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Cotidiano
INSTINTO

Policiais falam sobre situações em que arriscam a vida fora do horário de serviço

O princípio de inteira dedicação à segurança da comunidade. Esse é o fator apontado por comandantes de unidades militares como princípio que leva o policial a reagir a crimes, mesmo quando não está em serviço 20/04/2018 às 06:00
Show policial
Arte: Tiago Rocha
Joana Queiroz Manaus (AM)

Dedicar-se inteiramente ao serviço policial militar para a manutenção da ordem pública e a segurança da comunidade, mesmo com o risco à própria vida. Isso é o que diz o juramento feito pelo policial ao ingressar nas fileiras da corporação. De acordo com comandantes das unidades militares, esse princípio é o que leva o policial reagir a crimes, mesmo quando não está em serviço.

A psicóloga Yone Mourão define reações deste tipo como “instinto profissional”, que envolve tanto uma análise racional quanto um impulso mais emocional. “A razão aparece quando ele (o policial), mesmo estando de folga, se depara com uma situação de violência que só ele pode resolver, já que foi treinado para isso”, observa. “Quanto à emoção, muitas vezes, ele imagina que aquela vítima, poderia ser um ente seu, o seu filho, a mãe ou irmão e isso o leva a agir por impulso”, completa.

Na semana passada, o sargento Paulo Robson Leite Maia, 43, foi atingido com um tiro no olho direito após reagir a um assalto dentro de um micro-ônibus na avenida Torquato Tapajós, na Zona Norte de Manaus. Dois criminosos morreram em confronto.

Um dos criminosos estava com a arma apontada para a cabeça de uma criança de aproximadamente dois anos de idade quando o militar reagiu atirando contra o criminoso, que foi baleado com ao menos dois tiros e morreu ainda dentro do coletivo de linha 848.

O outro, que portava a arma, conseguiu descer do veículo mesmo baleado. Entretanto foi alcançado por policiais da Ronda Ostensiva Cândido Mariano (Rocam) e morto após troca de tiros.

O sargento sobreviveu, foi internado em estado grave no Hospital e Pronto-Socorro (HPS) João Lúcio, na Zona Leste, mas não resistiu e morreu no dia seguinte. Segundo informações de médicos, o projétil que acertou o olho direito do policial e ficou alojado na parte de trás do crânio dele.

O comandante do Comando de Policiamento Especial (CPE),  Roberto Araújo, disse que reagir diante de uma ação criminosa está “intrínseco” no espírito do policial militar, que começa na formação, quando ele adquire um “sentimento verdadeiro de proteção da sociedade”. “Muitos colegas nosso caem em combate por esse sentimento”, disse.

De acordo com o comandante do CPE, muitos policiais aprendem isso ainda na academia e a coisa fica ainda mais latente na prática, quando o policial passa viver o dia a dia nas ruas enfrentando a violência, que é um dos serviços de polícia. O policial também passa por um treinamento, no qual são ensinadas formas de como e quando reagir.

Numa situação semelhante a do sargento Leite Maia, a orientação é que primeiramente ele pense na segurança dele, que observe todo o ambiente. Ao avaliar o cenário, ele deve ponderar se só há uma pessoa naquela prática criminosa, se a ação do criminoso pode vir a atingir um inocente. “O que eu posso afirmar é que, no caso do sargento, ele agiu por instinto policial, se houve ou não uma análise de um cenário crítico a gente só vai saber posteriormente”, afirmou.

Opção pela coragem

Colegas de farda do sargento Paulo Robson Leite Maia afirmam que ele era um bom policial. O militar costumava dizer aos colegas que preferia mil vezes salvar a vida de pessoas do que se omitir, que preferia ser “um corajoso morto a tombar como um covarde”.

A morte dele causou comoção na tropa principalmente nos colegas que tiravam serviço com ele. “Ele tentou salvar uma criança durante o assalto e acabou sendo atingido”, lembrou o cunhado dele, Rominey Roberto.

Reagir faz parte da vida profissional, diz tenente

Casos de reação policial diante de flagrante de ações criminosas em Manaus são frequentes e há registros de policiais que reagiram e tiveram êxito. O delegado da Polícia Civil Guilherme Torres é um desses. Em 2016 ele estava saindo de casa para trabalhar quando foi atacado por um ladrão que tentou levar o seu celular.

Segundo o delegado, o criminoso pegou o aparelho e entrou em um táxi, que estava dirigindo. O delegado, então, abordou o suspeito. “Eu falei ‘deita, deita’, ele fez menção de que ia sacar a arma, então eu falei ‘solta arma e deita no chão’. Depois fiz uma revista no veículo”, contou. Com o ladrão foram encontrados outros celulares coletados em assaltos anteriores.

O tenente da Polícia Militar Thiago Coelho diz que o reagir diante de um criminoso em ação, faz parte da vida profissional. Ainda em recuperação de um acidente grave, andando de muletas, ele e o irmão que também é policial estavam voltando de uma consulta quando viram um aglomerado de pessoas na avenida Darcy Vargas e um homem armado com uma faca que tentava assaltar as pessoas no ponto de ônibus. “Eu nem pensei nas minhas condições naquele momento. Saí do carro e com o meu irmão nós fomos atrás do criminoso e o prendemos”.

Psicóloga destaca doutrina policial

"Normalmente o profissional tende a reagir uma ação conforme ele é treinado ou doutrinado. No caso de policiais que reagem a uma ação criminosa, ele é tomado pela razão e também pela emoção. A razão aparece quando ele, mesmo estando de folga, se depara com uma situação de violência, e naquele momento, como policial, ele se vê numa situação em que só ele pode resolver, já que é um policial, foi treinado para isso e está portando uma arma. É quando ele age sem pensar na própria vida", explica a psicóloga Yone Mourão.

"Quanto à emoção, muitas vezes, ele imagina que aquela vítima, poderia ser um ente seu, o seu filho, a mãe ou irmão, e isso o leva a agir por impulso. Situações semelhantes são comuns com outras classes, como por exemplo, os bombeiros que em incêndios, independentemente do risco de um desabamento ou de queimaduras que possam lhes custar a vida, eles não se intimidam em enfrentar o fogo para resgatar as vítimas. Isso é instinto profissional", completa.

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