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Cotidiano
Difícil caminho

Para atingir equilíbrio fiscal, Temer terá que enfrentar inflação, desemprego e ‘antipatia’

Nos próximos meses, o presidente da República interino vai ter que superar desafios de grande porte, como o ajuste fiscal, a reforma da Previdência e a reforma tributária, que são medidas nada populares 16/05/2016 às 05:05 - Atualizado em 16/05/2016 às 19:09
Aristide Furtado Manaus (AM)

Alçado ao comando do País com o afastamento da presidente Dilma Rousseff (PT), Michel Temer (PMDB) terá que adotar medidas impopulares para recuperar as contas públicas e criar um ambiente favorável à retomada do investimento produtivo no País, como a possível recriação do Imposto Sobre Movimentação Financeira (CPMF), medida proposta pela petista e implacavelmente combatida pela oposição no Congresso.

Em sua primeira manifestação pública após a posse o ministro da Fazenda Henrique Meirelles falou sobre a possibilidade de implementação do ‘imposto sobre o cheque’. “Para que a economia no País volte a crescer é importante diminuirmos o nível de tributação, mas a prioridade hoje é o equilíbrio fiscal. Caso seja necessário um tributo ele será aplicado, mas de modo temporário”, disse.

Para a economista Denise Kassama, a prioridade do governo será o ajuste fiscal, ou seja, adequar as despesas do Estado ao  tamanho de suas receitas.  “O que tem que ser feito todo mundo sabe. É o  ajuste fiscal, a reforma da Previdência e tributária. Não vão ser medidas populares. Todo mundo brigou com a   Dilma dizendo que ela ia voltar com a CPMF. O imposto pode votar sem a Dilma. A maior parte dos que estavam criticando as medidas que Dilma estava tentando fazer, agora o Temer vai fazer”, afirmou.

O presidente do Conselho Regional de Economia do Amazonas (Corecon/AM), Nelson Azevedo, não vê com bons olhos o possível aumento ou criação de novos impostos. Ele ressalta que o País possui uma carga tributária altamente elevada. A primeira tarefa do governo Temer, na avaliação do economista, é enxugar a máquina. “Não é aumentando da carga tributária que vai aumentar a arrecadação. Muitas vezes se arrecada mais com menos. Pode reduzir a carga tributária e melhorar a competitividade, consumir mais. Tem que haver uma desoneração na cadeia produtiva. O momento não é de se falar de aumento de carga tributária. É o mesmo que falar uma palavrão para alguém”, disse.

Azevedo, que também atua como vice-presidente Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), ressalta que o governo tem que dar o bom exemplo e cortar gastos. “A redução dos ministérios tem que implicar na redução nos gastos públicos para poder o Estado caber dentro da sua capacidade de arrecadar. Ninguém pode gastar mais do que ganha. Tem que continuar combatendo rigorosamente a corrupção. Tem que ver as reformas que podem  fazer agora. Ver onde está havendo desperdício de recursos, despesas desnecessárias. Despesas que podem ser evitadas”, enfatizou o economista.

Na opinião do economista Martinho Azevedo, dá para criar um ambiente propício à alavancagem da economia brasileira sem onerar ainda mais o bolso do contribuinte, desde que o governo seja firme, transparente, resgate a confiança de empresários e consumidores e priorize o planejamento integrado a curto, médio e longo prazo. “Primeiro deve fazer o dever de casa e reduzir a máquina. Quem mantém o Estado é a sociedade. E essa sociedade tem capacidade de dizer qual o modelo ideal para ela. Há outras formas de impulsionar a economia. É grande, no Brasil, a burocracia para você implementar negócios. Tem como resolver isso. Precisamos dar maior eficiência ao gestor público”, ponderou.

Segundo Denize Kassama, que integra o Conselho Federal de Economia, a redução de 32 para 24 ministérios foi uma boa sinalização para o mercado. “Do ponto de vista político social, contudo,  olharia com atenção se com a redução essas áreas vão  ter a mesma eficiência. Do ponto de vista econômico, é interessante, contribui para reduzir o déficit público. Mas acumular numa única pasta, como a da Justiça, a questão dos Direitos Humanos e das Mulheres cada área vai ter a mesma atenção? No caso do ministério da Fazenda com a Previdência coloca-se o órgão que fiscaliza com o que concede. Vejo com certa temeridade essas junções”, disse a economista.

Vanessa Grazziotin, senadora pelo PCdoB

“Em relação ao estado do Amazonas, especialmente à Zona Franca de Manaus, eu só quero lembrar que a formatação do Ministério que ele prometeu ser técnico e de alto nível, só tem ministros parlamentares e sem experiência nenhuma. A gente sabe as posições que essas pessoas têm em relação às regiões, sobretudo com a Zona Franca de Manaus. Já convivemos com eles no poder (FHC), ministro Serra, e vimos qual é o prestígio que tem a Zona Franca de Manaus.  Eles acham que é uma sangria desnecessária, por meio dos incentivos fiscais, que vai para uma região que não deveria receber. Temo que nós vamos enfrentar muitos problemas, nesse governo, com a Zona Franca”, disse a senadora do Amazonas Vanessa Grazziotin (PCdoB).

Nelson Azevedo, vice-presidente da Fieam

“A gente espera que a confiança, a governabilidade e a credibilidade do País seja retomada para melhorar o ambiente de negócios. O empresariado nacional estava com pé atrás para investir. Os rebaixamentos da avaliação do risco do País inibiam o investimento estrangeiro. Não é de uma hora para outra que vai mudar. Tem que dar uma arrumada na casa. Esperamos  que as pessoas que estão sendo indicadas para os ministérios tenham em mente a voz das ruas As pessoas querem mudança e ter confiança. A gente acredita que algo de melhor e positivo pode acontecer no nosso País. O presidente  tem que tomar medidas urgentes. Tem pouco tempo para reverter o quadro de instabilidade. Tem que mostrar algo  que possa gerar emprego,  acesso ao crédito para haver consumo. O povo do Amazonas se manifestou favorável à mudança. O presidente tem que olhar para todas as regiões com suas peculiaridades. A Zona Franca de Manaus é um modelo que deu certo. Geramos  mais receita do que recebemos de volta. Acredito que o governo Temer vai dar o tratamento que cada região precisa. Temos  que dar um crédito de confiança e esperar que isso aconteça. Não lhe faltará  o apoio da sociedade amazonense”.

Carlos Santiago, cientista social

“No Brasil tem dois presidentes da República. Fato inédito. Uma eleita pela via direta  com  mais de 54 milhões de votos e afastada e o outro que está no exercício do cargo pela via indireta através do parlamento. Mas o que está no cargo pelas vias indiretas tem melhores condições de governabilidade do que as da presidente eleita. Tem a favor dele a grande imprensa, o grande empresariado nacional, a maioria absoluta do Congresso Nacional o apoiando. Tem o ministério composto por uma equipe toda formada. Diferente da presidente eleita que tinha  resistência da grande imprensa,  do Congresso, do grande capital, e foi afastada sem conseguir organizar o ministério dela por interferência política ou jurídica.  Há uma condição melhor de governança para  Michel Temer.  O maior desafio dele é a credibilidade porque ele tem que consolidar a imagem de um governo que está de forma legítima. Nos últimos meses agiu de forma a ficar com o cargo da presidente. O desafio é passar confiança, credibilidade e legitimidade. Vai ter que demonstrar  que quer continuar o combate à corrupção. Qualquer gesto dele para impedir o andamento de combate à corrupção será agressão à opinião pública. Embora aponte para o futuro, tem um quadro de ministros que remete aos velhos quadros da política nacional. Vai ter que convier e articular com os maiores partidos que antes tinham paixão pela Dilma e hoje juram amor a Temer”.

Entrevista: Silas Câmara, deputado estadual

1 - O presidente do PRB, Marcos Pereira, do seu partido, assumiu o Ministério da Indústria e Comércio. O senhor vai indicar nomes para a Suframa?

 A principal influência é do próprio ministro, que será também o presidente do Conselho de Administração da Suframa. Sobre a composição da superintendência e diretorias, não posso dizer nada porque não sei o que vai acontecer, pois não é bom para a democracia essa história de Ministério com porteira fechada, como o PT fez todos esses anos

2 - Como o senhor avalia a indicação do ministro, que não é da área industrial?

A presença do presidente Marcos Pereira simboliza a composição da base de sustentação do presidente da República (Michel Temer) e dessa governabilidade. Todas as demais funções do Ministério da Indústria e Comércio são ocupadas por pessoas altamente qualificadas que vão dar o suporte ao ministro, que também é muito preparado.

3 - Com a chegada do novo governo, apoiado por partidos tachados de “inimigos” da ZFM, a bancada do Amazonas poderá neutralizar investidas contra a indústria amazonense?

Nossos maiores desafios estarão no Ministério da Fazenda, na Receita Federal. O presidente Michel não pode ignorar que as desigualdades regionais são o maior desafio dessa nação. Vamos construir um relacionamento que vai nos dar tranquilidade de saber que a Zona Franca estará preservada.