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‘Não tinha tanta viabilidade’, diz diretor do Grupo Chibatão sobre entreposto de Santarém

Diretor executivo geral do Grupo Chibatão, Jhony Fidelis explica porque a empresa desistiu do projeto de implantação de um complexo logístico no Pará 19/04/2015 às 14:28
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Diretor executivo geral do grupo, Jhony Fidelis, em entrevista exclusiva para a equipe do jornal A CRÍTICA
Natália Caplan Manaus (AM)

Com 1 milhão de metros quadrados, o Porto Chibatão é considerado o maior complexo portuário privado da América Latina. Localizado no Polo Industrial de Manaus (PIM), tem capacidade de carga estática de 40 mil TEU's — medida padrão utilizada para calcular o volume de um contentor marítimo — e pretende “navegar” na contramão da crise. O orçamento aprovado para o biênio 2015/2016 é de US$ 272 milhões.

A informação é do diretor executivo geral do grupo, Jhony Fidelis, em entrevista exclusiva para a equipe do jornal A CRÍTICA. A empresa presta serviços nos segmentos de terminal portuário privativo misto de movimentação; armazenagem de contêineres e cargas em geral, logística pesada na remoção industrial e içamento de cargas; transporte fluvial de cargas no sistema “roll-on roll-off” intermunicipal e interestadual; e transporte rodoviário de cargas e contêineres.

Além de falar sobre os investimentos em tecnologia — compra de equipamentos de ponta para agilizar o trabalho — e capacitação de mão de obra qualificada — para lidar com essas novas máquinas —, o dirigente revelou o que motivou a empresa a abrir mão do entreposto de Santarém (PA) e garantiu: a vazante não é uma preocupação. Segundo ele, a expectativa para este ano é de um crescimento de até 15%.

Vocês participaram da licitação do entreposto da Zona Franca de Manaus (ZFM) em Santarém, mas desistiram. Por quê?

Eram 21 empresas, das quais 20 desistiram, incluindo o Chibatão. O projeto não tinha tanta viabilidade. É apenas uma forma de você retardar o pagamento do ICMS: ao invés de pagar na fonte, paga na venda, em Santarém. Mas acaba gerando outros custos de movimentação da carga. Tem outras complicações, como o corredor de exportação da BR-163, que falta ser finalizada. Além de ter essa estrada incompleta, o custo-benefício não vale a pena. É um projeto que não deu certo.

Mas, na opinião do senhor, por que “não deu certo”?

Para empresas de outros estados não deu certo. Não sei se faltou força de venda ou se não entenderam. O PIM [Polo Industrial de Manaus] não compra a ideia. Todos falam muito sobre o assunto. Não adianta só criticar, mas mostrar que é inviável. É um investimento muito alto que não justificava o retorno do investimento. Tem gastos com aquisição de área, construção, licenças... Cerca de R$ 80 milhões.

Por falar em recursos, quanto o Grupo Chibatão tem disponível no orçamento deste ano?

Aprovamos, no conselho realizado em dezembro passado, R$ 272 milhões, que serão investidos em 2015 e 2016. Investiremos na capacitação da mão de obra, com treinamento de operadores de guindastes; gestão operacional, tática e estratégica; e inovação, como melhorias do pátio virtual do complexo portuário. Também estamos comprando novos equipamentos e implementando novos sistemas. Nosso objetivo é automatizar as portarias, evitar falhas humanas no sistema de liberação, agilizar o recebimento e entrega de cargas no porto.

O senhor pode falar um pouco dessas inovações?

Antes, a localização de uma carga era manual. Hoje, podemos fazer isso de forma automatizada: o sistema informa localização, peso e altura do contêiner, ou da carga. Desde outubro de 2014, temos o Controle de Reconhecimento Óptico [OCR], que processa informações para fazer a liberação dos contêineres, agilizando as operações. Também estamos implementando um sistema de planejamento de navios, no qual interligamos toda a atividade portuária com o pátio (carga e descarga). Esse sistema integra todo o gerenciamento dos 16 navios operados mensalmente. Recentemente, adquirimos quatro guindastes portuários para operar navios de grande porte. Eles são elétricos e a combustão (a diesel), caso falte energia. Ou seja: não paramos a atividade portuária e preservamos o meio ambiente. Ainda compramos dois scanners. Um chegou em 2014 e o outro deverá ser entregue ainda neste semestre. Todo o processo de vistoria da Receita Federal, anteriormente era de forma física, teríamos que abrir o contêiner e levar sete dias vistoriando. Com o scanner, precisamos de apenas 20 segundos.

Diante de tamanho investimento, quanto a empresa pretende lucrar este ano, em relação ao anterior?

Neste ano, projetamos um crescimento de 15% em comparação a 2014. Mas acabamos tendo alguns imprevistos. O mercado brasileiro não está muito bem, está instável, e nos preocupamos, principalmente, com a alta do dólar. Acendemos a luz amarela em função do próprio Polo Industrial, que está apresentando dificuldade na compra de matéria prima. O produto está sendo vendido pelo mesmo preço porque as indústrias não conseguem repassar o preço para o consumidor final. Estão reduzindo o quadro pessoal. Esse impacto direto na indústria — que está diminuindo as compras, tendo férias coletivas — preocupa muito.

Como a empresa pretende lidar com essa “tempestade”?

Temos 2,5 mil funcionários e vamos reduzir em torno de 5%, aproximadamente 120 pessoas. O Brasil inteiro em crise e a principal decisão de qualquer empresa é fazer a compensação. Analisar a mão de obra mais ociosa é normal em qualquer empresa. Começa com as férias coletivas e caso o mercado não melhore, começa a demitir. Hoje em dia ninguém segura a mão de obra. É sobrevivência.

A época da vazante pode agravar a crise?

A barcaça é um equipamento preparado, não tem limitação. Ela é equipada com sonar, que faz sondagem do assoreamento do rio, evitando que bata em banco de areia ou pedras. Quando a vazante é grande, a embarcação tem que vir com menos cargas. Nessa época, quando impacta na capacidade de carregamento do navio, o armador implementa uma taxa chamada “apoio à vazante” — o valor acrescentado costuma ficar entre 20% e 30%. Mas não sofremos tanto impacto.