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O frete dos produtos justifica mesmo?

A distância para trazer a Manaus produtos como mandioquinha e chuchu onera preços, mas economista vê abusos em diferenças superiores a 70%. 05/05/2012 às 18:40
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Abobrinha no mercado local chega a ser 248% mais cara
elaíze farias Manaus

Refinar o cardápio com mandioquinha, abobrinha italiana ou chuchu não é para qualquer bolso em Manaus. Levantamento de preços realizado por A CRÍTICA mostra que, nos supermercados da cidade, esses produtos chegam a custar o dobro em relação a um dos supermercados mais caros de São Paulo, a Casa Santa Luzia. Os varejistas locais argumentam que o frete encarece os preços, já que vários produtos são importados de outros Estados, principalmente da região Sudeste.

O economista Francisco de Assis Mourão Júnior, vice-presidente do Conselho Regional de Economia (Corecom), reconhece que um produto importado de outros Estados – sobretudo se forem direcionados à classe A – precisa ter um reajuste no seu valor, desde que não ultrapasse 70% da média do preço local. Acima desta marca, o valor é considerado abusivo.

Comparamos preços de 13 produtos vendidos nas três principais redes de supermercados de Manaus (DB, Carrefour e Emporium Roma) utilizando como parâmetro a Casa Santa Luzia. A diferença (para mais) vai de 26% a 298%. Os produtos com diferenças maiores foram a mandioquinha, a abobrinha italiana, o chuchu, o tomate caqui e a manga Haden, cujos preços chegam a ser mais que o dobro dos valores cobrados na Casa Santa Luzia. O caqui, a cenoura, a uva Itália, o figo roxo e a abóbora em pedaços ficaram em um ranking intermediário, com uma diferença entre 68% e 95%.

Mesmo sem acesso à planilha de custos e receita dos três supermercados, o economista Mourão Júnior analisou a lista dos produtos indicados pela reportagem e constatou que apenas três deles - kiwi, berinjela e beterraba - estão dentro da média de no máximo 70%.

“Vários fatores compõem o preço. Mas acredito que o máximo de diferença que deve ser cobrado é de 70% a mais. E isso colocando o imposto, o frete, que geralmente é via aérea porque são produtos perecíveis, a carga tributária, além da margem de lucro. Acima disso, eu considero abusivo. Acho que os supermercados não podem alegar a distância para colocar esse preço e nem que a causa é porque eles são vendidos para um público de classe A”, analisou.

Para Mourão, “é razoável” o empreendedor aplicar 50% nos custos e tirar 20% de margem de lucro. O economista esclarece que sua avaliação está “tirando por alto” já que não possui os números que compõem os custos e o valor da receita.

Para quem não quer se submeter aos altos preços ou tentar procurar algo menos salgado, o economista orienta a atitude mais óbvia: pesquisas. “O ideal é não comprar de primeira. O problema é que estes produtos são para a classe A. Estão no topo da pirâmide. Ele (o empreendedor) vai botar o custo no valor. Mas eu não concordo com a justificativa que dão para definir um valor tão alto”, destaca.

De cinco anos para cá, os produtos regionais comercializados nos supermercados de Manaus encontraram o seu espaço nas prateleiras. Como resultado, a possibilidade do consumidor adquirir produtos mais em conta.

Os itens mais comuns são ovos, farinha de mandioca, hortaliças, frutas e, pescado da piscicultura. Para a Agência de Desenvolvimento Sustentável (ADS), órgão estadual de fomento do Amazonas, os produtos vendidos nos principais supermercados (sobretudo DB e Carrefour) são mais uma alternativa de mercado aos produtores rurais.

Contudo, a comercialização ainda sofre com alguns aspectos negativos que acabam impactando o capital de giro dos produtores. Um deles é a falta de diversidade produtiva no âmbito da agricultura familiar. Outro problema é o fracionamento.

A ADS explica que a estocagem é limitada e as redes possuem baixa capacidade de estocagem, com isso, utilizam estoques do produtor.  “Todas as promoções lançadas pelos supermercados são custeadas diretamente pelos fornecedores. Com isso, não há diferenciação entre as grandes empresas, os produtores rurais levando-os à elevados custos extras”, explica o diretor técnico da ADS, Luis Otávio Rodrigues.

Qualidade também conta
A distância entre o centro produtor e as lojas, a dimensão da compra, a eficiência da empresa, a logística de transporte, o estoque e o trato da mercadoria são alguns dos fatores que levam o supermercado DB a definir o preço dos produtos, segundo o assessor de marketing da empresa, Guto Corbett. “Produtos têm diferenças muito grandes de região para região, de produção e tem produtores em vários pontos do País e do mundo. Por serem produtos vindos do agronegócio, sofrem também interferências de clima e de mercado mais que outras commodities e produtos industrializados. São fatores que interferem bastante na definição do preço final para o consumidor”, disse ele.

O Emporium Roma se pronunciou dizendo que a logística é o principal fator que determina o preço. A gerência diz que supermercado trabalha um conceito que é um dos diferenciais para a empresa: a qualidade. “Nossos produtos passam por cuidados que quando o cliente chega ao supermercado não precisa ficar escolhendo; ele olha e pega seu produto. O Emporium Roma, depois que compra o produto em SP, retira das caixas de papelão, embala tudo em caixa de isopor, lacra e encaminha para o transportador realizar os trâmites finais. Esse é um dos nossos grandes diferenciais”, diz a gerência.

O Carrefour enviou nota dizendo “que segue a média de preços do mercado local. Deste modo, os preços dos produtos do supermercado de Manaus são fixados de acordo com pesquisas realizadas constantemente pela própria rede na região”.