckerberg tem uma média de 350 milhões de fotos postadas por dia no mundo, o Instagram tem, só no Brasil, 35 milhões de usuários ativos – ou seja, que publicam suas imagens regularmente. Toda essa produção fotográfica, imagina-se, está dedicada ao mundo virtual.

“A fotografia se tornou um fenômeno de reprodução de massa no século 19. A revolução digital só faz parte desse processo, é uma tendência histórica”, finaliza o artista e professor de produção fotográfica Elinaldo Meira.